Mulheres musicistas na Cidade de Goiás: questões de gênero, história e resistência cultural
05 julho 2026 às 09h52

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Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção
É com imensa alegria que inicio esta conferência buscando debater um tema fundamental para a compreensão da nossa historiografia musical e social: o papel das mulheres na antiga Vila Boa, a histórica Cidade de Goiás, no panorama musical. O que começou como uma atuação nas esferas doméstica e litúrgica ao longo do século XIX, transbordou para a defesa intransigente da nossa cultura, do nosso patrimônio histórico, da nossa educação musical e para as lutas feministas no século XX.
O declínio da mineração, a partir da segunda metade do século XVIII, provocou, como sabem, um processo de retração econômica que afetou profundamente a antiga Capital goiana. No entanto, como ressaltam diversos autores, dentre eles o professor Nasr Chaul, da UFG e doutor pela USP, esse relativo isolamento contribuiu para a preservação de estruturas urbanas e práticas culturais.
Ao olharmos para o Brasil do século XIX e início do século XX, deparamo-nos com uma sociedade patriarcal que reservava à mulher um papel de submissão. O universo da música profissional esteve, por muito tempo, de portas fechadas à presença feminina. O ensino do piano ou do harmônio, os instrumentos preferidos para as moças das famílias abastadas, era frequentemente visto apenas como uma forma de entretenimento doméstico despretensioso, uma habilidade para que as senhorinhas se mostrassem “prendadas” e, assim, atraíssem um futuro cônjuge, cumprindo muito mais uma função social do que artística.
No entanto, a Cidade de Goiás nos apresenta um cenário de resistência, subversão e notável protagonismo feminino. A cidade conhecera um declínio econômico importante, com o final do ciclo da mineração, mas a partir de um “renascimento” econômico e intelectual no final do século XIX, as famílias vilaboenses passaram a incentivar o aprimoramento cultural. A mulher vila-boense ocupou, de modo precursor, um lugar privilegiado na sociedade, que se manifestou de três formas centrais na música: nos saraus, no espaço litúrgico e nas pequenas “orquestras” seculares.
Neste ponto, é imprescindível destacarmos as inestimáveis contribuições da professora e pesquisadora Maria Augusta Calado de Saloma Rodrigues, cujo trabalho magistral e pioneiro, “A Modinha em Vila Boa de Goiás” (1982), delineou como poucos a importância estrutural da mulher na sociedade vila-boense.
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Resistência no espaço doméstico e as tertúlias vila-boenses
Segundo as investigações da mesma autora, a sociedade da Cidade de Goiás, no período pós-mineração (século XIX, portanto), não afundou em mera decadência, mas vivenciou um verdadeiro renascer intelectual e artístico. Em meio a uma sociedade formada por funcionários públicos, religiosos, comerciantes e militares, o entrelaçamento das famílias propiciou a forte tradição de encontros domésticos. Famílias numerosas formavam conjuntos musicais e improvisavam frequentemente saraus e tertúlias, onde os próprios pais incentivavam o convívio das filhas com os círculos sociais para que elas se tornassem moças “desembaraçadas e de raciocínio ágil”. Mais do que apenas demonstrar que eram “prendadas” para o casamento, esse ambiente orgânico conferiu à mulher vila-boense, com pioneirismo para a época, um lugar de imenso privilégio e protagonismo social.
A historiadora resgatou diversos relatos da imprensa da época, como o do jornal “A Tribuna Livre” (1879), que atestava ser “rara a família que não tem um mestre de música para suas filhas”, sendo igualmente rara a rua da cidade onde não ecoassem vozes femininas acompanhadas por instrumentos de teclas ou violões. O jornal “O Goyaz”, de 1899, noticia com especial destaque, por sua vez, a bela interpretação do “Inflamatus et ascensos” e do “Fac ut portem”, do “Stabat Mater”, de Rossini, pelas cantoras Ângela Bulhões Natal e Maria de Nazareth de Barros Azeredo.
