Há um século, o empresário americano Henry Ford tomou uma decisão que transformaria permanentemente a relação entre trabalho, produtividade e qualidade de vida. Ao adotar uma semana de cinco dias e reduzir as horas de trabalho de seus operários de fábrica, ele inaugurou um modelo que se espalhou pelo mundo e ajudou a tornar o fim de semana de dois dias o padrão para milhões de pessoas. Mais de um século depois, o assunto está de volta ao debate público brasileiro, impulsionado por discussões sobre o fim da jornada de trabalho 6×1 e sobre a reestruturação dos formatos de organização do trabalho.

É uma discussão que vai além da limitação das horas de trabalho, mas que está ligada à produtividade, competitividade econômica, criação de empregos, saúde física e mental dos trabalhadores e aos desafios enfrentados pelas empresas em diversos setores. Agora, em um momento em que muitas mudanças na tecnologia, nas relações de consumo e nas demandas sociais ocorreram, empreendedores, trabalhadores e especialistas estão todos fazendo a mesma pergunta: ainda há alguma maneira de construir um modelo mais equilibrado que encontre um equilíbrio entre desenvolvimento econômico e bem-estar social?

Em Goiás, a discussão reúne representantes de diferentes segmentos da economia e do movimento trabalhista, analisando os efeitos que mudanças nas leis trabalhistas e nos procedimentos de contratação podem ter. De um lado, entidades empresariais defendem a competitividade empresarial e a segurança dos investimentos. Por outro lado, líderes sindicais afirmam que a redução das horas de trabalho seria um grande ganho para a qualidade de vida e as condições de trabalho. Para ter uma noção das diversas perspectivas dessa conversa, o Jornal Opção conversou com líderes dos setores estratégicos da economia goiana e brasileira.

Luis Alberto Pereira, presidente do Sistema Organização das Cooperativas Brasileiras em Goiás (OCB/GO, por exemplo, analisa como as mudanças nas relações de trabalho afetariam o cooperativismo, um setor responsável por movimentar bilhões de reais e gerar milhares de empregos no estado. Os trabalhadores são representados por Eduardo Amorim, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC), da Federação dos Trabalhadores no Comércio dos Estados de Goiás e Tocantins (FETRACOM GO/TO) e do Sindicato dos Empregados no Comércio de Goiânia (SECEG). Como alguém que representa diversos aspectos do movimento trabalhista, ele avalia o efeito que as horas de trabalho têm na saúde, na renda e na qualidade de vida dos profissionais do comércio.

Uma descrição feita por Flávio Silva, presidente da Central Única dos Trabalhadores em Goiás (CUT-GO), que é um ativista defensor da ampliação dos direitos trabalhistas e também está envolvido em debates sobre a redução das horas de trabalho sem redução salarial, também foi refletida no relatório. Sua análise foca nas consequências sociais da medida e na dificuldade de criar um novo modelo de relações de trabalho no país.

O setor produtivo também está envolvido no debate, por meio de Marcelo Baiocchi, presidente da Fecomércio – Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Goiás (Fecomércio-GO), uma voz chave do empresariado goiano. Juntando-se a ele está Simeyzon Silveira, diretor de Relações Institucionais da Fecomércio, que apresenta a perspectiva do grupo sobre os desafios que as empresas poderiam enfrentar diante de possíveis mudanças nas horas de trabalho e seu impacto na economia.

Representando o setor de varejo e lojas, Valdir Ribeiro, presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Goiás (FCDL-GO), estima o impacto que uma mudança potencial poderia ter, especialmente entre micro, pequenas e médias empresas que fornecem grande parte dos empregos formais no estado. Já Leandro Resende, presidente interino da ACIEG, fala representando o setor Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás.

Entre argumentos a favor e contra, o debate sobre as horas de trabalho reflete uma questão contemporânea e um problema que a sociedade enfrenta hoje, que é a tensão entre alcançar produtividade e crescimento econômico enquanto se preserva a qualidade de vida.

