A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia, no último domingo, 21, e a consolidação da vantagem de Keiko Fujimori no Peru, na quarta-feira, 24, não representam apenas duas mudanças de governo na América do Sul. Na verdade, esses resultados eleitorais mostram uma tendência que vem se consolidando no continente: a direita, em suas vertentes mais radicais, ultrapassou a esquerda no comando dos países sul-americanos, controlando agora sete das 12 nações da região.

Esse movimento, que começou a ganhar corpo em 2016 e se intensificou com a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil em 2018, segundo analistas, tem raízes que vão além das especificidades nacionais. Para compreender esse fenômeno, o Jornal Opção ouviu três especialistas que oferecem perspectivas complementares sobre as forças que impulsionam a direita no continente e os riscos que essa guinada representa para a democracia na região.

A dimensão transnacional e o papel dos Estados Unidos

De acordo com a pesquisadora e doutora em Estudos Latino-Americanos Gabriela Segura-Ballar, o avanço da extrema-direita na América Latina não pode ser compreendido apenas a partir de lentes nacionais. “Nos últimos anos, a extrema-direita deixou de ser um fenômeno concentrado em poucos países e passou a conquistar espaço em diferentes partes da América Latina”, afirma a especialista.

Segura-Ballar destaca o papel fundamental dos think tanks (tanques de ideias) e fundações estadunidenses que, há décadas, financiam figuras, organizações e movimentos alinhados com agendas conservadoras na região. “É importante então analisar os casos do Peru e da Colômbia como parte dessa dinâmica transnacional. Pela importância do Brasil no tabuleiro internacional, as próximas eleições também serão fundamentais na consolidação dessa tendência, caso o Flávio Bolsonaro ganhe as eleições presidenciais”, explica.

Pesquisadora Gabriela Segura-Ballar | Foto: Arquivo pessoal

Essa dimensão internacional pode ser observada na atuação da segunda administração de Donald Trump. A especialista ressalta que “a direita internacional utiliza os mesmos discursos e a mesma estética, promovendo as mesmas agendas econômicas e políticas alinhadas incondicionalmente aos Estados Unidos e a Israel”. Como exemplo, ela cita o apoio aberto de Trump a candidatos como Javier Milei na Argentina e Abelardo de la Espriella na Colômbia, além de operações midiáticas coordenadas para atacar governos progressistas, como o Hondurasgate revelado pelo Diario Red.

“Vemos, então, uma internacional de direita, composta por governos e movimentos alinhados à agenda MAGA e à reativação da doutrina Monroe, que procura garantir o controle dos recursos e territórios latino-americanos pelos Estados Unidos”, alerta Segura-Ballar, que vê no avanço conservador uma espécie de novo Plano Condor, com operações coordenadas e financiadas pelos EUA.

Corroborando essa visão, a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em América Latina, Regiane Bressan, observa que os candidatos de direita na região têm se apresentado como “grandes salvadores da pátria”, mimetizando discursos que rapidamente se disseminam pelo continente através das redes sociais. “Temos uma onda de extrema direita que não começou na América Latina, ela atingiu já a Europa, ainda temos governos na Europa de extrema direita, nos Estados Unidos se repete com esse segundo governo de Donald Trump, e na América Latina ainda vivemos esse tipo de onda”, afirma Bressan.

A pesquisadora chama a atenção para a pressão exercida pelos Estados Unidos sobre a região, tensionando e dando condições para a eleição de governos extremistas alinhados a Washington. “Desde Keiko Fujimori, que deve ser agora eleita no Peru, até Abelardo de la Espriella, bem como Javier Milei, ou seja, temos uma grande pressão dos Estados Unidos”, alerta Bressan, destacando que o Brasil, por sua importância estratégica, sofre pressões ainda maiores para se alinhar a essa tendência.

