O Tempo das Amazonas, de Marvel Moreno, pergunta: o que acontece com os sonhos quando encontram o tempo?
20 junho 2026 às 21h00

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Às vezes, os caminhos da leitura são estranhos.
Cheguei a Marvel Moreno por acaso. Ou melhor, por causa da Shakira. Após me indicarem a autora, fui pesquisar sobre sua vida, e descobri que ambas nasceram em Barranquilla, na Colômbia. Confesso que essa informação despertou mais minha curiosidade do que o fato de Moreno ter sido contemporânea de Gabriel García Márquez ou de ter circulado pelos mesmos ambientes intelectuais da época.
Havia algo divertido em imaginar que uma escritora tão interessante, que até então eu não conhecia, e uma “diva pop” sejam conterrâneas. Assim, não resisti à coincidência e comecei a ler “O Tempo das Amazonas” (Moinhos, 284 páginas, tradução de Silvia Massimini Felix). Não fazia ideia que encontraria um dos retratos psicológicos mais humanos que li nos últimos anos.
Marvel Luz Moreno Abello nasceu em 1939, em Barranquilla, e faleceu em 1995, em Paris. Ela viveu 55 anos. Foi a primeira mulher da Faculdade de Economia da Universidade do Atlántico e, em 1959, foi coroada rainha do Carnaval de Barranquilla, um dado que desmonta aquela imagem de escritora reclusa desde a juventude.

Ainda jovem, passou a frequentar o chamado “Grupo de Barranquilla”, círculo intelectual que reunia García Márquez, Álvaro Cespeda Samudio, Alejandro Obrégon e outras personalidades. Ela não chegou ali como coadjuvante, já circulava naquele meio por mérito próprio, escrevia desde cedo e era uma presença intelectualmente ativa muito antes de começar a escrever romances.
Nos anos 1970, mudou-se para Paris, onde viveu até o fim da vida. Durante muito tempo, sua história foi tratada como nota de rodapé na história dos escritores do Boom Latino-Americano, mas esse olhar tem mudado e cada vez mais leitores chegam à conclusão de que Moreno merece um capítulo próprio.
“O Tempo das Amazonas”, publicado postumamente e recentemente traduzido no Brasil, pela Editora Moinhos, é a prova mais eloquente disso.
O tempo e o peso das decisões
À primeira vista, é fácil compreender o motivo de tantos leitores associarem sua obra a uma crítica das estruturas patriarcais. Essa camada existe e é importante. O romance fala sobre casamento, desejo, maternidade, envelhecimento e os diferentes papéis que a sociedade espera que as mulheres desempenhem, porém, reduzir o livro a uma denúncia social seria uma injustiça com sua complexidade. O que encontrei ali é algo muito maior.

O romance acompanha, ao longo de várias décadas, a vida de três primas – Gaby, Virgínia e Isabel –, pertencentes à elite de Barranquilla, que, ainda jovens, deixam a Colômbia e se estabelecem em Paris.
Entre amores, casamentos, doenças, expectativas e frustrações, Marvel Moreno constrói um amplo painel das transformações vividas por essas mulheres enquanto o tempo modifica seus afetos e a maneira como compreendem a si mesmas. A trama, no entanto, não está interessada apenas nos acontecimentos: Marvel Moreno quer saber o que esses acontecimentos provocam nas pessoas.
Uma escolha amorosa não termina quando é feita; um casamento não se encerra no dia da cerimônia; uma decepção não permanece restrita ao momento em que acontece. Tudo continua agindo dentro das personagens, moldando lentamente quem elas se tornam.

Talvez por isso o tempo seja um dos protagonistas. É o tempo que revela o peso das decisões, que transforma certezas em dúvidas e dúvidas em convicções. Enquanto lia, tive a impressão de que a autora observava suas personagens com a paciência de quem sabe que nenhuma vida pode ser compreendida no instante em que acontece. A vida só se torna legível depois.
Mais humano do que pessimista
Outro aspecto que chama atenção é a ausência de maniqueísmo. Vivemos um momento em que muitas narrativas parecem sentir a necessidade de dividir os personagens entre heróis e vilões, vítimas e culpados. Moreno faz exatamente o contrário.
As personagens da prosa colombiana erram, acertam, se iludem, manipulam, amam, ressentem-se, amadurecem e voltam a cometer erros. Os homens da história, embora possam parecer menos complexos, funcionam como concentrações de determinadas pressões sociais – expectativas masculinas, poder familiar, convenções da época.
A investigação psicológica mais profunda está reservada às mulheres, não porque os homens sejam irrelevantes; é porque o foco está nelas. E, ainda assim, Moreno não as transforma em figuras idealizadas. Elas também reproduzem expectativas, exercem controle umas sobre as outras e, em muitos momentos, participam da manutenção de estruturas que as limitam.