Um século após Henry Ford fazer sua escolha, o mesmo debate que mudou o mundo continua relevante. E mais uma vez, trabalhadores, empreendedores e líderes sindicais têm que descobrir o futuro do trabalho. O caminho para o modelo de trabalho de 6 dias com 1 dia de descanso (6×1) — e a conversa atual sobre sua redução — tem suas raízes em mais de um século de revoluções industriais, pressões sindicais e evolução das leis trabalhistas. Esta história será dividida em duas partes — o panorama global e a consolidação desse modelo no Brasil. Da Revolução Industrial à Semana de 5 Dias. Para entender por que o cronograma 6×1 surgiu, precisamos entender o contexto que o precede. No auge da Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX), não havia regulamentação. Trabalhadores, incluindo mulheres e crianças, enfrentavam jornadas extenuantes de 14 a 16 horas por dia, 7 dias por semana.

Fábrica de Henry Ford | Foto: Divulgação

O nascimento de um cronograma que permitisse pausas foi lento, mas constante:

Influência religiosa: os primeiros freios a um dia de trabalho ininterrupto vieram do costume judaico-cristão de descanso aos domingos (Sabbath ou domingo cristão). As indústrias começaram a permitir que seus trabalhadores saíssem aos domingos, um acordo na forma de um cronograma 6×1 (6 dias de trabalho, 1 de folga) que eventualmente ganhou um nome oficial.

Luta pelas 8 horas: ao longo do século XIX, organizações trabalhistas na Inglaterra, nos EUA e na França começaram a usar o slogan “8 horas de trabalho, 8 horas de recreação, 8 horas de descanso”.

A OIT e o Tratado de Versalhes (1919): após a conclusão da Primeira Guerra Mundial, a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estabeleceu a semana de trabalho de 48 horas como uma tendência global sólida. O cronograma 6×1 se internacionalizou ao dividir as 48 horas em dias de 8 horas; de segunda a sábado formavam 6 dias.

Curiosidade histórica: Henry Ford fez com que a rotina 6×1 desaparecesse gradualmente nas nações industrializadas. Em 1926, quando descobriu que permitir que seus funcionários folgassem no sábado e domingo era produtivo, ele inventou os consumidores: Com mais tempo livre, os trabalhadores precisavam de carros para sair e dinheiro para gastar. Em 1938, os EUA adotaram oficialmente a semana de 5 dias (5×2).

No Brasil: da escravidão à consolidação da CLT A jornada do Brasil de um trabalho laissez-faire para um trabalho regulamentado foi lenta e repleta de problemas, incluindo a memória recente da escravidão (que terminou em 1888) e a rápida urbanização do início do século XX.

As primeiras linhas e a Constituição de 1934

As condições nas fábricas brasileiras (especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro) até a década de 1930 espelhavam as condições da Europa do século XIX.

Após a Revolução de 1930 e a chegada de Vargas, o Estado interveio diretamente nas relações trabalhistas. A Constituição de 1934 foi a primeira a estabelecer que todos os trabalhadores deveriam ter direito ao descanso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos.

A CLT de 1943 e a formalização do 6×1

O ponto de virada foi alcançado com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) promulgada por Vargas em 1º de maio de 1943. A CLT designou a semana de trabalho máxima de 48 horas. Na prática, na época, o teto para a distribuição dessas 48 horas era sempre em torno de 8 horas por dia de segunda a sábado. O cronograma 6 vezes 1 foi transformado em lei na vida diária dos trabalhadores brasileiros.

A Lei do Descanso Remunerado (1949)

Embora as disposições para descanso estivessem previstas na CLT, foi a Lei nº 605/1949, assinada sob o governo de Eurico Gaspar Dutra, que regulamentou estritamente o Descanso Semanal Remunerado (RSR). De acordo com a lei, os trabalhadores que concluíssem sua jornada semanal na íntegra tinham direito ao pagamento pelo dia de folga.

Constituição de 1988

A última grande mudança estrutural foi com a Assembleia Constituinte de 1988. O artigo 7º, inciso XIII, da Nova Constituição reduziu a carga horária semanal padrão de 48 para 44 horas. Mas essa mudança ofereceu às empresas apenas duas opções:

  • seguir o cronograma 6×1: onde o trabalhador trabalha 7 horas e 20 minutos de segunda a sábado
  • ou 8 horas de segunda a sexta-feira, além de 4 horas no sábado, totalizando 44 horas.

