Desde 2025, quando passou a ser divulgado, o filme ‘Hokum: O pesadelo da bruxa’ ganhou aura de novo hit do terror folclórico. Afinal, tudo caminhava para isso: da direção, com Damian McCarthy, o responsável pelo ótimo ‘Caveat: O alerta’, até a escolha do ator principal, Adam Scott, o astro de Ruptura. Além, é claro, de ser uma história que se passa na Irlanda, cuja cultura tradicional e cenários transbordam misticismo e mistério. No entanto, o mais novo filme de McCarthy ficou só nisso mesmo, na promessa – que não se cumpriu.

A história gira em torno do escritor Ohm Bauman (Adam Scott), um escritor carrancudo que viaja para um hotel isolado no interior da Irlanda para espalhar as cinzas de seu falecido pai e, paralelamente, trabalhar em seu novo livro.

Desde o início, o filme dá ao espectador sinais de que medos e segredos pairam sobre o lugar. O hotel, um prédio antigo e construído no autêntico estilo irlandês, é cercado de lendas sobretudo quanto à suíte Lua de Mel, trancada e inacessível para qualquer hóspede.

Ao longo da história, descobrimos que Ohm é atormentado por uma tragédia envolvendo sua mãe, morta de maneira cruel com um tiro no rosto. Os traumas acumulados são expostos desde o início, o que ajuda a explicar – conforme o filme – a personalidade insuportável do nosso protagonista, um homem rude, lacônico e castigado pela própria mente.

Histórias de uma bruxa que habita a temida suíte Lua de Mel correm pelos corredores do hotel, ao mesmo tempo em que o desaparecimento de uma funcionária, a única com a qual Ohm consegue criar um mínimo de vínculo (e cordialidade), desequilibra ainda mais o clima já tenso do local.

Pela sinopse feita até aqui, temos a premissa perfeita para um rico e consistente conto de horror folclórico. Mas, infelizmente, não é o que Hokum entrega.

Leia-se: Hokum não é necessariamente ruim. Entretem o espectador, e em certos momentos, o deixa tenso com as decisões e riscos assumidos por Ohm Bauman. A questão é que o filme se perde ao tenta abraçar múltiplos gêneros e enredos e acaba não oferecendo a intensidade e a consistência adequada para eles.

De um mistério ao redor de uma suposta bruxa a um crime a ser investigado, o filme de Damian McCarthy fica com um pé em cada canoa e não dá ao espectador a ponta da corda para ficar preso na história que é contada.

A situação piora com a personalidade escolhida para o personagem de Scott. O egocentrismo e a rudeza de Ohm destroem qualquer chance de o espectador desenvolver qualquer empatia para seu sofrimento. Os traumas e a agonia do escritor em nenhum momento convencem de que as pessoas que o rodeiam merecem ser tratadas de forma tão indignante por ele.

O final carrega um certo vínculo de coerência, é preciso admitir, mas deixa na boca do espectador o amargo gosto de “É isso? Acabou?”.

Reitera-se: ‘Hokum: O pesadelo da bruxa’ não é um filme ruim. Está mais para um produto que caprichou na embalagem e esqueceu de fazer o mesmo com o conteúdo. Não chega a ser um café morno, mas esquentado no micro-ondas: não é lá essas coisas, mas melhor do que café frio.