Vozes femininas — Moema de Castro Olival: linhagem que eternizou o verbo
04 julho 2026 às 21h01

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Elizabeth Abreu Caldeira Brito
Moema de Castro e Silva Olival nasceu no dia 12 de maio de 1932, na Cidade de Goiás. Filha de Colemar Natal e Silva, fundador e primeiro reitor da Universidade Federal de Goiás (UFG), e de Genezy Caiado de Castro, escritora e uma das fundadoras do jornal “O Lar”, periódico singular por ser majoritariamente produzido por mulheres, Moema cresceu entre livros, música e o culto das letras.

Neta de Eurídice Natal e Silva, primeira mulher a presidir uma Academia de Letras em Goiás, Moema de Castro Olival herdou o sopro precursor de uma tradição feminina que ousou ocupar espaços até então interditos. Em seus gestos e palavras, o verbo herdado tornou-se destino.
A infância em meio aos “chás literários” de Eurídice, onde se reuniam pianistas, declamadores e jovens artistas, fundou na menina a percepção da arte como convivência e partilha, como diria Gaston Bachelard (1996), “um modo de habitar poeticamente Moema de Castro e Silva Olival o mundo”. Dali, nasceria a professora que transformaria salas de aula em territórios do sensível e a crítica que aprenderia a ouvir a pulsação estética das palavras.

Formada em Letras, pela Universidade Católica de Goiás; e doutora em Letras Clássicas e Vernáculas, pela Universidade de São Paulo (USP), Moema defendeu, em 1976, a tese “O Processo Sintagmático na Obra Literária”, um marco na crítica estrutural e estilística brasileira. Como professora da UFG, fundou o Curso de Mestrado em Letras e Linguística e o Centro de Estudos Portugueses. Sua docência, permeada por uma ética da delicadeza, fez da leitura uma forma de resistência à pressa e à superficialidade do mundo contemporâneo.
Moema de Castro Olival publicou 14 livros de ensaios e fundou a coleção “O Espaço da Crítica”, que se tornou uma referência nacional em crítica literária. Suas obras revelam uma escritora que unia o olhar analítico ao gesto amoroso da leitura. Sua escrita de crítica não se restringia ao juízo de valor, e sim um ato de criação. Cada texto era uma tentativa de compreender a literatura como um corpo vivo, em permanente diálogo com o tempo e a memória.
A crítica de Moema de Castro Olival é um gesto de cuidado, um modo de permanecer viva nas palavras alheias que amou. Ela foi a consciência luminosa da literatura goiana — uma estrela que, mesmo após o ocaso, continua a iluminar o caminho de quem lê, ensina e escreve
Ao longo de sua carreira, recebeu a comenda da Ordem do Mérito do presidente português Mário Soares, pela contribuição à divulgação da Língua Portuguesa, além dos prêmios Clara Ramos e Antônio Olímpio (UBE-RJ), o Troféu Tiokô (UBE-GO) e o Prêmio Wendell Santos (Secretaria de Cultura de Goiás). Reconhecimentos que confirmam o lugar singular de sua obra na crítica literária luso-brasileira.

Já aposentada da universidade, Moema não cessou de criar. Em 2012, estreou na ficção com “Contos (Des)armados”. Nesse livro, as vozes femininas, o tempo, a memória e o cotidiano tornam-se matéria estética, confirmando que a escritora compreendia, como Clarice Lispector, que “escrever é procurar compreender o que apenas se sente”.
A morte de Moema, no dia 20 de março de 2021, em decorrência de complicações da Covid-19, foi lamentada por intelectuais e instituições. A Academia Goiana de Letras — da qual foi membro atuante — destacou que “a lembrança da professora ocupando a primeira cadeira, da primeira fila do nosso auditório, é um bem memorial”. Para Yuri Baiocchi, foi “maior que o pai”, e para Ione Valadares era “inteligente, estudiosa e dona de uma beleza clássica, jamais perdida”.
Esses testemunhos delineiam não apenas a intelectual, mas a mulher cuja presença era marcada pela escuta e pela elegância ética, “a beleza das filhas de Colemar”, como a memória afetiva goiana consagrou.
Moema de Castro e Silva Olival permanece como uma ponte entre gerações, uma figura de passagem entre o erudito e o popular, entre a tradição e a modernidade. Sua crítica é, também, um gesto de cuidado, um modo de permanecer viva nas palavras alheias que amou. Assim, Moema, em sua vida e obra, foi a consciência luminosa da literatura goiana — uma estrela que, mesmo após o ocaso, continua a iluminar o caminho de quem lê, ensina e escreve.

Publicações de Moema de Castro Olival
1
“O Espaço da Crítica — Panorama Atual” (Goiânia: Editora da UFG, 1998).
2
“GEN — Um sopro na renovação em Goiás: vozes representativas (Editora Kelps, 2000).
3
“Diálogos Plurais” (2008).
4
“Contos (Des)armados”
Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag). É colaboradora do Jornal Opção.