Este modelo ainda prevalece amplamente no comércio, bares, restaurantes e no mundo dos serviços até hoje. A mudança para o cronograma 5×2: 4 horas no sábado são recompensadas pelo restante da semana (trabalhando 8 horas e 48 minutos de segunda a sexta-feira) com uma folga permitida no sábado e domingo. Atualmente, o Brasil está lidando com um intenso debate político e social (iniciado por iniciativas como o IVA – Vida Além do Trabalho) que desafia a constitucionalidade e as implicações para a saúde e segurança do cronograma “6×1” e sugere alternativas como o cronograma 4×3 (quatro dias de trabalho e três dias de folga) ou a eliminação do trabalho obrigatório aos sábados sem diferenciação no pagamento, em linha com uma tendência que já parece estar ocorrendo em vários países europeus.

Fim da escala 6×1 divide Goiás entre defesa da qualidade de vida e temor por impactos econômicos

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e estabelece dois dias de descanso semanal reacendeu um dos debates mais sensíveis das relações trabalhistas no Brasil: o equilíbrio entre qualidade de vida, produtividade e sustentabilidade econômica. Em Goiás, representantes de trabalhadores e do setor produtivo apresentam visões opostas sobre os efeitos da mudança, enquanto concordam em um ponto: a discussão está longe de terminar.

A proposta, que ainda precisa passar pelo Senado Federal, prevê uma implementação gradual da nova jornada. A medida é celebrada por centrais sindicais e entidades de trabalhadores como um avanço histórico, mas encontra resistência entre representantes do comércio, da indústria e do cooperativismo, que alertam para possíveis aumentos de custos, pressão inflacionária e dificuldades de adaptação.

Qualidade de vida no centro do debate

Para o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC), da Federação dos Trabalhadores no Comércio nos Estados de Goiás e Tocantins (FETRACOM GO/TO) e do Sindicato dos Empregados no Comércio de Goiânia (SECEG), Eduardo Amorim, a discussão sobre o fim da escala 6×1 está diretamente ligada às condições de vida dos trabalhadores.

Eduardo Amorim, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC) | Foto: Arquivo

Olha, toda vez que se discute melhorar a vida do trabalhador, surge o discurso do medo. Foi assim com férias, com 13º salário, com licença-maternidade e com vários outros direitos.

Segundo ele, o comércio convive com uma realidade de desgaste físico e emocional crescente. “O comerciário vive uma rotina extremamente pesada, principalmente quem está na linha de frente das lojas, em pé durante horas, sob pressão de metas abusivas, cobrança psicológica e, muitas vezes, até desvio de função.”

Amorim afirma que relatos recebidos pela entidade revelam um cenário preocupante de adoecimento mental.

“Recebemos relatos muito pesados. Temos no SECEG um corpo médico de Psiquiatras e Psicólogos com alta demanda de consultas e pacientes relatando sobrecarga emocional. Gente que praticamente não vê os filhos acordados.”

Ele acrescenta que muitos trabalhadores enfrentam crises de ansiedade e esgotamento emocional.

“As novas gerações querem equilíbrio. Querem trabalhar, mas também querem viver. E isso não é radicalismo. É humanidade.”

A Central Única dos Trabalhadores em Goiás (CUT-GO) também considera a aprovação da PEC uma conquista histórica. Em nota, a entidade afirma que a redução da jornada representa um “avanço civilizatório” e reforça que a medida é resultado da mobilização sindical e popular. Para a central, reduzir a jornada sem redução salarial significa ampliar a qualidade de vida, fortalecer a convivência familiar e distribuir melhor o trabalho.

O presidente da CUT-GO, Flávio Silva, também rebate os argumentos de que a medida poderia provocar desemprego.

“É ao contrário, o número de emprego vai aumentar, sabendo? Tanto que eles são contraditórios, falam que vai aumentar porque vai ter que contratar mais gente. Se vão contratar mais gente, o desemprego vai cair, né?”