As gerações anteriores transmitem padrões às mais novas não por perversidade, mas por acreditarem sinceramente que não existe outro caminho. A atenção está menos voltada para culpados e inocentes do que para a maneira como todos participam, conscientemente ou não, da manutenção de determinadas formas de vida. Justamente por isso que o romance me parece mais humano do que pessimista.
E nos leva às três personagens que carregam essa humanidade.
Gaby é a que sente tudo com intensidade. Há algo extremamente comovente nela, sua vulnerabilidade nunca se reduz à fragilidade, e quando é acometida por uma doença grave, não é apenas ela que sofre: a atmosfera inteira do romance parece adoecer junto. Ela representa a dimensão mais visceral da experiência, a vida sentida no corpo, antes de qualquer elaboração.
Virgínia, por outro lado, é a mulher que reflete. Numa visão apressada, parece ser a mais livre – sensata, resiliente, aparentemente menos frustrada que as demais. Contudo, Moreno complica essa leitura ao revelar que grande parte de seus valores foi moldada pelo diário de um tio. A mulher que parece ter escapado das armadilhas que aprisionam tantas outras ainda constrói sua identidade a partir de um modelo recebido.
Não encontrei nessa contradição uma crítica ou condenação; encontrei uma pergunta: existe liberdade completamente autônoma? Virgínia representa a vida examinada, mas também nos lembra que examinar a própria vida não significa tê-la erguido do zero.

Isabel é a prima que mais demorei a compreender. Ela não possui a intensidade imediata de Gaby nem a lucidez marcante de Virgínia, e, talvez, seja por isso que é um elemento tão importante na narrativa. Isabel é a personagem do possível; ela carrega a dimensão que suas primas não conseguem representar sozinhas: a capacidade humana de projetar futuros, de desejar uma vida, de construir expectativas. Em outras palavras, de sonhar. E porque é a personagem mais temporal das três (aquela que só se revela completamente quando acompanhamos a trajetória inteira), ela encarna melhor do que ninguém a pergunta que o romance nos deixa: o que acontece com os sonhos quando encontram o tempo?
Um livro pessimista destrói os sonhos, mas “O Tempo das Amazonas” não faz isso; ele os submete ao tempo.
Amizade é “personagem” relevante
São coisas muito diferentes. Os sonhos mudam, se deformam, às vezes sobrevivem, às vezes fracassam. Às vezes se transformam em algo completamente inesperado, só que permanecem importantes. E é essa recusa da destruição sem ceder à ilusão que torna a obra de Moreno um romance sobre envelhecer sem amargura.
Quanto mais penso no livro, menos acredito que Gaby, Virgínia ou Isabel sejam as protagonistas principais. Para mim, a personagem mais importante é a amizade entre elas. Os amores entram e saem de suas vidas, os casamentos se transformam, as famílias mudam, o tempo passa. A amizade permanece. E não apenas como afeto; ela funciona como uma consciência coletiva.
O romance não apresenta três trajetórias paralelas, ele entrega três consciências trabalhando sobre as mesmas questões fundamentais. Separadas, as três observam; juntas, elas interpretam. E é nessa interpretação compartilhada que o livro encontra sua forma mais profunda.
Se Gaby é a vida sentida, Virgínia é a vida examinada e Isabel é a vida sonhada, então a amizade delas é a tentativa de transformar uma existência em algo compreensível. Nenhuma das três, sozinha, contém o livro inteiro; ele existe no espaço que elas criam umas para as outras.
Ao terminar de ler, fiquei pensando que envelhecer talvez tenha menos relação com sucesso ou felicidade e mais relação com consciência. Mas consciência sem sonho pode virar resignação. Sonho sem consciência pode virar ilusão. Talvez seja exatamente por isso que o romance precise das três, juntas.
O tempo não apaga nada em “O Tempo das Amazonas”, ele revela.
Quando comecei a leitura, achei curioso que Marvel Moreno e Shakira fossem conterrâneas. No fim, a coincidência continuou me divertindo. Depois de acompanhar Gaby, Virgínia e Isabel por décadas, fiquei pensando que Barranquilla produz mulheres muito interessantes. Umas escrevem romances extraordinários; outras cantam que “as mulheres não choram, as mulheres faturam”.
As primas provavelmente achariam o refrão simplista demais, mas, depois de passar tantos anos conhecendo suas histórias, não me surpreenderia descobrir que Shakira é neta de alguma delas. Barranquilla parece ter a vocação de produzir mulheres que aprendem a sobreviver ao tempo.



