Os médicos Sérgio Vencio, endocrinologista, e Carlos Tadeu Garrote, oncologista, alertaram ao Jornal Opção sobre os riscos do uso indiscriminado de canetas emagrecedoras, especialmente de produtos falsificados adquiridos no mercado irregular. Entre as principais preocupações estão o desenvolvimento de pancreatite — uma inflamação aguda do pâncreas — e os efeitos ainda em estudo dessas medicações sobre o organismo a longo prazo.

Segundo Sérgio Vencio, o perigo aumenta significativamente quando os medicamentos são comprados sem prescrição ou fora dos canais oficiais, muitas vezes oriundos do Paraguai ou comercializados pela internet sem qualquer controle sanitário. Nesses casos, os produtos podem não conter bula, rótulo adequado ou sequer a substância anunciada na embalagem.

“Quando você vai ao supermercado, você não compra um iogurte sem rótulo. Então, por que com remédio seria diferente?”, questiona o endocrinologista.

O médico destaca que o paciente não deve buscar o emagrecimento a qualquer custo. Embora o risco de pancreatite seja considerado baixo, a complicação pode evoluir para quadros graves, incluindo internações, piora metabólica, agravamento do diabetes e até morte.

“O paciente não pode querer emagrecer a qualquer custo. Ele precisa considerar os riscos e as consequências de utilizar esses medicamentos”, alerta.

A preocupação ganhou força após um alerta emitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em fevereiro deste ano. Entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, a agência recebeu 145 notificações de suspeitas de eventos adversos relacionados às canetas emagrecedoras, incluindo seis suspeitas de morte associadas ao uso dos medicamentos.

O cenário internacional também chama atenção. A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) registrou 1.296 notificações de pancreatite relacionadas ao uso dessas substâncias, incluindo 19 óbitos.

Para Vencio, além do risco associado ao próprio medicamento, o uso de produtos falsificados e a administração de doses inadequadas potencializam as chances de complicações. Como o conteúdo dessas canetas clandestinas é desconhecido e não passa por inspeção da Anvisa, os efeitos sobre a saúde podem ser imprevisíveis.

“A pessoa fala para o médico: ‘eu quero perder 12 kg com Mounjaro’. Mas será que compensa o paciente correr esse risco, mesmo que ele seja muito pequeno?”, questiona.

O especialista defende que a indicação das canetas seja sempre individualizada, levando em consideração o histórico clínico, os fatores de risco e o acompanhamento contínuo por um profissional habilitado.

A preocupação com a pancreatite também levou pesquisadores a investigar uma possível relação entre as canetas emagrecedoras e o desenvolvimento de câncer de pâncreas. Segundo o oncologista Carlos Tadeu, essa hipótese surgiu porque inflamações crônicas no órgão podem aumentar o risco de tumores ao longo do tempo. Até o momento, porém, essa associação não foi observada clinicamente.

“Esse era um dos receios iniciais da oncologia, mas os estudos realizados até agora não demonstraram aumento de câncer de pâncreas entre os usuários dessas medicações”, afirma.

Pelo contrário, pesquisas recentes têm apontado um possível efeito protetor indireto. Como a obesidade é reconhecida como um dos principais fatores de risco para diversos tipos de câncer, a perda de peso proporcionada pelos medicamentos pode contribuir para a redução da incidência de tumores.

“Apesar de ser uma medicação recente, é muito claro para a medicina que o uso das canetas diminui o risco de diversos tipos de câncer associados à obesidade”, destaca Tadeu.

Estudos observacionais já identificaram redução na incidência de tumores de mama, colorretal e gastrointestinais entre pacientes que utilizaram os medicamentos para controle de peso e diabetes.

A principal ressalva da oncologia envolve o câncer de tireoide. Os alertas existentes surgiram a partir de estudos realizados em animais, nos quais foi observado aumento da incidência desse tipo de tumor após exposição prolongada aos medicamentos. Até o momento, entretanto, não há comprovação de que o mesmo efeito ocorra em seres humanos.

Por precaução, pacientes diagnosticados com a síndrome genética de Neoplasia Endócrina Múltipla (MEN) ou com histórico familiar de carcinoma medular de tireoide são orientados a evitar o uso dessas medicações.

Enquanto os estudos sobre os efeitos de longo prazo continuam, os especialistas são unânimes em um ponto: o uso das canetas emagrecedoras deve ocorrer exclusivamente sob orientação médica e com medicamentos de origem comprovada, evitando riscos desnecessários à saúde.

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