Editora universitária deve manter integração com o mercado e funcionar como empresa, diz Plinio Martins
04 julho 2026 às 21h01

COMPARTILHAR
Jean Pierre Chauvin
Especial para o Jornal Opção
O que aproxima as editoras comerciais das universitárias? O que as diferencia? A resposta não é simples, unívoca ou exata, pois envolve discutir a infraestrutura, o funcionamento e, consequentemente, a distribuição das obras que editam, sem perder de vista o tempo e lugar onde as casas atuam.
O livro “Editoras Universitárias Para Quê?” (Ateliê Editorial, 136 páginas), de Paulo Franchetti e Plinio Martins Filho, sai em momento mais que oportuno, pois não se restringe a discutir o lugar dos livros num país de raros leitores assíduos, mas reafirma a importância da universidade pública, que, especialmente na última década, tornou-se alvo de negacionistas, quase sempre inimigos da educação e da pesquisa (seja por intermédio das fake news, seja por conta de “visitas” de seres caricatos e de má-fé a numerosas instituições estaduais ou federais).
O título do livro pode soar um tanto provocador. À primeira vista, a locução “para quê?” sugeriria que os autores estivessem a questionar a relevância das casas em que eles mesmos atuaram, durante tempo mais que considerável, onde editaram numerosas obras de grande relevo. Contudo, assim que percorre a “Nota Prévia”, o leitor percebe que se trata de uma obra que enfatiza o papel de longevas editoras — vinculadas às respectivas instituições de origem —, ressaltando-se “a especificidade da edição universitária brasileira” (p. 9).
Paulo Franchetti e Unicamp
Disposto em duas partes, a primeira está a cargo de Paulo Franchetti, professor titular da Unicamp, aposentado em 2015, que dirigiu a Editora Unicamp por 11 anos. De modo denso, claro e objetivo, o autor reconstitui episódios decisivos relacionados à história da edição (e da educação) no Brasil, assinalada pela “criação da impressão Régia” em 13 de maio de 1808.

Paulo Franchetti salienta que, após 13 anos de monopólio, somente “após a Independência começaram a multiplicar-se as tipografias no país” (p. 14). Paralelamente ao “começo tardio” da publicação de livros, a “universalização do ensino” também enfrentou barreiras interpostas pelas classes dirigentes. Ao recuperar um episódio documentado por Laurence Hallewell em “O Livro no Brasil — Sua História” (Edusp, 1016 páginas, tradução de Maria da Penha Villalobos, Lolio Lourenço de Oliveira e Geraldo Gerson de Souza), Paulo Franchetti destaca que, “em 1879, um projeto de lei que tornaria obrigatório o ensino primário na capital do país não conseguiu ser aprovado no Congresso”.
Como sabemos, os índices de analfabetismo continuam a ser expressivos, em nosso país. Nos colégios da rede estadual, em São Paulo, a substituição de apostilas por slides caminha com o descaso pela manutenção das escolas e a precarização dos trabalhadores, efetivos e terceirizados, da educação (maiormente aqueles lotados no ensino básico e médio) — provável herança do longo período ditatorial (1964-1985), quando o país passou a beijar as mãos dos Estados Unidos.
Por que editoras universitárias? Respostas: 1) porque esse modelo de negócio enfatiza não apenas o lucro, mas o investimento social; 2) porque as obras editadas passam a alimentar o acervo das bibliotecas acadêmicas; 3) porque ela concilia a “publicação de obras de um campo do saber já consolidado”, ou “em formação no país”; 4) por conta do rigor com que as traduções são conduzidas
No que diz respeito à leitura e à escrita, Franchetti observa que o cenário é “muito pior, quando se considera não a alfabetização de modo abstrato, mas a alfabetização efetiva, no sentido da plena capacidade de leitura e escrita. De fato, um estudo concluído em 2015 apontava que 27% dos brasileiros entre quize e 65 anos eram analfabetos funcionais” (p. 15).
No plano nacional, o primeiro marco que permitiu mudar sensivelmente esse estado de coisas foi a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública, durante o governo de Getúlio Vargas, em 1930. Em 1931, teve “início a Reforma Campos. Datam dessa época a criação do Conselho Nacional de Educação e a implementação do ensino elementar gratuito, bem como a reformulação do ensino secundário”. Onze anos depois, o ministro Gustavo Capanema “reverteu a ênfase nas ciências e fez retornar o ensino secundário à linha de formação tradicional” (p. 17), formato que perdurou até 1961.
Essa realidade denota a ambivalência que caracteriza a relação entre as universidades públicas e o mercado editorial brasileiro. Promulgado o Estatuto das Universidades Brasileiras (1931), a Universidade do Rio de Janeiro foi reformulada naquele ano. Em 1932, “foram criadas a Universidade do Distrito Federal e a Universidade de Porto Alegre”. Em 1934, a USP foi inaugurada. Após o golpe de 1937 (Estado Novo) — que reverberava a fantasmagoria contra os vermelhos, desde a chamada Intentona Comunista (1935) —, a ampliação das universidades só seria retomada em 1945.
UnB e USP: Brasília e São Paulo
Idealizada por Darcy Ribeiro, a Universidade de Brasília (UnB, 1961) trouxe, além de tudo, “a primeira editora universitária brasileira”. Cinco anos depois, a Unicamp seria construída, “pensada e implementada como universidade de pesquisa” (p. 18 a 21).
Como sabemos, a contradição é um dos signos recorrentes da história brasileira. Em 1937, mesmo ano em que um dos golpes de Estado tomava curso, fora criado o Instituto Nacional do Livro (INL). Justamente quando o instituto perdia maior protagonismo, durante a década de 1970, as atividades na Editora da UnB e na Editora da Universidade de São Paulo foram retomadas — transcorridos seis anos desde o golpe de 1964.