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As compositoras de modinhas e a instrumentação goiana
Se o ambiente era propício, a produção musical feminina foi farta. Maria Augusta Calado demonstra que a modinha goiana manteve sua essência popular e nostálgica graças à aparente resistência ao piano em favor de um trio instrumental muito característico da região: a flauta, o bandolim e o violão. Nesse universo seresteiro e modinheiro, as mulheres não eram meras espectadoras ou musas, mas exímias compositoras e intérpretes. Destacam-se nomes arrolados por Rodrigues, como Anna Francisca Xavier de Barros Tocantins (compositora de modinhas, cantora e organizadora de eventos culturais), sua filha Aurora Tocantins (autora de modinhas ainda muito cantadas); Alice Sant’Anna (a primeira a entoar a famosa Noites Goianas), Josephina de Bulhões (promotora de recitais), e ainda Leodegária Brazília de Jesus (1889-1978), mulher negra, poeta e intelectual de inestimável valor para a imprensa e ativismo locais, que fundou o jornal “A Rosa”, com colaboradoras exclusivamente femininas, dentre as quais Altair de Camargo, Genezy de Castro, Cora Coralina, Alice Coutinho, Illydia Perillo e Laïla Amorim.
De Leodegária, ainda hoje se canta a modinha “Similis”:
Quando vivemos a sonhar amores,
Quando não temos a ilusão perdida,
Quando noss’alma não padece dores,
Morrer é triste, como é bela a vida!
Mas se nos fere o espinho da tristeza,
Se maltratados somos pela sorte,
Se nos é dado o cálice da incerteza,
Viver é triste, como é doce a morte!
Muito do resgate discográfico dessa antiga tradição modinheira goiana se deve, inclusive, à própria voz de Maria Augusta Calado, que gravou um LP fundamental (Modinhas goianas, em 1979) para eternizar essas partituras e letras. Além disso, gravou Cânticos de Presépio e A Semana Santa em Goiás (1998), registrando de forma definitiva esse rico material.
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O Salto para a Esfera Profissional e o Ensino
A atuação feminina extrapolou as salas de visita para assumir as rédeas do magistério musical e intelectual. Maria Augusta documentou que, já no século XIX, senhoras publicavam anúncios oferecendo aulas em domicílio de francês, Geografia e Música. Antes mesmo da popularização do piano, o harmônio era o instrumento preferido, tendo mestra Cyriaca Ferreira (1820-1894) como sua mais famosa intérprete e professora. Demonstração máxima desse pioneirismo didático feminino em Goiás foi a publicação da Artinha Musical, em 1884, de autoria de Amélia Arraias da Silva Costa, um material de ensino que se difundiu fortemente na região.
Nas décadas seguintes, a profissionalização encontrou palco nas orquestras de cinema mudo, onde pianistas como Maria Angélica da Costa Brandão (a “Nhanhá do Couto”), Débora Tocantins Esteves, filha de José do Patrocínio Marques Tocantins e de Anna Francisca Xavier de Barros e ainda Edméa de Camargo fundaram e lideraram conjuntos orquestrais integrados por homens e mulheres, desafiando as convenções patriarcais de seu tempo, para atuarem no Teatro São Joaquim, nos Cine Luso-Brasileiro, Cinema Iris e Cine Ideal.

Com a mudança da Capital do Estado de Goiás para Goiânia, no final da década de 1930, algumas delas também tiveram destacada atuação na nova Capital. Destacam-se as professoras Edméa de Camargo, na Escola Técnica Federal de Goiás, mais tarde substituída por Maria Lucy Veiga Teixeira; Belkiss Spenciére Carneiro de Mendonça e Maria Luiza Póvoa da Cruz (Dona Tânia), todas vila-boenses de nascimento, responsáveis pela criação do Conservatório Goiano de Música e, mais tarde, da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás.
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Protagonismo no espaço sagrado e a herança do “Livrão”
Rodrigues também descortina o avanço feminino sobre a música sacra. A Igreja Católica tradicionalmente vetava mulheres em seus coros, mas em Goiás, a qualidade musical feminina rompeu essas barreiras. Reportagens resgatadas pela musicóloga mostram que, já em 1879, mestre José do Patrocínio Marques Tocantins regia um coro na Igreja da Boa Morte formado por suas alunas – como Messias Amorim, Emerenciana Albernaz e Leonor Xavier de Barros –, cujas vozes eram tão elogiadas que, segundo os jornais da época, fariam inveja às profissionais da Corte do Rio de Janeiro.