O fator econômico e o desgaste da esquerda

Para o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Goiás (UFG), Guilherme Carvalho, a explicação para o avanço da direita passa necessariamente pela economia e pelo ciclo político que a região vem experimentando. “A gente está vivendo um contraciclo”, avalia o professor, lembrando que há cerca de 12 anos vivemos a chamada “onda rosa”, quando governos de esquerda se sucederam na região, impulsionados pelo boom das commodities.

No entanto, a partir de 2008, com a emergência da China como grande potência global e a crise do subprime nos Estados Unidos, as condições econômicas começaram a mudar. “Essa crise econômica lançou luz na América do Sul para o fato de a esquerda ter prometido entregar políticas públicas que melhorariam de fato a vida das pessoas, mas que promoveriam igualdade de oportunidades também”, explica Carvalho, observando que o somatório de crises provocou uma reação. 

Essa reação, segundo o professor, estruturou um bloco de direita que passou a trabalhar em consonância, com ideias muito parecidas, diferentemente do que ocorria anteriormente quando atuava de forma fragmentada. “A trajetória da direita é um pouco diferente, porque foram trajetórias isoladas, inspiradas pelas mesmas insatisfações que estavam se dando em toda a América do Sul, especialmente, e que estavam diretamente conectadas com a falta de eficiência de um certo sistema que tinha a esquerda como o seu símbolo máximo”, analisa.

Carvalho destaca que a direita conseguiu se organizar organicamente, entendendo que o adversário era o mesmo e, portanto, a resposta deveria ser unificada. “Se quisessem vencer, a receita seria basicamente a mesma”, afirma, observando que hoje temos uma estruturação homogênea de propostas na região, com lideranças como o salvadorenho Nayib Bukele servindo de inspiração. 

A professora Regiane Bressan complementa essa análise ao destacar a emergência de governos e presidentes outsiders da política tradicional. “A Argentina elegeu Javier Milei, assim como El Salvador com Nayib Bukele, e agora a Colômbia acaba de eleger Abelardo de la Espriella. Todos eles apresentam para o seu eleitorado uma resposta rápida aos problemas cotidianos”, explica, lembrando que na Argentina, as sucessivas trocas de presidentes de diferentes espectros políticos não conseguiram tirar o país da crise econômica.

Para Bressan, além da questão econômica, atualmente o que baliza as eleições na América Latina é a questão da violência e segurança pública. Governos que atuam de maneira assertiva nesse quesito, como Bukele em El Salvador com a construção de mega presídios, acabam conquistando o eleitorado e se mantendo no poder. “Eu apostaria que Milei pode ser reeleito, ou seja, eu não vislumbro tão facilmente o encerramento desses governos, dessa fase, dessa era de governos de direita”, afirma a professora, que vê esses governos se fortalecendo e atuando de maneira eficaz nas redes sociais.

A dimensão religiosa, guerra cognitiva e redes sociais

A doutora Gabriela Segura-Ballar acrescenta à análise elementos culturais e religiosos fundamentais para compreender a força da direita na região. “O crescimento do evangelismo na América Latina e o papel adquirido pelos movimentos pentecostais e neopentecostais são fundamentais para compreender as adaptações nacionais dessa tendência transnacional”, explica a pesquisadora.

Além disso, a especialista destaca o papel dos meios de comunicação e das grandes corporações tecnológicas como X (antigo Twitter) ou Meta na formação da percepção e do debate político. “Considerando que essas corporações apostam na desregulação e nos interesses que favorecem os grandes capitães corporativos, elas configuram algoritmos que amplificam conteúdos e discursos alinhados à direita”, afirma.

Segura-Ballar chama a atenção para o que denomina “guerra cognitiva”, ou seja, o uso de narrativas e técnicas psicológicas para moldar e manipular as percepções da população, neutralizar o pensamento crítico e levar à aceitação de agendas contrárias aos próprios interesses das pessoas. “Por exemplo, o medo do que o país vai virar a Venezuela é um mantra da direita em toda a região, um discurso que permite, como outros têm dito, que as pessoas aceitem governos fascistas reais por meio de uma ameaça comunista fictícia”, alerta.