Enquanto a Editora da UnB contava com um orçamento próprio, a Edusp começava mais timidamente, mais atrelada que estava, financeiramente, à universidade.
A dicotomia política e cultural também transparecia, quando o presidente-general Emilio Garrastazu Médici comandava um país monitorado e financiado pelos Estados Unidos. Entre 1969 e 1974, período de mais um (des)governo militar, Ênio Silveira (editor à frente da Civilização Brasileira e da Paz e Terra) foi “preso sete vezes pelo regime” (p. 30).
Simultaneamente, um marco editorial do mesmo período foi a coleção Os Pensadores, composta por 52 volumes, editada pela Abril Cultural entre 1973 e 1975. Como sinaliza Franchetti, sob organização do “escol universitário em traduções bem cuidadas”, a “coleção alcançou um público inatingível pelos meios tradicionais de difusão do livro”. Comercializada em “bancas de jornal”, a coleção aproveitou a “estrutura de distribuição das revistas de massa”, vendendo cerca de “cem mil exemplares por semana”, sendo, ainda hoje “utilizados em cursos universitários” (p. 31).
Edusp e Plínio Martins Filho
As ambivalências persistiram. No âmbito da Universidade de São Paulo, foi somente em 1989, graças à “reformulação que lhe deu a feição atual” (p. 28), protagonizada por Plinio Martins Filho, que a Edusp passou por um processo de profissionalização, imbrincada em nova visão sobre a produção e distribuição dos livros.
Quem contempla o vasto catálogo e o grande alcance dessa editora hoje, engana-se ao supor que o projeto nasceu pronto e acabado. As dificuldades eram grandes. Paulo Franchetti diagnostica que “um ponto fraco no enorme desenvolvimento da Edusp foi o descompasso entre uma grande produção de livros de altíssima qualidade e uma pequena estrutura de comercialização” (p. 35).
Mas, afinal, por que haver editoras universitárias? Condensemos as principais respostas: 1) porque esse modelo de negócio enfatiza não apenas o lucro, mas o investimento social; 2) porque as obras editadas passam a alimentar o acervo das bibliotecas acadêmicas; 3) porque ela concilia a “publicação de obras de um campo do saber já consolidado”, ou “em formação no país” (p. 51); 4) por conta do rigor com que as traduções (de interesse não apenas comercial) são conduzidas — como se percebe no vasto catálogo da Editora da Universidade Federal do Paraná).

Na segunda parte, o livro passa para as mãos de Plinio Martins Filho, professor aposentado do Curso de Editoração da Universidade de São Paulo que representou a Edusp durante 26 anos. Ao descrever o que é uma editora universitária, ficam claros os princípios que norteiam seu funcionamento: ela “deve estar comprometida com a instituição que representa” e “com a produção acadêmica da universidade” (p. 65).
Sua experiência como editor, dentro e fora da USP, por mais de 50 anos, permite-lhe afirmar que, durante “as primeiras décadas de existência, as editoras universitárias erraram num ponto crucial: não souberam seduzir e atrair os professores e pesquisadores como autores, e não apenas como pareceristas” (p. 69).
Outro aspecto decisivo, quanto à identidade (p. 74) e à atuação da editora universitária pública, reside na formação de um catálogo diversificado que ultrapasse os limites da instituição.
Plinio Martins Filho salienta que “a editora universitária não pode se restringir a selecionar as obras de seu corpo docente e discente. Ela tem ainda o dever de difundir as principais correntes e novidades do pensamento, das artes e da pesquisa” (p. 70).
A já mencionada “reformulação da Edusp”, iniciada em 1989, nasceu de uma nova proposta de gestão introduzida por Plinio Martins Filho. Desde que foi convidado para coordenar a editora, ele percebeu que, a exemplo de outras casas, ela funcionava “como agência de financiamento”, sem “direito autoral algum sobre as obras publicadas” (p. 71).
O segundo problema, por ele detectado, é que “a maioria das editoras universitárias brasileiras não está adequada ao funcionamento editorial, pois a tarefa de fazer livros, em geral, não é contemplada na estrutura de uma casa publicadora pública” (p. 73).