Vale ressaltar que Tocantins, um típico afrodescendente, casara-se com Anna Francisca Xavier de Barros (1857-1949), de família tradicional e de cor branca, o que não deixava de se constituir em fato inabitual. Na casa da família, funcionava também uma tipografia, além das aulas particulares de música dadas pelo casal.
As atividades didáticas desenvolvidas por Tocantins contribuíram para o desenvolvimento do gosto e do conhecimento musicais na antiga capital goiana, afora que, por sua influência, se logrou a aprovação, pela Assembleia Provincial, em 1882, de um plano para o ensino de música no Lyceu de Goyaz (princípios elementares de música; solfejo; canto; música instrumental; princípios elementares de harmonia; e composição musical), e, ainda, foi atribuído a ele o encargo de ministrar duas lições de música por semana nas classes de primeiras letras das escolas públicas do sexo feminino (princípios elementares de música, solfejo e canto). Além de ser professor de música no Lyceu, na Escola Normal e em caráter particular, lecionava liturgia e canto gregoriano no Seminário Episcopal de Santa Cruz. Como jornalista, teve intensa atividade, seja como diretor do “Correio Official”, seja como editor da “Tribuna Livre”, jornal abolicionista que circulou de 1878 a 1884. Foi, ainda, representante comercial de fabricantes franceses de instrumentos musicais e de casas de edição musical, entre elas, a renomada Pleyel.
Esse coro, da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, funcionando então como catedral provisória, pavimentou o caminho para gerações de regentes femininas na música litúrgica, chegando às mãos de Adelaide Sócrates (1888-1935) e, posteriormente, de sua sobrinha, Darcília Amorim (1902-1995). Foi através dessas mulheres que o fabuloso acervo da música litúrgica vila-boense sobreviveu intacto, preservando a música polifônica e os Motetos dos Passos e os Motetos das Dores, que formam a monumental paisagem sonora da Semana Santa de Goiás até os dias atuais.
Com a presença de muitos religiosos e religiosas com formação europeia, inclusive no campo musical, tanto no clero secular quanto na Ordem Dominicana, aportada em Goiás, inicialmente, em 1882 (frades pregadores da Província de Toulouse) e, ainda, em 1889 (irmãs dominicanas da congregação de Nossa Senhora do Rosário de Monteils) buscou-se um envolvimento vigoroso das mulheres da aristocracia local em associações religiosas e nos coros, especialmente na Igreja da Boa Morte e na Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

É, pois, nesse contexto que surge a figura de Adelaide Sócrates (1882-1935). Nascida de uma família profundamente católica, foi educada segundo os princípios romanizadores, especialmente pela proximidade com seu primo, monsenhor Joaquim Confúcio de Amorim (1869-1937). Este fizera seus estudos no Seminário Santa Cruz, da cidade de Goiás. Monsenhor Confúcio foi ali ordenado sacerdote, em 20 de maio de 1893, tornando-se um dos principais agentes da romanização. Assim como seus irmãos e outros membros da família, era músico. Tocava harmônio e era capaz de afinar e reparar o instrumento. Em torno dele, uma escola de música informal terminaria por se formar, especialmente depois de assumir a direção do Coro da Boa Morte, com as mortes de José do Patrocínio Marques Tocantins e do cônego José Iria Xavier Serradourada, que o precederam no ofício. Tornou-se, ainda, regente do coro e da banda de música do seminário, onde também ensinava canto gregoriano e teoria musical.
A convivência de Adelaide Sócrates com esse ambiente religioso e musical de seus familiares, e a formação musical que disso decorreu, fez com que ela assumisse a regência do Coro da Boa Morte, uma vez que monsenhor Confúcio já se encontrava sobrecarregado com as funções de vigário-geral do bispado. Para o exercício de suas funções, contou com o concurso de sua irmã, Leonor Sócrates, que tocava o “meio-órgão”, como era conhecido o harmônio de fabricação francesa, de som bastante potente, que existia na Igreja da Boa Morte. Nessa altura, os jornais da cidade passaram a se referir não mais ao Coro da Boa Morte, mas, sim, ao Coro da Catedral, como noticiado no jornal “O Lidador”, em sua edição de 21 de agosto de 1931, página 2, acerca da festa de Nossa Senhora da Glória, em agosto daquele ano:
A incansável diretora do Coro da Cathedral, exma. Sra. D. Adelaide Sócrates, que foi a principal organizadora da procissão e ao esforçado Cura da Cathedral, Revmo. Pe. Joaquim Confúcio de Amorim, levamos as expressões de nosso contentamento pela sympathica festa que vieram de nos prodigalizar.