O professor Guilherme Carvalho compartilha dessa preocupação ao analisar como a direita tem dominado o ambiente digital. “São informações em pílulas que traduzem problemas complexos em respostas simplificadas nas redes sociais e eles têm ganhado mentes e corações”, observa, destacando que “a direita domina isso com muito mais facilidade”. Segundo Carvalho, há até uma questão geracional nesse processo: “Os mais jovens hoje têm aderido mais a blocos de direita não é à toa. É porque ela tem se comunicado melhor e tem falado mais sobre as dores”. 

Professor Guilherme Carvalho | Foto: Arquivo pessoal

O professor ressalta que os mais jovens estão chegando e exigindo respostas que os governos anteriores, de forma muito analógica, não conseguiam fazer. “Em termos eleitorais, a direita está dando aula para a esquerda. É isso que está acontecendo”, sentencia.

A professora Regiane Bressan também enfatiza o papel das redes sociais nesse processo, observando que os candidatos de direita e extrema direita têm manuseado muito melhor as ferramentas tecnológicas para atrair um público mais jovem que está descrente da política tradicional. “A própria democracia na América Latina vem enfrentando uma descrença generalizada, ainda que ela seja incipiente, vivemos a crise dos partidos políticos tradicionais”, contextualiza.

Os riscos à democracia e a deterioração institucional

Um dos pontos mais preocupantes levantados pelos especialistas é o impacto desse avanço da direita sobre as instituições democráticas na região. Guilherme Carvalho alerta que, para implementar promessas de segurança pública ao estilo Bukele, é necessário abrir mão do Estado Democrático de Direito. “As pessoas ficam muito satisfeitas com o resultado das prisões, mas são prisões que ocorrem à revelia da lei, porque a presunção de inocência não é respeitada”, adverte.

O professor da UFG faz uma distinção fundamental explicando que “as pessoas, de regra, acreditam que pra bandido não tem que ter presunção de inocência, mas quando você está num regime de exceção, a distinção entre o bandido e o não bandido não existe. Depende de quem está no poder e qual é a mensagem que está tentando passar”. 

Guilherme Carvalho faz referência ao livro “Como as Democracias Morrem”, de Daniel Ziblatt e Steven Levitsky, para explicar o modelo autoritário atual. “Você assume o poder e vai deteriorando os mecanismos da democracia por dentro. Então você usa a democracia para legitimar ações não-democráticas”, explica, lembrando que esse modelo foi iniciado na região pelo regime venezuelano, que se diz de esquerda.

“Enquanto a gente teve um amadurecimento da democracia na década passada, nessa década a gente está assistindo a uma deterioração dela. E essa deterioração não necessariamente vai significar generais no poder, dando ordens como era na década de 60. Mas ela vai significar a deterioração do significado da democracia de forma mais profunda”, alerta o professor, destacando que não se trata apenas do direito de votar e ser votado, mas dos elementos substantivos da democracia, como o direito de ser, de existir e de cidadania.

A professora Regiane Bressan também expressa preocupação com a emergência de governos extremistas na região. “Temos que tomar muito cuidado com a emergência de governos extremistas e não estou falando de ideologia, mas sim de extremos, porque eles sim representam uma ameaça à democracia, ainda que tenham um eleitorado jovem bastante importante”, alerta.

Bressan introduz o conceito de “democracia delegativa”, fenômeno comum na América Latina, no qual a população acredita que elegendo um presidente, ele teria poder suficiente para destituir inclusive instituições democráticas, partindo para um governo autoritário. “Vivenciamos isso na própria Venezuela, por isso que eu enfatizo, não estamos tratando de ideologia, estamos tratando de governos que, ao serem extremistas, rompem com as cláusulas democráticas e partem para o autoritarismo”, explica.

