Leia um poema de Óssip Mandelstam em tradução direta do russo por Astier Basílio
27 junho 2026 às 21h00

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Editora Piparote vai publicar coletânea de poemas de Mandelstam
Astier Basílio
De Moscou
Estou trabalhando em tradução de uma coletânea de poemas de um dos maiores poetas do século XX, Óssip Mandelstam (1891-1938).
O livro sairá, este ano, pela Editora Piparote, de São Paulo. Apresento a mais recente versão da tradução de um dos seus poemas mais famosos.
Trata-se de um texto que foi escrito após a visita do colega Boris Pasternak à sua nova moradia. “Pois então, agora se tem um apartamento, é possível escrever poemas.”
O dono da casa se ofendeu. Pensou que os poemas escritos deveriam ser em agradecimento ao governo.
Astier Basílio, escritor, jornalista e tradutor, é colaborador do Jornal Opção.

Poema de Óssip Mandelstam
Lar sem alarido igual papelão
Sem enfeite algum pelo apartamento
A umidade faz borbulhas no vão
Dos tubos internos do aquecimento.
A mobília em ordem perfeita atua,
Telefone frio em forma de sapo,
Joguem-me pra fora, atirem na rua,
Parecem pedir cada um desses trapos.
As paredes finas, tétrico é o palco,
Para onde fugir, lugar não se tem,
Eu como um maluco com um cano hidráulico
Tendo obrigação de tocar pra alguém.
Ser mais atrevido que um Komsomol¹
Que o universitário hino mais bravio
E a cada mirim que a escola acabou,
Para ser carrasco, ensinar-lhe os pios.
Que um tipo qualquer de ilustrador,
Que no assentamento o algodão fia
Que de tinta e sangue é misturador,
Merece fazer esta porcaria.
Que um tipo qualquer de honesto traidor,
Que escapou do expurgo, igualmente sal,
Da mulher, dos filhos, é o provedor,
E essa traça aqui mata esse tal.
Livro de cupons leio-os muito bem,
Da fala da corda capturo um tanto,
E um ameaçador não chora neném
Lá no assentamento ao seu xá eu canto.
E a raiva é tanta e o desassossego
Que secretamente o âmago absolve
Como se ele fosse cravado em pregos
E o martelo aqui foi o de Niekrássov².
Que tal ir comigo até o cadafalso,
Já são setenta anos de um florescer,
Velho desleixado, apressa teu passo,
O tempo chegou das botas bater.
No lugar da chave e foz de Hipocrene
Um horror antigo é que vem vazando,
Nas porcas paredes num jorro infrene
Desse domicílio em Moscou nefando.
Novembro de 1933.
Notas sobre o poema de Mandelstam
¹ Abreviação de Kommunisticheskiy Soyuz Molodyozhi, traduzido como União da Juventude Socialista.
² Nikolai Nekrássov (1821–1877), um dos mais importantes poetas do século XIX, autor de poemas de cunho social.