No que se refere à imagem expressa pela editora, o autor salienta a necessidade de se criar um logotipo, símbolo essencial já que permite a gradativa consolidação da identidade (visual e conceitual) da casa. De toda maneira, providências eminentemente técnicas não dispensam a importância de mostrar que mesmo as mudanças “são perenes”, já que “uma editora não se faz com políticas de curto prazo, nem com constantes alterações de percurso” (p. 117). Ademais, “se o logotipo é a face da editora, os modos e as práticas editoriais são seu corpo e alma” (p. 76).
Após elencar as etapas relativas à recepção, preparação, composição, revisão de provas, produção, divulgação e comercialização de um livro, o professor salienta a importância de que um projeto editorial não seja apenas esteticamente agradável, mas “bem cuidado”. Para isso, recomenda que “a editora elabore ou adote um manual de estilo” (p. 87) — o que traz à memória o Manual de Editoração e Estilo, escrito por Plinio Martins Filho, agraciado com o prêmio Jabuti em 2017. Complementarmente, no capítulo dedicado ao Projeto Gráfico, o autor o define como “a transformação de ideias e conceitos em comunicação visual” (p. 93).
É no sexto capítulo que Martins Filho complementa as respostas que remetem ao título do ensaio. Seu pressuposto é que, embora as editoras universitárias não “queiram — e não devam — competir com as editoras privadas e comerciais”, tornou-se necessário “maior integração com o mercado, além de profissionalização dos quadros técnicos e de aperfeiçoamento de sua produção editorial” (p. 101). Isso por que, de acordo com Martins Filho, as editoras universitárias “devem funcionar como uma empresa” (p. 103).
Aqui, o diálogo com Paulo Franchetti ainda mais se evidencia. Se um dos pontos fracos das editoras universitárias reside nos métodos de divulgação, que obviamente interferem na maior ou menor capacidade de comercializar as obras publicadas, Plinio Martins Filho sugere que cabe ao editor promover seus livros. “Promover uma obra significa colocar o catálogo da editora debaixo do braço e sair de livraria em livraria apresentando os títulos e indicando quais podem ser mais interessantes para determinado ponto de venda”, mesmo porque “o comércio não faz parte das atribuições do Estado” (p. 109 e 113).
“Editoras Universitárias Para Quê?” é obra fundamental para editores (novatos ou veteranos), autores (jovens ou experientes) e leitores (diletantes ou contumazes). Escrito a quatro mãos, o ensaio contextualiza o livro em diálogo com episódios que marcaram a história do Brasil, sem deixar em segundo plano os pressupostos, métodos e objetivos que definem o percurso e o maior (ou menor) êxito de uma editora universitária, atualmente. A ênfase na esfera pública de atuação é mais que justificada, pois o conceito enviesado de res publica (coisa pública) volta e meia contamina o senso comum e se converte em bode expiatório – supostamente capaz de identificar a origem de todas as mazelas que assolam o país.
Lúcido e realista, este livro também pode ser visto como anteparo contra a virulência com que os estudantes e profissionais da educação pública, da ciência e da cultura são retratados (inclusive por setores da imprensa corporativa). Nesse sentido, as reflexões e recomendações de Paulo Franchetti e Plinio Martins Filho embasam argumentação consistente e eficaz em defesa do pensamento, das artes, das descobertas e das tecnologias de ponta, que as editoras disseminam sob a forma impressa (e digital).
Saldo de leitura? Caberia sublinhar que, não por acaso as editoras universitárias públicas são lastreadas pela excelência de seus quadros que, convém lembrar, constituem-se de valiosos docentes e pesquisadores.
Jean Pierre Chauvin é professor Associado do curso de Editoração, na Escola de Comunicações e Artes, USP, onde leciona Cultura e Literatura Brasileira.



