Anápolis se prepara para dar início, em agosto, a uma das principais estratégias de combate à dengue já adotadas no município. A cidade começará a implantar o Método Wolbachia, tecnologia que utiliza mosquitos Aedes aegyptiportadores de uma bactéria natural capaz de reduzir a transmissão da dengue, zika e chikungunya. Antes do início da operação, equipes de saúde intensificam uma força-tarefa de conscientização para explicar à população como o método funciona e evitar que informações falsas comprometam a adesão da comunidade.

Em entrevista ao Jornal Opção, o diretor de Vigilância Sanitária de Anápolis, Daniel Soares, afirmou que a cidade já concluiu todas as etapas técnicas exigidas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), pelo Ministério da Saúde e pela Wolbito do Brasil, empresa responsável pela execução do projeto. Com isso, Anápolis passa a integrar, ao lado de Aparecida de Goiânia e Trindade, o grupo de municípios goianos escolhidos para receber a tecnologia.

“Nós estamos na fase que chamamos de engajamento. Os agentes já percorreram várias regiões de Anápolis comunicando a sociedade, explicando o que é o Método Wolbachia. Agora estamos fazendo um reforço dessas informações para não trazer alarde e não trazer desinformação”, afirmou.

A implantação ocorrerá inicialmente em 45 bairros, entre eles Centro, Jardim Alexandrina, Vila Jaiara, Maracanã e Bairro de Lourdes, alcançando uma população estimada em mais de 398 mil moradores.

Embora os insetos tenham ficado conhecidos popularmente como “Wolbitos”, Daniel Soares explica que a estratégia não consiste em liberar mosquitos adultos pelas ruas da cidade. Na prática, serão instalados recipientes contendo ovos de Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia em pontos previamente definidos a partir do monitoramento realizado pela Vigilância Sanitária.

“É bom esclarecer que nós não vamos soltar o mosquito. Nós vamos colocar os ovos já com a bactéria Wolbachia em alguns pontos, algumas iscas, e depois ele vai eclodir normalmente, dentro do ciclo normal do mosquito”, explicou.

Mais de 200 armadilhas monitoram a cidade

A preparação para a nova etapa começou antes mesmo da implantação do método. Atualmente, Anápolis possui mais de 200 ovitrampas distribuídas em diferentes regiões. As armadilhas monitoram a presença e a densidade do Aedes aegypti, permitindo identificar os locais com maior circulação do mosquito e orientar tanto a instalação dos ovos quanto o acompanhamento da eficácia da estratégia.

O funcionamento do Método Wolbachia é baseado na reprodução natural do mosquito. Quando os insetos portadores da bactéria cruzam com os Aedes aegypti já presentes no ambiente, a Wolbachia é transmitida para as novas gerações. Com o passar do tempo, a população de mosquitos passa a carregar a bactéria, reduzindo significativamente sua capacidade de transmitir os vírus da dengue, zika e chikungunya.

Segurança é principal dúvida da população

Segundo Daniel Soares, o maior desafio neste momento não é operacional, mas informativo. A principal resistência encontrada durante as visitas dos agentes está relacionada à palavra “bactéria”, frequentemente associada pela população a riscos para a saúde.

“Quando você fala bactéria, as pessoas pensam que é uma coisa danosa. Mas, dentro das pesquisas realizadas e validadas pela Fiocruz, Anvisa, Ministério da Saúde e por organismos internacionais, ficou comprovado que ela não causa qualquer dano ao ser humano”, afirmou.

O diretor também reforçou que os chamados Wolbitos não são organismos geneticamente modificados.

“É um mosquito normal, dentro da sua genética. Não houve alteração genética. A única diferença é que ele carrega naturalmente a bactéria Wolbachia”, explicou.

Apesar da chegada da tecnologia, Daniel ressalta que ela não substitui as medidas tradicionais de combate ao mosquito. A eliminação de recipientes com água parada, a limpeza de quintais e a entrada dos agentes de endemias para inspeções continuam sendo fundamentais para reduzir os focos do Aedes aegypti.

Mais de 5 mil notificações neste ano

A implantação do método ocorre em um momento de atenção para o município. Dados da Vigilância Sanitária mostram que Anápolis já contabiliza 5.492 notificações de dengue em 2026. Deste total, 1.292 casos foram confirmados, 4.049 descartados e 151 seguem em investigação. A doença provocou uma morte confirmada, enquanto outros cinco óbitos ainda são investigados.

Embora o município tenha registrado redução superior a 80% nos casos em relação ao pico observado no ano passado, Daniel Soares afirma que as mudanças climáticas e as alterações no regime de chuvas mantêm as equipes em alerta.

“Hoje nós temos alguns indícios de aumento. Por isso, o trabalho que a gente tem feito já é imediato, e queremos colocar esse projeto para funcionar o quanto antes para evitar que os números voltem a crescer”, concluiu.

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