Editora Piparote vai publicar coletânea de poemas de Mandelstam

Astier Basílio

De Moscou

Estou trabalhando em tradução de uma coletânea de poemas de um dos maiores poetas do século XX, Óssip Mandelstam (1891-1938).

O livro sairá, este ano, pela Editora Piparote, de São Paulo. Apresento a mais recente versão da tradução de um dos seus poemas mais famosos.

Trata-se de um texto que foi escrito após a visita do colega Boris Pasternak à sua nova moradia. “Pois então, agora se tem um apartamento, é possível escrever poemas.”

O dono da casa se ofendeu. Pensou que os poemas escritos deveriam ser em agradecimento ao governo.

Astier Basílio, escritor, jornalista e tradutor, é colaborador do Jornal Opção.

Óssip Mandelstam: fichado pela polícia política de Stálin

Poema de Óssip Mandelstam

Lar sem alarido igual papelão

Sem enfeite algum pelo apartamento

A umidade faz borbulhas no vão

Dos tubos internos do aquecimento.

A mobília em ordem perfeita atua,

Telefone frio em forma de sapo,

Joguem-me pra fora, atirem na rua,

Parecem pedir cada um desses trapos.

As paredes finas, tétrico é o palco,

Para onde fugir, lugar não se tem,

Eu como um maluco com um cano hidráulico

Tendo obrigação de tocar pra alguém.

Ser mais atrevido que um Komsomol¹

Que o universitário hino mais bravio

E a cada mirim que a escola acabou,

Para ser carrasco, ensinar-lhe os pios.

Que um tipo qualquer de ilustrador,

Que no assentamento o algodão fia

Que de tinta e sangue é misturador,

Merece fazer esta porcaria.

Que um tipo qualquer de honesto traidor,

Que escapou do expurgo, igualmente sal,

Da mulher, dos filhos, é o provedor,

E essa traça aqui mata esse tal.

Livro de cupons leio-os muito bem,

Da fala da corda capturo um tanto,

E um ameaçador não chora neném

Lá no assentamento ao seu xá eu canto.

E a raiva é tanta e o desassossego

Que secretamente o âmago absolve

Como se ele fosse cravado em pregos

E o martelo aqui foi o de Niekrássov².

Que tal ir comigo até o cadafalso,

Já são setenta anos de um florescer,

Velho desleixado, apressa teu passo,

O tempo chegou das botas bater.

No lugar da chave e foz de Hipocrene

Um horror antigo é que vem vazando,

Nas porcas paredes num jorro infrene

Desse domicílio em Moscou nefando.

Novembro de 1933.

Notas sobre o poema de Mandelstam

¹ Abreviação de Kommunisticheskiy Soyuz Molodyozhi,  traduzido como  União da Juventude Socialista.

² Nikolai Nekrássov (1821–1877), um dos mais importantes poetas do século XIX, autor de poemas de cunho social.