Vozes femininas — Rosarita Fleury: Sororidade, paisagem e pertencimento
27 junho 2026 às 22h42

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Elizabeth Abreu Caldeira Brito
Rosarita Fleury, nome literário de Maria do Rosário Fleury, nasceu na Cidade de Goiás (GO), em 1913. Filha de Heitor Moraes Fleury e Josefina Caiado Fleury, formou-se normalista pelo tradicional Colégio Sant’Anna, de Goiás. Sua trajetória profissional foi alicerçada, em princípio, como servidora pública. Exerceu o magistério, a disciplina administrativa e a vocação literária em um tempo em que a escrita feminina lutava por legitimidade nos espaços da cultura letrada.
Sua atuação intelectual teve destaque e extrapolou o campo da escrita: foi a primeira personalidade goiana a receber o prêmio nacional Júlia Lopes de Almeida, da Academia Brasileira de Letras, com o romance “Elos da Mesma Corrente”, em 1959. Venceu o primeiro concurso de poesias promovido pela Academia Goiana de Letras – AGL, em 1942, com o “Poema a Goiânia”, cuja narrativa celebra o nascimento da nova capital do Estado, Goiânia, no Cerrado. Nele, a voz poética convida o visitante a conhecer as belezas e virtudes da cidade, comparando a beleza goianiense à figura histórica da Grécia antiga, Frineia. Assim, a poetisa recorre a um referente clássico para afirmar os encantos e as promessas da cidade, numa estratégia lírica que alia tradição e modernidade.

Dez anos depois da premiação pela ABL, com o referido livro, em 1969, idealizou e fundou, com Ana Braga e Nelly Alves de Almeida, a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, sendo sua presidente por 23 anos. Com o surgimento da Aflag, Rosarita, Ana Braga e Nelly Alves construíram um espaço de sororidade institucional para a literatura e as artes oriundas de mulheres, vez que as literatas eram impedidas de ingressar na Academia Goiana de Letras. Somente trinta anos depois da premiação pela ABL, em 1989, Rosarita foi eleita para a AGL. Integrou o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e a Associação Goiana de Imprensa, participando ativamente da construção da memória cultural e histórica do Estado.
A recepção crítica de sua obra, embora por vezes discretas nos grandes centros, reconhece em Rosarita Fleury uma poeta de transição: sua escrita oscila entre ressonâncias simbolistas tardias, traços parnasianos e uma sensibilidade moderna voltada para o espaço regional. Essa posição intermediária aproxima-a de outros nomes da literatura brasileira que, como Cora Coralina, elaboraram uma poética enraizada no cotidiano e na paisagem local, sem abdicar de ambições universais. No caso de Rosarita, o Cerrado não é apenas cenário, mas categoria estética e ética. Configura uma ecopoética antes mesmo de o termo ganhar circulação acadêmica.

Rosarita Fleury faleceu em Goiânia, a 14 de março — Dia Nacional da Poesia — de 1993, aos 79 anos. Após o seu falecimento, a biblioteca da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás passou a ter o seu nome. Foi ainda laureada com a Casa Rosarita Fleury, designação dada à sede da Aflag. A escritora foi homenageada por sua filha Maria Elizabeth Fleury Teixeira na obra “Rosarita Fleury, Minha Mãe” (Goiânia: Kelps, 2014). Nela, a autora como se dialogasse com a mãe, registra narrativas inéditas deixadas por Rosarita, como um relicário de lembranças dos tempos idos. A voz poética de Rosarita, inicialmente dispersa em jornais e revistas goianas, foi reunida postumamente no livro “Pétalas” (2003).
Assim, Rosarita Fleury nos lega uma obra em que história, poesia, sororidade e paisagem se entrelaçam. Seu testemunho e sua produção, ao mesmo tempo lírico e documental, fundam imagens duradouras do Cerrado e da Goiânia nascente. Oferecem à literatura brasileira produzida em Goiás, uma voz feminina que pensa a sororidade, o território, a memória e o futuro.
Publicações de Rosarita Fleury
“São João” (1940); “Retalhos” (1935);
“Elos da Mesma Corrente” (1950);
“Sombras em Marcha” (1983),
“Leodegária de Jesus” (1973);
“Heitor Fleury” (1974);
“Jarbas Jayme — Historiador” (1977);
“Eurydice Natal e Silva” (1979),
“Altamiro Pacheco” (1981)
“Pétalas” (publicação póstuma, 2003).
Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag). É colaboradora do Jornal Opção.
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