Se eu jogar o meu velho “cobertão” de couro para o alto agora, no céu poeirento daquela infância em Belo Horizonte, ele gira no ar, cruza as décadas e, num piscar de olhos, cai hoje no gramado perfeito, híbrido e milimetricamente cortado da atual Copa do Mundo 2026.

Mas ao cair no presente, a bola já não é mais a mesma. Olhando para esse espetáculo de bilhões, bate uma saudade imensa daqueles tempos da bola de cobertão, das peladas ingênuas, do cheiro de poeira e da simplicidade de um jogo que resolvíamos no grito. Ali, a várzea era nossa.

Hoje, na Copa 2026, a “amarelinha” e as demais camisas de peso estão sob o jugo de gigantes globais. No caso do Brasil, tudo mudou em 1996, o ano em que a norte-americana Nike arrematou a nossa mística futebolística em um contrato histórico. Foi ali, em meados dos anos 90, que a paixão virou definitivamente um ativo.

Hoje, ao lado da rival Adidas, essas corporações definem não apenas o desenho, a paleta de cores ou o corte aerodinâmico para o mercado internacional, mas, nos bastidores, dão as cartas sobre quem de fato entra em campo. É o ápice do capitalismo financeiro: um ecossistema abstrato que transformou o sentimento em mercadoria e os atletas em carteiras de investimento flutuantes.

A ironia desses tempos modernos é refinada e cruel. Sob a lógica das finanças, alguns jogadores são mantidos no elenco puramente como “ativos de marketing”. Eles sequer entram em jogo, passam o torneio inteiro no banco de reservas, mas faturam quantias obscenas apenas por estarem ali, emprestando o rosto e as redes sociais à engrenagem. O suor deu lugar aos dividendos.

A pergunta que fica flutuando no ar, meus queridos compatriotas torcedores, é inevitável: quem é o verdadeiro guri dono da bola hoje?

Com certeza não sou eu, nem nenhum de nós que um dia correu descalço na terra. O novo dono do “cobertão” veste terno sob medida, atende por fundos transnacionais de private equity e dita as regras da Seleção Brasileira direto de uma planilha em Nova York ou Londres.

Nós achamos sinceramente que estamos torcendo por um país na Copa do Mundo, mas estamos apenas aplaudindo, de pé, o excelente rendimento trimestral de um fundo imobiliário.

Ycarim Melgaço

Professor e escritor, autor de “Histórias das Viagens e do Turismo” (entre outros).

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