Um teto todo meu
24 junho 2026 às 12h50

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Há 60 dias, literalmente o teto desabou sobre minha cabeça.
E quando isso aconteceu, mais do que nunca eu me dei conta do quanto à Virgínia Woolf tinha razão em dar a devida importância para um teto todo nosso.
Metódica, excelente aproveitadora de uma boa rotina, amo fazer tudo todo dia sempre igual, detesto que um mínimo detalhe saia da ordem que eu mesma planejei, tenho em minha casa quase um santuário à vida repetida. Ao lugar onde escrevo, o canto onde coloco a pilha de livros lendo/lidos e a serem lidos, a ordem exata em que me deito/levanto.
Assim, foi difícil mais uma vez não pensar em Annie Ernaux em “O lugar”: quando ela diz o quanto é desconcertante quando algo fora do nosso eixo acontece. E também a solidão, voluntária e involuntária, a que nos submetemos em casos assim.
E ter ficado mais de 40 dias longe disso, me deixou em uma espécie de luto que ainda não finalizei. O deslocamento de não estar com minha vida normal, mas ao mesmo tempo, ter que conduzi-la normalmente.
Eu, péssima que sou na vida adulta (e na verdade, eu duvido um pouco que alguém seja bom com isso, mesmo que a gente finja muito bem), não estava nem um pouco preparada para o turbilhão que viria.
De repente me vi tendo que cuidar da livraria, de uma obra em casa, com minha companheira/sócia internada no hospital, obrigada a tomar todas as decisões e sendo total e absolutamente única responsável por cada uma delas, sozinha.
E ninguém prepara a gente pra nada, né? Lidar com as adultices é realmente uma das coisas mais difíceis da vida. E quando a gente foi uma adolescente que lia, na mesma proporção, Marian Keyes e Dostoievski; Becky Bloom e Albert Camus; Bridget Jones e Clarice Lispector, achamos que a vida pode ser resolvida unindo cada um desses contrapontos.
Mas não dá. Por que não vai aparecer uma solução mágica para te ajudar a estar no hospital e na livraria ao mesmo tempo. Não vai aparecer um amigo (a) com tempo de sobra na vida, para carregar com você o fardo dos dias; ou menos ainda, suas digressões filosóficas não vão te aliviar em pensar no absurdo que é uma vida inteira ser transtornada, porque um pedaço de forro de taipa caiu em cima da pessoa que compartilha o espanto da vida com você. É mais fácil sentir toda a frustração camuniana do que soluções mágicas à La livros conforto surgir.
É mais provável você entender que tudo é um imenso absurdo sem sentido – afinal, qual a probabilidade de um teto cair enquanto você dorme e sua companheira ter a bexiga perfurada e passar 35 dias hospitalizada? – do que uma solução incrível e inesperada para todas as contas e boletos que não param de chegar, apesar disso.
“a ânsia de dar sentido para todas as coisas como se os significados demitissem o medo.” Em “Memória de Ninguém”, Helena Machado construiu um fluxo de consciência quase contínuo de alguém que ainda está atravessando o luto. O livro, em muitas partes, acaba por se tornar também uma reflexão sobre como contamos nossas próprias histórias e como esse narrar nos define. Em uma narrativa fragmentada, o título funciona como um aviso: o que não é narrado corre o risco de desaparecer. Por isso a narrativa é segmentada, porque o luto também retalha, ele cria espaçamentos entre as dores, quebra a linearidade do tempo e embaralha passado e presente.
E fiquei pensando tanto sobre isso: minha companheira está aqui bem recuperada, saudável e levando a vida normalmente. Mas de alguma forma, eu sinto como se tivesse vivendo algo que se perdeu.
Esses dias li um texto muito bonito de uma pessoa querida que perdeu a irmã, falando sobre como o luto trouxe para ela uma lucidez estranha:
“Não aquela lucidez romântica que as pessoas gostam de citar. Nem aquela que vem carregada de frases prontas sobre aproveitar a vida. É uma lucidez mais crua. A de perceber o que permanece quando todo o resto desaba.”
E compartilho com a pessoa essa lucidez estranha pela vida desde então. Nessa lucidez meio ácida, meio cética, pela vida. E no livro da Helena Machado essa sensação também é permeada através das memórias da narradora, mesmo as que ficaram dispersas, mas que continuam existindo, embora pareçam perdidas.
E penso muito nesse livro, porque assim como ela, a gente vai se ocupando do cotidiano, onde fingimos saber ser adultos, fingindo todos saber o que fazer, o que ser, como agir, mas a vida adulta é muito mais corrida do que por vezes nos damos conta, e que tanta coisa passa despercebida disso, inclusive a manutenção dos nossos afetos.
Nesses 35 dias entre hospital, uma casa em obra, uma livraria e uma casa de hospedagem, vi o quanto essa vida nos deixa mais egoísta, menos disponível e em total estado de pressa.
Eis o paradoxo da vida adulta: a gente se submete à correria do mundo, mesmo que internamente questionamos isso. Como bem escreveu Annie Ernaux em “O lugar”, como se fosse errado querermos parar.
E depois de quase tudo – que cabem todos os inacabados (como bem definiu Helena Machado), em que tudo havia desmoronado, literal e metaforicamente, sobrava muito pouco do que eu era ou que gostaria de estar sendo naqueles momentos, mas ficou, assim como “Memória de ninguém”, à vontade e o esforço de transformar a memória em narrativa.



