Ana Kelly Souto

De Portugal para o jornal Opção

Abecedário de Agostinho de Hipona: o X da questão

X é o símbolo mais sobrecarregado da história humana. Marca do analfabeto e da assinatura urgente, ícone da moda desconectado de seu peso, letra de incógnita e de alvo. Os romanos o usavam para grafar o nome de Cristo — o Chi grego (Χ) que abre Χριστός — e foi justamente esse X primitivo que os primeiros cristãos adotaram como sinal secreto, muito antes que qualquer cruz fosse desenhada numa parede. Antes da elaboração doutrinal, veio o símbolo.

Mas o X é também, literalmente, a forma de uma cruz inclinada. E é nesse cruzamento de linhas e sentidos que Agostinho de Hipona se torna nosso contemporâneo. Hoje há certo prestígio cultural em se declarar cético, como se a suspensão permanente fosse sinal de inteligência. Duvida-se da instituição, da narrativa, do símbolo. A cruz aparece em colares de bijuteria no estilo Madonna dos anos 80, estampada e esvaziada de qualquer gravidade. E, ao mesmo tempo, nos momentos de crise real, é para ela que o olhar retorna — quase envergonhado.

Para Nietzsche, a cruz é sinal de ressentimento: a celebração da fraqueza, a vingança dos fracos sobre os fortes disfarçada de moral. Para Gandhi, era exemplo moral sublime, mas ele recusava a “virtude misteriosa”, a dimensão sobrenatural que os cristãos insistiam em ver ali. São leituras honestas, e nenhuma pode ser simplesmente descartada. O que ambos não perceberam — ou não quiseram enfrentar — é a pergunta que Agostinho formulou antes deles e que permanece sem resposta fácil: por que o sofrimento do inocente não nos deixa indiferentes? Por que a dor exige não apenas conforto, mas sentido?

Nenhuma quantidade de dados, terapias ou sistemas filosóficos consegue silenciar completamente essa questão. Ela insiste, retorna, acorda alguém às três da manhã — e é justamente aí que Agostinho se recusa a oferecer o anestésico fácil. “Inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti” (Confissões I, 1, 1).

O Livro X das Confissões — não por acidente, o X da obra — é onde Agostinho abandona o relato biográfico e mergulha na memória, no “vasto palácio interior” onde o homem reencontra o que nunca soube que tinha perdido. É o movimento que nossa época mais resiste: virar-se para dentro. Diante de dois minutos disponíveis, fugimos de nós mesmos — preferimos o scroll infinito ou qualquer ruído que adie o silêncio.

Santo Agostinho e o Mistério da Santíssima Trindade pintura de Peter Paul Rubens de 1638

Seria tentador reduzir a Cruz a um argumento de consolação: “o sofrimento tem sentido, portanto aguente.” Mas antes de qualquer resposta, é preciso sentar com a objeção. Há males que parecem vir só para o mal: a criança que morre de fome, o prisioneiro de Auschwitz, a vítima de tortura que não sobrevive. Nenhuma teologia honesta pode passar por esses horrores com leveza. Agostinho, que viveu entre ruínas e guerras, sabia disso.

O que ele recusa não é o horror, mas a ideia de que o horror tem a última palavra. Para Agostinho, o mal não é substância eterna — é privação de bem, ferida aberta numa criação que ainda carrega a marca do bem. Isso não transforma o campo de extermínio em pedagogia, mas retira ao sofrimento gratuito qualquer possibilidade de ser justificado ou celebrado: ele permanece como acusação contra o mundo tal como está. A Cruz não glorifica a dor, confronta-a, não apresenta um Deus protegido do sofrimento injusto, mas um Deus que entrou nele.

Vivemos tempos em que pedir desculpas muitas vezes se tornou reflexo social. No filme Minha Vida em Marte (2018), Paulo Gustavo e Monica Martelli captam isso com humor — o “sorry” automático, dito quase antes mesmo da culpa existir, fórmula rápida para evitar constrangimento sem custo nem consequência. Em terapias contemporâneas, representa-se a cena do conflito e declara-se “eu te perdoo” — e é possível que algo genuíno aconteça ali, mas Agostinho conhecia uma versão mais dura, o perdão que custa caro.

O mal que alguém pratica não desaparece porque alguém declarou “eu perdoo.” A dor não some por decreto, continua ali. E alguém precisa absorvê-la para que pare de se multiplicar. A cruz é a afirmação radical de que o próprio Deus não salva à distância, entra na dor, assume o custo, não delega o sofrimento a outro. Há algo muito escandaloso nisso para qualquer época acostumada a conforto sem compromisso. O beijo de Judas ensina o avesso com igual precisão. O que parece próximo e doce pode carregar o ato mais letal, o que destrói de forma mais profunda raramente vem do inimigo declarado, deste, ao menos, espera-se o ataque e tenta-se proteger. As feridas mais devastadoras vêm daquele que entrou desarmado no coração da confiança.

Há uma frase nas Confissões que parece escrita para 2026: “Tu estavas dentro de mim, e eu fora; e lá te procurava” (X, 27, 38). Toda a agitação exterior — as telas, os debates intermináveis, a necessidade contínua de estímulo — pode ser lida como a versão contemporânea desse “eu fora”. Agostinho não propõe abandonar o mundo, mas um movimento inverso, deslocar-se da dispersão para o centro interior da existência — para isso não há aplicativo.

Nesse movimento interior, o X da Cruz retoma algo semelhante a uma arquitetura do humano. O X de Cristo nasce do encontro de dois eixos — o vertical, que liga o homem ao transcendente, e o horizontal, que liga o homem ao próximo. Separados, nenhum deles sustenta a cruz. Uma espiritualidade sem transcendência, até o amor ao próximo pode secar em exaustão ou ressentimento. A Cruz mantém os dois eixos sob tensão, é por isso que sua resposta nunca é simples — ela tem forma de X.

Agostinho foi marcado com o sinal da Cruz ao sair do ventre de sua mãe cristã, Mônica — “me temperaram com seu sal já ao sair do ventre” (Confissões I, 11, 17). Levou décadas para compreender o que isso significava. Esse parece ser o tempo exigido por todo símbolo verdadeiro, ele não se entrega de imediato, amadurece lentamente na experiência vivida e, apenas depois de muitos anos, ilumina o que já estava presente desde o início.

O X da questão nunca foi simples. De todas as letras do abecedário, o X foi a mais difícil de escrever, porque a Cruz não aceita permanecer apenas no plano das ideias.

Referências

Tomás de Kempis, Imitação de Cristo · Nietzsche, F., O anticristo · Gandhi, M. K., Autobiografia

Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.