Paralelos históricos e culturais entre a Cidade de Goiás e a antiga Santa Luzia (Luziânia)
27 junho 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Introdução
Por que algumas cidades são celebradas como patrimônio da humanidade, enquanto outras, com histórias semelhantes, permanecem à margem da memória oficial?
Essa questão nos conduz a uma reflexão mais ampla sobre os critérios de valorização histórica, os processos de construção da memória coletiva e as disputas simbólicas que definem o que deve ser preservado — e o que pode ser esquecido. A memória oficial, por outro lado, refere-se normalmente a processos institucionais de seleção, legitimação e hierarquização do passado, frequentemente conduzidos por Estados e organismos internacionais.
Como afirma Maurice Halbwachs, “a memória coletiva se apoia em quadros sociais que a sustentam” ¹ (p. 54), indicando que lembrar é sempre um ato condicionado por estruturas sociais.
No contexto do Brasil central, a Cidade de Goiás e a antiga Santa Luzia, atual Luziânia, oferecem um campo privilegiado para essa análise. Ambas nasceram do mesmo impulso minerador do século XVIII, compartilharam estruturas sociais semelhantes e enfrentaram processos históricos convergentes. No entanto, suas trajetórias produziram resultados distintos no plano da memória, do patrimônio e da identidade.
É a partir desse contraste — entre reconhecimento e invisibilidade, entre preservação e transformação — que se estrutura a presente reflexão.
1
A gênese bandeirante e o apogeu aurífero
A compreensão da formação histórica do Estado de Goiás passa, necessariamente, pela análise de seus núcleos urbanos coloniais, especialmente aqueles surgidos no contexto da expansão mineradora do século XVIII²,³.
Como observa Sérgio Buarque de Holanda, tratava-se de um processo marcado por “adaptação às circunstâncias do meio”³ (p. 103), revelando o caráter flexível e pragmático da colonização portuguesa no interior do território.
A Cidade de Goiás, antiga Vila Boa, originou-se das expedições de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, após a descoberta do ouro em 1726⁴, tornando-se sede administrativa da capitania.
Santa Luzia, fundada em 1746 por Antônio Bueno de Azevedo, destacou-se como importante arraial minerador e ponto de articulação regional entre Goiás, Minas Gerais e Bahia⁵.
Ambas as localidades experimentaram crescimento populacional acelerado e desordenado, sustentado pelo trabalho escravo.

Como destaca Laura de Mello e Souza, a mineração produziu uma sociedade “profundamente hierarquizada e dependente do trabalho escravo” ⁶ (p. 211).
A exploração aurífera exigiu soluções técnicas complexas. Em Santa Luzia, por exemplo, destaca-se o Rego da Saia Velha, com cerca de 42 km de extensão, evidenciando tanto o avanço técnico quanto a exploração intensiva da mão de obra.
No plano urbano, Roberta Delson observa que as vilas coloniais apresentavam “traçados adaptados mais às circunstâncias do que a planos pré-estabelecidos” ⁷ (p. 78), refletindo a lógica orgânica da ocupação.
A religiosidade desempenhou papel estruturante. Segundo Boschi, as irmandades leigas constituíam “formas de organização social que articulavam devoção, assistência e poder” ⁸ (p. 45), funcionando como mecanismos de coesão social.
2
O esgotamento do ouro e o paradigma da “decadência”
Com o esgotamento das jazidas auríferas, a partir do final do século XVIII, consolidou-se na historiografia tradicional a ideia de “decadência” ⁹.
Entretanto, essa interpretação vem sendo amplamente revisada. Nasr Chaul afirma que a decadência foi “mais uma construção discursiva do que uma realidade absoluta” ¹⁰ (p. 132), enquanto Paulo Bertran argumenta que o período correspondeu a uma “reorganização do espaço econômico e social” ¹¹ (p. 89).
Essa mudança de perspectiva permite compreender o período não como ruptura, mas como adaptação.
Observa-se, então, a transição para uma economia agropastoril e de subsistência, com fixação da população no território.
No plano cultural, essa fase foi marcada por reinvenção dos modos de vida. Alfredo Bosi descreve a formação brasileira como uma “dialética da colonização” ¹² (p. 27), na qual diferentes matrizes culturais se articulam.