Ele defende que trabalhadores mais descansados tendem a ser mais produtivos.

“Uma indústria, por exemplo, ou o comércio, por exemplo, o vendedor que vai trabalhar menos tempo, em sentido de menos dias da semana, ele vai trabalhar com muito mais disposição. Ou seja, tende a vender muito mais.”

Outro aspecto destacado por Flávio é o tempo gasto nos deslocamentos. “Muitos desses empresários também, eles não param, pra pensar que um funcionário que trabalha oito horas por dia, ele passa quatro horas por dia, ou mais, dentro do ônibus, até chegar ao local de trabalho.”

Presidente da CUT-GO, Flávio Silva | Foto: Divulgação

Empresários alertam para custos e competitividade

Do outro lado da discussão, entidades empresariais avaliam que a mudança precisa ser debatida com mais profundidade e acompanhada de medidas compensatórias.

Para o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras em Goiás (OCB-GO), Luis Alberto, a principal preocupação está nos impactos econômicos de uma implementação rápida.

“Temos projeções de instituições sérias, como a FGV e CNC, que apontam possíveis impactos, como, por exemplo, o aumento de até 7% nos custos da folha salarial e de até 13% nos preços ao consumidor, que pressionariam a inflação.”

Ele defende que a discussão seja ampliada antes da adoção definitiva do novo modelo.“A transição gradual e planejada é o que separa o avanço civilizatório de um desastre econômico. Precisamos de tempo para calibrar essa equação.”

Apesar das críticas à forma como o tema vem sendo conduzido, Luis Alberto reconhece a legitimidade das reivindicações dos trabalhadores.“Essas demandas são legítimas e urgentes. A saúde mental não é uma pauta ideológica, é uma questão de saúde pública e de sustentabilidade do trabalho.”

Presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras em Goiás (OCB-GO), Luis Alberto | Foto: Divulgação

A Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Goiás (FCDL-GO), por meio do presidente Valdir Ribeiro, também demonstra preocupação com os reflexos da medida sobre micro e pequenas empresas.

“É uma equação que, na prática, não fecha. Considerando principalmente as micro e pequenas empresas, que sofrem com altos custos de encargos trabalhistas, a probabilidade de contratar mais funcionários com o fim da jornada 6×1 é quase nula.”

Segundo ele, a principal dificuldade está na combinação entre escassez de mão de obra e custos elevados. “Sobram vagas, faltam profissionais para preencher esses quadros.”

Ainda assim, a entidade afirma que o varejo está disposto a discutir novas formas de organização do trabalho. “Acredito que o varejo goiano está, sim, preparado para aprofundar nesse debate.”

Valdir Ribeiro, presidente da FCDL-GO | Foto: Divulgação/Sebrae Goiás

Debate sobre produtividade

Entre os representantes empresariais, um dos argumentos mais recorrentes é a necessidade de vincular qualquer redução de jornada ao aumento da produtividade.

Presidente da Fecomércio Goiás, Marcelo Baiocchi afirma que melhorar as condições de trabalho é uma pauta legítima. “Eu entendo que é necessário essa discussão, essa discussão é muito propositiva e importante pra nós.”

Ele ressalta que a própria Confederação Nacional do Comércio defende melhores salários. “O nosso presidente defende que o trabalhador tem que ser melhor remunerado, melhor remunerado, ele vai poder consumir mais, consumindo mais, as empresas vendem mais, aí vira um círculo virtuoso da economia.”

Entretanto, Baiocchi considera inviável uma mudança abrupta.

“Simplesmente cortar e em 60 dias passar a valer 5 por 2, duas horas a menos, vai ser um trauma pra fazer a gestão.”

Ao comparar o Brasil com outros países, ele destaca o problema da produtividade nacional. “Nós produzimos 20% que um trabalhador americano produz.”

Na avaliação dele, o país precisa avançar em tecnologia, capacitação e competitividade antes de alterar profundamente as jornadas.

“O que melhora a produtividade são vários fatores que precisam ser trabalhados.”

