Domingo. Levantei, passei uma água no corpo e coloquei comida para os passarinhos que me visitam diariamente. Os periquitos-de-encontro-amarelo aparecem apenas para encher a barriga e ir embora. Outros, como as rolinhas-roxas e as avoantes, permanecem por perto, especificamente numa sete-copas em frente ao meu prédio. Só deixam a árvore quando começa a escurecer.

Improvisado o café da manhã, rumei para a Feira da Marreta: uma feira exótica realizada a céu aberto na Vila Nova. Por lá se encontra um verdadeiro mosaico de objetos e curiosidades: ferramentas antigas, peças de carros e bicicletas, eletrônicos, roupas usadas e novas, fitas cassete, brinquedos infantis, discos de vinil, livros… Putz! É uma infinidade de quinquilharias. Tem até sogra à venda. Entre tantas mercadorias, também há plantas. Foram elas que me levaram à feira, mais precisamente um cacto conhecido como coroa-de-frade, mas não o encontrei. Comprei um lá certa vez. Morreu de tanta água que a diarista que cuida do meu barraco deu a ele. Combinamos de ela só cuidar da casa.

Soltei os olhos pelas bancas e passei a observar as mercadorias, muitas delas expostas diretamente no chão. Foi então que algo chamou a minha atenção: dois braços de violão à venda. “Terão compradores?”, pensei. Havia também produtos novos sendo comercializados. No meio da feira, um homem empurrava uma bicicleta Monareta. Presa a ela, uma caixa de som tocava uma música sertaneja raiz num volume generoso. Ainda bem que era raiz. Se fosse uma dessas entediantes músicas urbanejas, em que a voz dos cantores parece ser a mesma em todas as canções, eu, altaneiro leitor, não teria suportado caminhar atrás dele.

Periquitos-de-encontro-amarelo, após se alimentar, vão embora do comedouro | Foto: Sinésio Dioliveira

Sobre os dois braços de violão, um ainda conservava uma corda. Parei diante deles e vi algo além de simples peças sem função. Vi instrumentos interrompidos, uma música amputada, sem voz. As cordas sozinhas não dizem nada. Dependem da caixa de ressonância para que a música ganhe corpo e voz. Sem essa parceria, o violão fica mudo, como um poema privado de palavras.

Isso me fez pensar que com as pessoas ocorre algo parecido. Quase sempre sentimos que nos falta alguma coisa: uma presença, uma oportunidade, uma explicação ou mesmo uma parte de nós que ficou para trás numa dobra do tempo. Apesar disso, continuamos seguindo, tentando dar sentido à vida com o que temos à disposição. Alguns seguem nessa labuta existencial arrancando os cabelos, mas sem deixar de tocar a marcha; outros, porém, apagando a luz na frente da vida.

A imagem daqueles dois braços de violão me levou à reflexão sobre uma verdade simples: de que a condição humana se define tanto pelas realizações quanto pelas lacunas, sendo estas as mais inquietantes. Estamos quase sempre em construção, ajustando peças, apertando ou soltando parafusos, preenchendo vazios ou nos esvaziando das inutilidades que carregamos. Enfim, procurando lapidar nossas próprias imperfeições. E nessa correria maluca, não raro acabamos correndo atrás do vento. Viver é isso…

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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