O relativo isolamento contribuiu para a preservação de práticas culturais e formas urbanas. Como observa Halbwachs, “o espaço é um dos suportes mais estáveis da memória” ¹ (p. 140).
É interessante mencionar as observações feitas por Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês, que passou pela região de Goiás durante sua expedição ao Brasil. Ele esteve em Santa Luzia e na Cidade de Goiás em 1819 e sobre elas fez as seguintes observações, que constam em sua obra “Viagem à Província de Goiás”, onde registrou aspectos da natureza, da população e dos costumes locais.
“Santa Luzia é uma das povoações mais agradáveis da província. Sua situação é bonita, cercada por colinas suaves, e o clima é saudável. As casas são, em geral, bem construídas, e há ali certo ar de prosperidade que não se encontra em muitas outras localidades de Goiás.”
Ele também comentou sobre os costumes locais e a vida social: “Os habitantes mostram-se afáveis e hospitaleiros. Nota-se entre eles mais atividade e comércio do que em outras partes da capitania.”
E sobre a natureza da região: “Os arredores são férteis e apropriados tanto à agricultura quanto à criação de gado, com paisagens que agradam à vista”.

Esses relatos são valiosos porque mostram que, já no início do século XIX, Santa Luzia se destacava dentro de Goiás como um núcleo relativamente próspero e agradável — algo que nem sempre era comum na região naquela época.
Por outro lado, ao registrar suas impressões sobre a antiga Vila Boa de Goyaz, assim se expressa:
“As ruas são estreitas, tortuosas e, em muitos lugares, mal calçadas;
“As casas, em geral, são baixas e de aparência pouco cuidada, embora algumas pertençam a pessoas mais abastadas.”
“A decadência é visível; a mineração, outrora florescente, já não sustenta a população como antes.”
“Apesar de tudo, Goiás conserva sua importância por ser a sede do governo da província.”
Esses trechos mostram bem o tom dele: crítico em relação à estrutura urbana e à decadência econômica, mas reconhecendo o papel político da cidade.
3
Estrutura de poder: coronelismo e permanências
Durante o século XIX e início do século XX, o isolamento geográfico favoreceu a consolidação do coronelismo como forma dominante de poder local10.
Chaul define esse sistema como “mando local baseado na concentração de terras e na autoridade pessoal” ¹⁰ (p. 201).
Enquanto a Cidade de Goiás mantinha sua centralidade administrativa, Santa Luzia viu a emergência de famílias tradicionais — como Roriz, Meireles, Melo e Braz de Queiroz — que estruturaram redes de poder duradouras, consolidando sua influência por meio da posse da terra, alianças matrimoniais e controle político local ¹4,¹5.
Essas elites santaluzienses originaram-se de mineradores e comerciantes que chegaram ainda no século XVIII (como Gabriel Fernandes Roriz, em 1770, e José Gonçalves de Meirelles) e expandiram seus domínios através da aquisição de terras e alianças matrimoniais. Já a ramificação principal da atual família Melo (originalmente Araújo Mello) tem como raiz genealógica a figura de Antônio Joaquim de Araújo Mello. Ele chegou a Santa Luzia no ano de 1815 como religioso, mas acabou deixando a batina para se casar com uma moça pertencente à família Roriz, descrita como “a mais linda donzela” da vila. A família Braz de Queiroz, por sua vez, teve o seu início na região com a chegada de quatro irmãos no ano de 1867: Aleixo, Miguel, João e Francisco Braz de Queiroz. Eles migraram do estado de Minas Gerais, especificamente da cidade de Carmo do Paranaíba. Registros genealógicos apontam que o pai desses irmãos se chamava Braz Soares de Queiroz.
Na Cidade de Goiás, contudo, a estrutura de poder apresentou características específicas decorrentes de sua condição de capital administrativa. Desde o século XVIII, formou-se uma elite composta por funcionários régios, militares, comerciantes e grandes proprietários de terra, cuja atuação articulava interesses locais e estruturas do Estado colonial e imperial. Entre as famílias mais influentes destacam-se os Caiado, Bulhões, Fleury, Curado e Jardim, que exerceram papel relevante na vida política, administrativa e cultural da região.