Presidente da Fecomércio Goiás, Marcelo Baiocchi | Foto: Divulgação

O diretor de Relações Institucionais da Fecomércio, Simeyzon Silveira, segue linha semelhante. Para ele, a discussão não deveria ocorrer isoladamente da questão tributária.

“Eu acho que a escala 5 por 2 é muito bacana. Mas o governo precisa desonerar o setor produtivo para poder fazer essa escala 5 por 2.”

Simeyzon Silveira | Foto: Divulgação

Simeyzon argumenta que os pequenos negócios seriam os mais afetados. “Nós estamos falando que 70% do setor produtivo é composto de pequeno e micro.”

Segundo ele, o desafio não é o prazo de adaptação, mas as condições econômicas para implementar a mudança.

“O problema não é a adaptação. A adaptação a gente adapta rápido. O problema é não ter como fazer.”

ACIEG

O presidente interino da ACIEG, Leandro Resende, manifestou posição contrária à PEC que propõe o fim da escala 6×1, argumentando que a medida pode gerar impactos negativos para a economia e para o próprio trabalhador. Segundo ele, a redução da jornada aumentará os custos das empresas sem garantir ganho de produtividade, o que pode resultar em reajustes de preços, cortes de pessoal e redução da competitividade. “A teoria é bonita, a prática é que não funciona. Estão vendendo uma fantasia para o trabalhador, mas a consequência ninguém está contando para ele”, afirmou.

De acordo com Resende, os setores mais afetados serão aqueles com maior demanda de mão de obra, especialmente serviços, comércio, segurança, limpeza e empresas prestadoras de serviços. Ele avalia que, diante do aumento dos custos operacionais, muitas empresas serão obrigadas a rever seus quadros de funcionários para manter o equilíbrio financeiro. “O empresário vai se ajustar, mas o trabalhador pode ser demitido por conta disso. No fim das contas, o consumidor e o trabalhador acabam pagando a conta”, destacou.

Para o presidente interino da ACIEG, o debate deveria estar focado no aumento da produtividade e na criação de alternativas flexíveis de negociação entre empresas e trabalhadores, em vez da imposição de um único modelo de jornada. Resende defende que cada setor possui uma realidade distinta e que a mudança foi proposta sem amplo diálogo com os segmentos econômicos. “O caminho é aumentar a produtividade. O trabalhador tem que ganhar mais e trabalhar menos, mas isso precisa ser construído com crescimento econômico e diálogo, não com proibição e imposição”, concluiu.

Leandro Resende, presidente interino da ACIEG | Foto: Divulgação

Negociação coletiva e caminhos possíveis

Outro ponto de divergência entre trabalhadores e empresários é a forma como eventuais mudanças devem ser implementadas.

Luis Alberto, da OCB-GO, defende que o debate seja conduzido por meio de negociação e planejamento.

“O legislado deve funcionar como a rede de segurança para o trabalhador e o negociado, como a possibilidade de construir algo sob medida.”

Já Eduardo Amorim avalia que a negociação individual não garante equilíbrio de forças. “Na prática, não garante. Precisamos falar a verdade. Existe uma relação desigual entre patrão e empregado.”

Para ele, a negociação coletiva continua sendo fundamental para proteger trabalhadores diante da pressão por metas e produtividade.

“O sindicato existe justamente para equilibrar essa relação.”

Apesar das diferenças, há convergência quanto à necessidade de discutir modelos intermediários. Luis Alberto defende uma transição gradual associada a ganhos de produtividade, enquanto Eduardo Amorim afirma que a mudança deve ocorrer “com responsabilidade, mas que aconteça”.

Entre o avanço social e os desafios econômicos

De um lado, trabalhadores e sindicatos argumentam que jornadas mais equilibradas representam uma resposta necessária ao aumento dos casos de adoecimento mental, à busca por qualidade de vida e às transformações nas expectativas das novas gerações. De outro, representantes empresariais alertam para os impactos sobre custos, competitividade e sobrevivência dos pequenos negócios.

Enquanto a proposta segue para análise do Senado, a disputa de narrativas continua. O consenso, ao menos por enquanto, é que a discussão sobre jornada de trabalho deixou de ser apenas um tema econômico para se tornar uma das principais pautas sociais do país.

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