É importante referir que as condições foram propícias para que ela pudesse desenvolver suas atividades musicais, com o apoio do primo, vigário da Catedral de Sant’Ana, e do próprio bispo, dom Prudêncio Gomes da Silva, também músico, que havia sido diretor da banda de música do Seminário Maior de Mariana (MG), onde fizera seus estudos, e apoiou fortemente o uso da boa música litúrgica em seu episcopado, entre 1907 e 1921. Todavia, para além disso, Adelaide Sócrates foi responsável pela difusão de novas devoções, especialmente as marianas e ao Sagrado Coração de Jesus, bem como participou ativamente da Confederação das Associações Católicas e do Círculo Católico, que realizava sessões literomusicais em prol da Igreja.
Envolvida nesse ambiente, Adelaide manteve intensa troca de correspondência com monsenhor Pedro Ribeiro, de quem recebeu influência e orientação. Disso, certamente, decorre a coletânea cuidadosamente preparada por ele, e a ela entregue em mãos, em 1919, com toda a liturgia musical e orientações procedimentais para o ciclo da Quaresma e da Semana Santa, conhecido como “Livrão”. Viveu apenas 49 anos e permaneceu solteira, devotando toda a sua existência à Igreja, porém teve o cuidado de preparar a continuidade de seu trabalho, através das sobrinhas, que já a auxiliavam nos diferentes encargos, entre elas, de modo especial, Darcília Amorim, que a sucedeu à frente do coro, após sua morte, em 1935. Como bem salientam Britto e Rosa (2017: 134).
Ao receber as chaves da Igreja da Boa Morte das mãos de Monsenhor Joaquim Confúcio de Amorim e o livro de partituras organizado por Monsenhor Pedro Ribeiro da Silva, tornou-se herdeira das manifestações de sua terra. Assim como na iconografia de Sant’Ana, empunhando o livro de partituras conseguiu formar um grupo de mulheres devotas, tornou-se responsável pela educação e formação de outras “guardiãs da memória” — a exemplo de suas sobrinhas, especialmente Diva, Dinah, Laíla e Darcília Amorim que, assim como ela, se destacaram no campo artístico e religioso vila-boense ao longo do século XX.
O protagonismo de Darcília Amorim, que passou a dirigir o coro após a morte da tia, não se resumiu à música; ela foi uma monumental edificadora do patrimônio vila-boense. A Catedral de Sant’Ana, que havia desabado e estava em ruínas desde o século XIX, foi reconstruída graças à sua inabalável liderança. Desde a década de 1940, Darcília liderou a “Associação Pró-Reconstrução da Catedral de Sant’Ana”, assumindo para si a missão de arrecadar recursos e contratar as obras, conseguindo terminar sua estrutura em 1967, Como bem lembram seus conterrâneos, sem a sua dedicação, a imponente Catedral simplesmente não existiria hoje.
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Das notas musicais à luta política: o progresso feminino
Esse movimento de despertar intelectual do primeiro quartel do século XX desaguou no feminismo político e na luta institucional. O Gabinete Literário Goiano, criado em 1864 e importante espaço intelectual, encontrou renovação em 1929 ao ser dinamizado por uma diretoria exclusivamente feminina liderada por Consuelo Caiado. Esse engajamento levou essas mesmas mulheres a fundarem, em 1931, a Federação Goyana pelo Progresso Feminino, que promoveu a publicação do jornal Folha Goiana e lutou ferozmente pela emancipação, pelo direito ao sufrágio e pela educação da mulher como forma de romper com as correntes de uma sociedade misógina. Além disso, o Goyaz Club, uma agremiação essencialmente feminina, fomentava a leitura dos livros de sua vasta biblioteca e as discussões culturais e tertúlias entre suas associadas, tendo se destacado as figuras de Yeda Sócrates do Nascimento e, mais tarde, da professora Dolcy Caiado de Castro, como suas presidentes.