A família Caiado, por exemplo, consolidou uma longa tradição de atuação política que atravessa o período imperial e alcança a contemporaneidade. Os Bulhões tiveram presença significativa na política provincial, enquanto os Fleury e Curado se destacaram na articulação entre poder local e administração régia. Já os Jardim participaram ativamente das dinâmicas políticas regionais. Essas famílias não apenas concentravam poder econômico, mas também exerceram influência simbólica duradoura, contribuindo para a formação de uma tradição letrada e institucional que reforçou a centralidade da Cidade de Goiás como polo político e cultural do estado.
4
Os impactos da modernização: Goiânia e Brasília
O século XX introduziu rupturas profundas na organização regional.
A construção de Goiânia, na década de 1930, resultou na transferência da capital estadual, esvaziando politicamente a Cidade de Goiás.
Segundo Chaul, a nova capital representava a “negação simbólica da antiga ordem” ¹⁰ (p. 245), reforçando um discurso modernizador que associava o passado colonial ao atraso.
Paradoxalmente, a perda de centralidade contribuiu para a preservação do patrimônio histórico, culminando no reconhecimento pela UNESCO, em dezembro de 2001, como patrimônio cultural da humanidade.
Em Luziânia, a construção de Brasília, nas décadas de 1950 e 1960, provocou uma transformação estrutural profunda.
A cidade passou a integrar a dinâmica metropolitana da nova capital federal, assumindo características de cidade-dormitório. Apesar dessas transformações, estruturas tradicionais de poder permaneceram influentes, evidenciando a coexistência entre modernização e permanência histórica16.
5
Cultura, memória e identidade
A Cidade de Goiás consolidou-se como símbolo da memória histórico-cultural goiana, especialmente por meio da obra de Cora Coralina. Nascida em 20 de agosto de 1889, ela lançou seu primeiro livro aos 76 anos de idade: “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”. Mas só ganhou notoriedade quando Carlos Drummond de Andrade elogiou a segunda edição do livro, publicada em 1978, 13 anos depois do lançamento.
Segundo Nunes, sua produção literária “reinventa a cidade como espaço de memória e identidade” 17 (p. 66).
Luziânia, por sua vez, preserva manifestações culturais fortemente vinculadas à tradição oral, às festas religiosas e às práticas comunitárias 5,15 aspectos ainda pouco explorados pela produção acadêmica, mas fundamentais para a compreensão de sua identidade histórica7. Além disso, vários luminares da cultura goiana em suas diversas manifestações aqui tiveram seu berço, tais como Gelmires Reis, José Dilermando Meireles, Amaury Menezes, DJ Oliveira, Simão Carneiro de Mendonça, Benjamim Roriz, padre Jesus Flores e tantos outros.
Vale ressaltar o papel destacado de Paulo Bertran (1948–2005), reconhecido por seu pioneirismo na eco-história do Cerrado e do Planalto Central. Sua obra uniu rigor científico e sensibilidade poética, abordando a formação histórica, ambiental e cultural de Goiás e do Distrito Federal, em que sublinhou, com justiça, o papel e o valor de Santa Luzia no cenário cultural e geopolítico de Goiás.
Simone Scifoni ressalta que o patrimônio cultural “reflete relações de poder que definem o que deve ser preservado” ¹8 (p. 19), evidenciando o caráter seletivo desses processos.
Conclusão
A análise comparativa entre a Cidade de Goiás e Luziânia permite ultrapassar uma leitura meramente descritiva da história regional, revelando dimensões estruturais da formação social brasileira e os mecanismos pelos quais o passado é construído, selecionado e institucionalizado.
Ambas as cidades emergem de uma mesma matriz histórica — a mineração aurífera, a escravidão e a expansão bandeirante —, mas seus destinos divergem significativamente. Essa divergência não se explica apenas por fatores econômicos ou geográficos, mas sobretudo pelos processos de atribuição de valor histórico e cultural ao longo do tempo.
A Cidade de Goiás, ao perder sua centralidade política, foi paradoxalmente preservada como espaço de memória. Sua consagração como Patrimônio da Humanidade representa não apenas reconhecimento arquitetônico, mas a consolidação de uma narrativa específica sobre o passado, marcada pela ideia de continuidade, autenticidade e identidade.
Luziânia, em contraste, foi profundamente transformada pela modernização associada à construção de Brasília. Sua inserção na dinâmica metropolitana implicou não apenas mudanças urbanas, mas também um deslocamento simbólico: de centro histórico regional para periferia funcional.
