Astrônomos identificaram, pela primeira vez, um açúcar verdadeiro fora do Sistema Solar. A molécula, chamada eritrulose, foi encontrada em uma gigantesca nuvem de gás e poeira próxima ao centro da Via Láctea, a cerca de 26 mil anos-luz da Terra. A descoberta foi publicada nesta segunda-feira, 13, na revista científica Nature Astronomy.

A eritrulose é um açúcar formado por quatro átomos de carbono e pertence à mesma família de moléculas de compostos fundamentais para a vida, como aqueles que participam da formação do DNA e do RNA. Na Terra, a substância pode ser encontrada em frutas como morango e framboesa.

Até então, cientistas haviam detectado no espaço moléculas semelhantes aos açúcares, como o glicolaldeído, mas nenhuma delas era considerada, do ponto de vista químico, um açúcar verdadeiro.

Segundo a astrônoma Izaskun Jiménez-Serra, do Centro de Astrobiologia da Espanha (CAB-CSIC/INTA) e principal autora do estudo, a eritrulose é o primeiro composto desse tipo confirmado no espaço interestelar.

“Embora se tenha dito que o glicolaldeído foi o primeiro açúcar detectado no espaço, ele não é considerado um açúcar. É por isso que a eritrulose é o primeiro açúcar verdadeiro detectado no espaço interestelar”, explicou.

Como a descoberta foi feita

A identificação ocorreu por meio de observações realizadas pelos radiotelescópios Yebes 40m e IRAM 30m, na Espanha. Os equipamentos detectaram a assinatura eletromagnética da molécula na nuvem molecular G+0,693-0,027, considerada uma das regiões mais ricas em compostos químicos da Via Láctea.

Para confirmar a descoberta, os pesquisadores compararam os sinais captados pelos telescópios com medições laboratoriais da eritrulose, cuja assinatura espectral já era conhecida. Além disso, identificaram mais de 180 espécies moleculares presentes na mesma nuvem, aumentando a confiabilidade da análise.

Formação em grãos de gelo

Os pesquisadores acreditam que a eritrulose se forma naturalmente sobre pequenos grãos de gelo presentes nas nuvens interestelares. Nesse processo, moléculas mais simples, como o glicolaldeído e o etilenoglicol, unem-se lentamente ao longo de milhões de anos para originar compostos mais complexos.

Essa hipótese reforça a ideia de que moléculas fundamentais para a vida podem surgir antes mesmo da formação de estrelas e planetas.

Relação com a origem da vida

Embora a descoberta não prove como a vida surgiu na Terra, ela fortalece uma hipótese discutida há décadas: a de que parte dos compostos químicos essenciais para o aparecimento da vida tenha chegado ao planeta transportada por cometas e asteroides.

De acordo com o estudo, durante o período conhecido como Bombardeio Pesado Tardio, entre 4,1 bilhões e 3,8 bilhões de anos atrás, algo entre 500 mil e 50 milhões de toneladas de eritrulose podem ter sido depositadas na superfície da Terra primitiva.

O astrobiólogo César Menor Salván, da Universidade de Alcalá, que não participou da pesquisa, destacou que o estudo representa um avanço importante, mas alertou contra interpretações exageradas. Segundo ele, a descoberta não explica diretamente a origem da vida nem a formação de moléculas como DNA e RNA, embora amplie o entendimento sobre a química existente no espaço.

Para Izaskun Jiménez-Serra, os resultados sugerem que compostos complexos podem ser muito mais comuns no Universo do que se imaginava. “Nossa pesquisa mostra que essas moléculas complexas podem ser mais comuns no Universo do que se pensava anteriormente, abrindo a possibilidade de que outros mundos desenvolvam vida como a conhecemos”, afirmou a pesquisadora.

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