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Do Gabinete Literário ao reconhecimento da Unesco: Brasilete Ramos Caiado
A tradição de liderança cívica e cultural pavimentou o caminho para a maior conquista da cidade: o reconhecimento como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela UNESCO, em 2001. Uma das grandes articuladoras desse marco foi Brasilete Ramos Caiado.
Nomeada por unanimidade presidente do Movimento Pró-Cidade de Goiás em 1998, Brasilete congregou diferentes esferas sociais e facções políticas com uma credulidade inabalável no título. Ela idealizou o “I Seminário Cultural, Turístico e Ambiental”, viabilizou a captação de recursos para o dossiê a ser apresentado à Unesco e unificou a cidade em torno da preservação de seus valores culturais.
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A guardiã da arte sagrada e o reconhecimento da Unesco
Essa herança de mulheres que extrapolam os limites do lar para defender os bens da cidade encontra um de seus maiores ecos, também, em Antolinda Baía Borges, carinhosamente conhecida como Tia Tó. Em um período em que a cidade sofria com a evasão e o roubo de suas peças sacras, ela se tornou figura central na preservação do patrimônio móvel e edificado de Goiás.
Antolinda foi uma das fundadoras do Museu de Arte Sacra da Boa Morte, inaugurado em 1969, e atuou como sua diretora por 19 anos. Com sua personalidade perseverante e corajosa, Tia Tó não apenas resguardou e expôs obras de mestres como o escultor Veiga Valle, mas também atuou como funcionária do Iphan e autêntica “guardiã do patrimônio”.
Sua vigilância constante sobre os casarões e igrejas impediu a descaracterização do conjunto arquitetônico, unindo de forma intrínseca a sua própria história de vida à preservação da Cidade de Goiás. Além disso, participou ativamente da fundação e atividades da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (Ovat), responsável pela preservação do patrimônio artístico-cultural da cidade, inclusive de seu acervo musical, elementos fundamentais para o reconhecimento da cidade como Patrimônio Cultural da Humanidade.
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As esquecidas, ou desconhecidas
Inúmeras foram as mulheres que contribuíram de forma importante para o cenário musical vila-boense e que a história escrita, na maioria das vezes, não registra. Permanecem, entretanto, presentes na oralidade. Nomes como Maria Firica Brandão e Maria Carlota Ramos Jubé (correpetidoras do Coro da Boa Morte por muitos anos); Nenem Cardoso (pianista e diretora da orquestra do Cinema Iris); Nídia Martins de Araújo e Emília Mendes (organistas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário); Benedita de Nhola e as irmãs Nenem e Vivi Pinheiro (encarregadas do Canto do Perdão nas igrejas do Carmo e de Nossa Senhora d’Abadia, respectivamente); Neusa Serradourada (na Igreja de Nossa Senhora do Rosário); as irmãs Dinah, Diva e Laïla Amorim, que além de cantoras do Coro da Boa Morte, eram também correpetidoras substitutas. A elas e a outras tantas, a Cidade de Goiás é eterna devedora.
Por uma questão de justiça, não posso deixar de mencionar outras tantas mulheres extraordinárias, cuja atuação no âmbito artístico-cultural da antiga Capital, foi determinante para a cidade e para o Estado de Goiás. Nas letras, Cora Coralina, Regina Lacerda, Nice Monteiro Daher, Edla Pacheco Saad, Luiza de Camargo Ferreira, dentre muitas outras; nas artes plásticas, Francisca Nunes de Camargo, Goiandira Ayres do Couto, Regina Damasceno, Eleusa Amorim, Kátia Pacheco Santana; nas artes populares, Dona Hilda “paneleira”, Dona Otávia, com seus deliciosos confeitos de amendoim, Dona Ritinha de Bráulio e Dona Inês, com os bolos de arroz, Dona Sílvia Curado, com seus alfenins, Dona Augusta e Dona Rita, com os pastelinhos, Dona Alice Velasco, com as rosas de coco e inúmeras mulheres que emprestaram seu talento, em diversas áreas, para além da música, enriquecendo a sociedade com os seus saberes e encantos.