Esse contraste evidencia que a memória não é um dado natural, mas uma construção social seletiva.
Como bem sugere Halbwachs, lembrar é sempre um ato coletivo condicionado por estruturas sociais¹ (p. 54). Nesse sentido, o reconhecimento patrimonial não apenas preserva o passado, mas também o redefine, estabelecendo hierarquias entre narrativas históricas.
Mais do que apenas conservar edifícios ou tradições, o desafio contemporâneo, a meu ver, reside em ampliar o campo da memória, incorporando experiências históricas marginalizadas e promovendo uma compreensão mais plural e inclusiva do passado.
Nesse sentido, é mais que legítimo e desejável que a vetusta e querida Santa Luzia se debruce sobre seus valores histórico-culturais e os faça cada vez mais conhecidos e reconhecidos, podendo até mesmo pleitear, com justiça, o reconhecimento da Unesco como patrimônio cultural da humanidade. Todavia, talvez ainda mais importante que a obtenção de um título como esse, seja o de ser, sempre, um patrimônio cultural indispensável à compreensão da própria razão de ser de sua gente valorosa, da preservação de seus usos, costumes e valores.
Referências bibliográficas
¹ Halbwachs M. A memória coletiva. São Paulo: Centauro; 2006. p. 54, 140. Disponível em: https://archive.org/details/memoriacoletiva.
² Palacín L. Goiás, 1722–1822: estrutura e conjuntura numa capitania de minas. Goiânia: Oriente; 1976. p. 45–78. Disponível em: https://www.worldcat.org/title/goias-1722-1822.
³ Holanda SB. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras; 1995. p. 103–120. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10139.
4 Palacín L. História de Goiás. Goiânia: UFG; 1994. p. 67–89. Disponível em: https://books.google.com.
5 Meireles JD. Do Arraial de Santa Luzia à Luziânia. DF-Letras. 1995;(21–22):13–20. Disponível em: https://www.cl.df.gov.br.
6 Souza LM. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras; 2002. p. 200–230. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10116.
7 Delson RM. Novas vilas para o Brasil-Colônia: planejamento espacial e social no século XVIII. Brasília; 1979. p. 70–95. Disponível em: https://www.worldcat.org/title/novas-vilas-para-o-brasil-colonia.
8 Boschi CC. Os leigos e o poder: irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo: Ática; 1986. p. 40–60. Disponível em: https://www.worldcat.org/title/os-leigos-e-o-poder.
9 Silva RC. Considerações sobre o conceito de “decadência” na historiografia em Goiás. Rev Expedições. 2020;11:1–24. Disponível em: https://revistas.ufg.br/revexpedicoes/article/view/62663.
10 Chaul NF. Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade. Goiânia: UFG; 2018. p. 130–250. Disponível em: https://repositorio.bc.ufg.br.
11 Bertran P. História da terra e do homem no Planalto Central. Brasília: UnB; 2011. p. 80–110. Disponível em: https://editora.unb.br.
12 Bosi A. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras; 1994. p. 20–40. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10085
13 Saint-Hilaire A. Viagem à província de Goiás. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP; 1975
14 Queiroz JB. A história das famílias Espírito Santo Serqueira e Braz de Queiroz. 2006. Disponível em: https://www.worldcat.org.
15 Reis Júnior RL, Rocha VV. As famílias tradicionais em Luziânia/GO. In: Barbosa FC, org. História: a ciência do passado no presente. Piracanjuba: Conhecimento Livre; 2024. p. 5–31. Disponível em: https://editoraconhecimentolivre.com.
16 Fonseca MCL. O patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ; 2005. p. 30–55. Disponível em: https://www.editora.ufrj.br.
17 Nunes MD. Cora Coralina e a invenção da Cidade de Goiás. Goiânia: UFG; 2004. p. 60–80. Disponível em: https://repositorio.bc.ufg.br.
18 Scifoni S. Subverter o patrimônio cultural: periferia e participação social. Terra Livre. 2023. p. 15–25. Disponível em: https://www.agb.org.br/publicacoes/index.php/terralivre.
(Conferência proferida em 3 de maio de 2026, na sede da Academia de Letras e Artes do Planalto)
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.