Perspectivas para o Brasil e a possibilidade de reversão do ciclo

Com os olhos agora voltados para as eleições brasileiras, os especialistas divergem sobre a durabilidade desse ciclo conservador na região. Gabriela Segura-Ballar observa que, apesar da força do avanço da direita, “o caráter estrutural dessa tendência vai depender de cada país”. Ela lembra que, no Peru e na Colômbia, os resultados são, na prática, empates técnicos e existem denúncias de fraude. 

“Grandes setores da população defendem agendas progressistas e soberanas; portanto, esses novos governos poderiam enfrentar um forte rechaço traduzido em grandes mobilizações sociais, como está acontecendo na Bolívia”, pondera.

A pesquisadora acredita que o avanço da ultradireita pode ser revertido nos países latino-americanos, desde que haja compreensão das forças nacionais e internacionais que estão atuando. “A primeira ação é compreender as forças nacionais e internacionais que estamos enfrentando, para assim poder confrontá-las com muita luta e organização e por meio de um grande trabalho de coordenação nacional e internacional”, defende.

Além disso, a doutora e pesquisadora observa que essa internacional de ultradireita depende muito do aval e apoio de Donald Trump. “Os Estados Unidos têm eleições de meio termo em novembro que podem ser um revés para Trump. Além disso, o próximo ano será ano de campanha política para as eleições de 2028, o que fará com que haja maior ênfase na situação interna”, analisa, sugerindo que as condições internacionais podem mudar.

Guilherme Carvalho adota uma perspectiva mais cautelosa. Embora reconheça que pode haver efeito replicador entre as experiências nacionais, ele questiona: “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Ou seja, uma experiência influencia a outra, ou são os fatos econômicos que são similares?” Para o professor, as causas podem ser diferentes, mas os resultados podem ser os mesmos.

Carvalho critica o fato de que políticos e estrategistas “não estão olhando para as condições ou fazendo estudos profundos sobre as razões das insatisfações das pessoas, mas o que elas estão fazendo é fornecer incentivos cotidianos ao aumento da polarização radical”. Ele alerta que “ninguém está olhando para as razões estruturais do porquê que as pessoas estão revoltadas. E aí a gente está produzindo políticas públicas que não estão resolvendo os problemas, porque a gente está interessado agora em abastecer a disputa ideológica e ganhar o debate nas redes sociais”.

Para Regiane Bressan, a dinâmica pendular da democracia pode levar a uma alternância para a esquerda nos próximos anos, mas ela faz uma ressalva preocupante. “Também podemos ver alguns governos indo, caminhando para o certo autoritarismo, o que é muito fácil na nossa região, já que essa situação de pobreza e desigualdade que são estruturais na América Latina, muitas vezes, dão espaço para governos populistas e autoritários”, alerta.

Professora Regiane Bressan | Foto: Arquivo pessoal

Sobre o Brasil, Bressan afirma que o país está sujeito a esse tipo de situação, mas ainda é cedo para dizer sobre os candidatos. “Passada a Copa do Mundo, já que o Brasil se volta muito para essa agenda, passado isso teremos um pouco mais de clareza em relação aos candidatos, as pesquisas eleitorais serão mais fidedignas à opinião pública, porque sabemos o quanto o nosso eleitor também é volátil”, explica.

A professora conclui destacando que o Brasil sofre pressões significativas dos Estados Unidos, que tem influenciado a região e dado condições para a eleição de governos extremistas alinhados a Washington. “O Brasil ainda tenta manter soberania, autonomia, porque sabemos o quanto podemos sofrer prejuízos com uma ingerência nos nossos países, mas certamente somos muito pressionados pela condição dos Estados Unidos”, finaliza.

Com a consolidação da direita no Peru e na Colômbia, somada aos governos já existentes na Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Equador, a América Latina vive um momento de inflexão política cujos desdobramentos, segundo os especialistas ouvidos pelo Jornal Opção, dependerão tanto da capacidade de resposta das forças progressistas quanto da sustentabilidade das promessas feitas pelos novos governantes conservadores.

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