Conclusão: vozes resistentes
Hoje, ao falarmos de música e história na Cidade de Goiás, é inegável que as mulheres nunca foram coadjuvantes. O reconhecimento como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, não decorreu apenas da arquitetura colonial. Decorreu, sobretudo, da permanência de uma memória viva; das procissões; dos motetos; das modinhas; das vozes femininas que atravessaram séculos. E talvez seja justamente esse o ponto mais importante desta reflexão.
Quando falamos da história musical da Cidade de Goiás, não estamos tratando de personagens secundárias ou periféricas. As mulheres foram protagonistas da formação cultural vila-boense.
Compuseram músicas; publicaram métodos de ensino; dirigiram coros; fundaram instituições; criaram jornais; lideraram movimentos culturais; reconstruíram igrejas; salvaram acervos históricos; prepararam novas gerações; preservaram a memória coletiva da cidade.
E, ainda assim, muitas permanecem praticamente invisíveis na historiografia tradicional.
Talvez porque grande parte da história das mulheres tenha sobrevivido menos nos arquivos oficiais e mais na memória oral, nos afetos familiares e nas tradições transmitidas silenciosamente entre gerações.
Por isso, recuperar essas trajetórias não é apenas um exercício acadêmico. É também um gesto de justiça histórica.
Hoje, ao ouvirmos os Motetos dos Passos e das Dores ecoando pelas ruas de pedra da antiga Vila Boa, ao contemplarmos as procissões da Semana Santa ou ao escutarmos antigas modinhas goianas, estamos ouvindo também as vozes dessas mulheres.
Vozes que resistiram ao tempo.
Vozes que moldaram a identidade cultural de Goiás.
Vozes sem as quais a Cidade de Goiás simplesmente não seria o que é.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção. (Conferência proferida no XIV Simpósio Internacional de Musicologia, Goiânia, 19 de junho de 2026)
Obras consultadas
1. ALCÂNTARA, Othaniel. “Os músicos do cinema mudo em Goiás”. Jornal A Redação.
2. BORGES, M. H. J. A música e o piano na sociedade goiana (1805 – 1972). Goiânia: FUNAPE, 1998
3. BRITTO, Clovis Carvalho e ROSA, Rafael Lino. Mestra e guia: a catedral de Sant’Ana e as devoções de Darcília Amorim. Goiânia: Editora Espaço Acadêmico, 2017.
4. CHAUL, Nasr Fayad. Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade. Goiânia: Editora da UFG, 2018.
5. COSTA, Amanda. “O ‘Livrão da Dona Darcília’: a herança musical da Semana Santa na Cidade de Goiás”. Jornal Opção.
6. DIAS, Ângelo de Oliveira. “O Canto Coral em Goiânia: uma trajetória”. Revista UFG, v. 10, nº 5, 2008.
7. MENDONÇA, Belkiss Spencière Carneiro de. A música em Goiás. Goiânia: Editora da UFG, 1981.
8. MIRANDA, Janira Sodré. “Leodegária de Jesus: mulher negra intelectual e poeta em Goiás no pós-abolição”. Portal Geledés, 2021.
9. PASSOS, Elder Camargo. Goyaz: de arraial a patrimônio mundial. Goiânia, Editora Kelps, 2018.
10. RODRIGUES, Maria Augusta Calado de Saloma. A Modinha em Vila Boa de Goiás. Goiânia: Editora da UFG, 1982.
11. SOUZA, Ana Guiomar Rêgo. “Paisagem Sonora da Paixão Vilaboense (Século XIX)”. Música Hodie, Goiânia (UFG).
12. SOUZA, Sarah Orioli Emidio. As Orquestras Femininas de Goiânia e o Feminismo. Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, 2021.
13. TAMASO, Izabela. Em Nome do Patrimônio: Representações e Apropriações Culturais na Cidade de Goiás. Tese (Doutorado em Antropologia) – UnB.
14. Diversos autores / Recortes do “Gabinete Literário Goiano” in VILA BOA – Biblioteca do Futuro.
15. “Ações culturais e políticas feministas: a ‘Federação Goyana pelo Progresso Feminino'”. Revista UEG.



