Poema do pai da literatura russa moderna figura como epígrafe em romance de Dostoiévski

Astier Basílio

O poeta russo Aleksandr Púchkin (1799-1837 — viveu 37 anos) nasceu há 226 anos — em 6 de junho de 1837 (morreu em decorrência de um duelo com um militar francês). Em honra ao autor do romance em versos “Evguiêni Oniéguin” criou-se o feriado em homenagem à língua russa.

Compartilho uma tradução de minha autoria de um poema de Púchkin. Aqui, o texto que é citado como epígrafe em um dos romances de Fiódor Dostoiévski.

Demônios

Nuvem veloz, nuvem em nó;

Que a lua invisível trace

Sua luz na neve a voar só;

Turvo é o céu, noite a turvar-se;

Sigo no coche,  aberto o campo,

O sinozinho din din din…

O horrível, um horrível amplo,

Planície estranha se abre a mim

“Toca, cocheiro” – “a força enrasca:

Coche, o senhor, tudo me é árduo;

Cega os meus olhos a nevasca;

Está o caminho interditado;

Mata-se alguém, nada aparece;

O que fazer? Erramos tanto.

Demônios guiam-nos, parece,

E tudo gira em todo canto

Olha ele lá: brincando, urra,

Seu cuspe em minha cara pega;

Para um barranco agora empurra

Asselvajada a nossa égua;

Como verstá¹ que se extravasa

Em frente a mim aparecia:

Riscou numa faísca rasa,

Sumiu na escuridão vazia”.

Nuvem veloz, nuvem em nó;

Que a lua invisível trace

Sua luz na neve a voar só;

Turvo é o céu, noite a turvar-se;

Sem força para giros amplos

O sinozinho sons não faz;

Cansou a égua… “O que há no campo?”

Seriam cepos ou chacais?”

Nevasca má, nevasca em ais;

Com atenção cada égua bufa;

E ele a galope longe vai;

Na treva, aceso, um olho estufa;

Todas as éguas dispararam

O sinozinho din din din…

Entre a planície alva juntaram-se

Tantos espíritos, eu os vi.

Sem ter final, sem traços claros,

No turvo jogo do luar,

Giravam-se demônios vários

Como um novembro a farfalhar

Quantos serão? Para onde erram?

Cantam por que com tal lamento?

Será que um domovói² enterram,

E uma bruxa dão em casamento?

Nuvem veloz, nuvem em nó;

Que a lua invisível trace

Sua luz na neve a voar só;

Turvo é o céu, noite a turvar-se;

Velozes saem bando após bando

Na mais soberba imensidão

Com guinchos vão se embora uivando

A me rasgar o coração

Notas

¹ Antiga unidade  de medida, que vale aproximadamente 1.067 metros.

² Espírito guardião da casa, segundo folclore.