Em 1922, o jurista e filósofo político alemão Carl Schmitt disparou uma das frases mais provocativas do século XX: “Todos os conceitos significativos da moderna teoria do Estado são conceitos teológicos secularizados”. Com isso, Schmitt argumentava que a política moderna, por mais que se pretenda racional, científica e técnica, apenas copiou as estruturas da teologia cristã. O Estado substituiu Deus; a lei substituiu os mandamentos; e a exceção (a crise) substituiu o milagre. Cem anos depois, dentro de uma sala de aula de hermenêutica, compreendi que essa tese nos empurra para um dilema ainda maior e perfeitamente atual: se a política não conseguiu se livrar da herança religiosa, poderá a ciência fazer isso? Conseguirá o método científico explicar o “metafísico” (aquilo que está além do mundo físico, como a origem da consciência, o sentido do ser ou o que há antes do Big Bang) sem recorrer à fé irracional?

Schmitt criticava duramente o positivismo — a ideia de que a sociedade e o direito funcionam como uma máquina perfeita e puramente racional. Para ele, essa visão técnica é uma ilusão. O cerne do argumento schmittiano baseia-se na equivalência entre dois âmbitos. De um lado, a teologia apoia-se no milagre, um evento divino que suspende temporariamente as leis estabelecidas da natureza por ordem de um Deus onipotente. De outro lado, a política apoia-se no estado de exceção, o momento de crise extrema onde o governante soberano suspende as leis do país para salvar o próprio Estado. Schmitt resume isso em sua famosa máxima: “Soberano é aquele que decide sobre o estado de exceção”. Quando as regras normais falham, a pura razão não resolve; é preciso uma decisão absoluta, quase mística. Isso prova, segundo ele, que o ser humano tem uma necessidade inerente de um “Absoluto”, e se o retiramos do altar da igreja, nós o colocamos na cadeira do presidente ou no tribunal.

Quando transferimos essa provocação para o campo das ciências exatas e naturais, a pergunta ganha contornos fascinantes. A ciência está avançando sobre territórios que antes eram domínios exclusivos da teologia e da metafísica. Hoje, áreas como a física quântica, a neurociência e a cosmologia tocam constantemente em barreiras metafísicas, como a origem de tudo no Big Bang ou os fenômenos quânticos, onde o efeito do observador desafia a lógica materialista clássica, fazendo com que a realidade pareça depender da percepção.

Historicamente, a religião usou o metafísico para explicar o que a ciência ainda não sabia (o “Deus das lacunas”). Se chovia ou trovejava, era a ira ou a vontade divina; quando a ciência explicou a meteorologia, a divindade recuou um passo. No entanto, substituir a fé cega pela ciência nem sempre elimina o pensamento metafísico; às vezes, apenas o veste de jaleco. Quando cientistas populares usam teorias como “multiversos” (universos paralelos indemonstráveis) para explicar por que o nosso mundo é perfeito para a vida, eles fazem uma metafísica matemática — uma fé baseada em probabilidades. O filósofo Karl Popper defendia que, para algo ser científico, precisa ser falseável (passível de prova em contrário). O metafísico puro nunca é falseável. Por definição, a ciência estuda o observável e o mensurável; o que está além disso permanece sob o manto da metafísica.

Uma das maiores fronteiras onde a ciência esbarra nesse teto é o chamado “Problema Difícil da Consciência”, formulado pelo filósofo David Chalmers. A neurociência resolve facilmente os “problemas fáceis”, como mapear quais áreas do cérebro acendem quando sentimos dor. No entanto, ela falha em explicar por que o processamento físico de dados gera uma experiência subjetiva interna (os chamados qualia). Saber como o cérebro funciona não explica a sensação de ser alguém. Para Chalmers, a consciência pode ser uma propriedade fundamental do universo, sugerindo que a mente não pode ser reduzida à matéria pura.

Por outro lado, o filósofo Hans Blumenberg, em sua obra “A Legitimidade dos Tempos Modernos”, contestou diretamente a tese de Schmitt. Blumenberg argumentou que a modernidade não é um “fantasma” da teologia disfarçado, mas sim uma “reocupação de posições”. As grandes perguntas metafísicas e existenciais da Idade Média continuaram existindo, mas o ser humano moderno legítimo passou a tentar respondê-las com suas próprias ferramentas: a razão, a ciência e o humanismo. A ciência não plagiou a religião; ela herdou o mesmo mundo e tentou dar a ele uma nova e independente resposta.

Diante desse teto onde a ciência materialista esbarra e onde as estruturas de poder buscam ancorar um absoluto humano, a Doutrina Espírita oferece uma chave de conciliação que redefine o próprio conceito de metafísico. Sob a ótica do Espiritismo, a linha que separa o físico do metafísico é meramente o limite temporário do nosso conhecimento técnico e sensorial. Allan Kardec asseverou que “a fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade”. Nesta visão, os fenômenos da alma, a transcendência da consciência e as forças que regem o universo não pertencem a um “sobrenatural” irracional ou a “milagres” que suspendem as leis naturais — termos tão criticados por Schmitt —, mas sim a leis naturais mais amplas, de caráter tanto material quanto espiritual, que a ciência do futuro fatalmente conseguirá compreender, testar e demonstrar.

O metafísico, portanto, deixa de ser o oposto da ciência para se tornar o seu próximo horizonte. Ao demonstrar a imortalidade e a evolução do espírito por meio da lógica e da observação, o Espiritismo propõe que a razão humana e o transcendente não são inimigos, mas sim duas asas do mesmo conhecimento que conduzem a humanidade em direção à verdade.