O fardo do favoritismo e o peso de acreditar com o pé no chão
17 junho 2026 às 18h46

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Na semana passada, escrevi aqui sobre a nossa capacidade quase teimosa de sonhar. Falei sobre como a Copa do Mundo tem esse poder mágico de pintar o asfalto, pendurar bandeirinhas nos postes e fazer o Brasil inteiro torcer na mesma direção, deixando de lado o ceticismo dos outros 47 meses do ciclo. É uma libertação linda, um direito à esperança que ninguém pode nos tirar. Mas agora que a bola rolou e o coração já testou os seus primeiros batimentos cardíacos acelerados, precisamos conversar sobre o outro lado dessa moeda: o peso que existe em ser o país do futebol.
Se por um lado nenhuma torcida sonha como a brasileira, por outro, nenhuma cobra como a nossa. E é aí que entra o verdadeiro desafio de “acreditar no Brasil” nos tempos atuais.
Carregar cinco estrelas no peito é um orgulho que país nenhum tem, mas também é um fardo invisível que os nossos jogadores levam para o campo a cada quatro anos. Já reparou como o sarrafo para o Brasil é sempre mais alto? Se a França cai nas quartas, é um tropeço do futebol. Se a Alemanha é eliminada cedo, é o “fim de um ciclo” ou “necessidade de reformulação”. Mas se o Brasil perde, parece o fim do mundo. Cria-se um luto nacional instantâneo, procuramos culpados e decretamos, do dia para a noite, a falência total da nossa identidade. O futebol morreu.
Essa cobrança asfixiante muitas vezes nos cega para a realidade do futebol moderno. O abismo técnico que nos separava do resto do mundo nos anos de Pelé ou de Ronaldo já não existe mais. Hoje, o futebol estuda milimetricamente cada jogada. O favoritismo histórico não entra em campo, não faz gol e não assusta mais ninguém de véspera.
Por isso, acredito que a forma mais madura de torcer pelo hexa hoje não é a da arrogância de quem se acha dono do esporte, mas a do respeito pelo processo. Acreditar na Seleção, no fundo, exige da gente uma mudança de postura. Precisamos aprender a sofrer o jogo. Entender que haverá passes errados e momentos em que o adversário vai nos encurralar. E que isso faz parte do futebol, não é um sinal de que tudo está perdido.
Nossos meninos no gramado precisam do nosso calor, aquele mesmo calor humano que mencionei no texto anterior, mas também precisam do benefício da dúvida. Eles precisam saber que a torcida apoia o talento e a entrega, mas compreende que do outro lado também existem profissionais querendo fazer história.
Sonhar com o hexa é maravilhoso, e continuar berrando gol na janela ao lado do vizinho desconhecido é o que nos mantém vivos. Mas que esse sonho venha acompanhado de um pé no chão saudável. A nossa camisa ainda é a mais respeitada do planeta, o nosso talento ainda é o mais improvisador e bonito de se ver.
No entanto, o hexa só vai vir quando aceitarmos que ele não é uma obrigação divina, mas uma conquista que dá um trabalho danado para ser construída. Até o último minuto, a gente apoia. Com o coração na ponta da chuteira, mas com a cabeça no lugar.
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