Poema “Demônios”, de Aleksandr Púchkin, em tradução direta do russo por Astier Basílio
13 junho 2026 às 21h00

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Poema do pai da literatura russa moderna figura como epígrafe em romance de Dostoiévski
Astier Basílio
O poeta russo Aleksandr Púchkin (1799-1837 — viveu 37 anos) nasceu há 226 anos — em 6 de junho de 1837 (morreu em decorrência de um duelo com um militar francês). Em honra ao autor do romance em versos “Evguiêni Oniéguin” criou-se o feriado em homenagem à língua russa.
Compartilho uma tradução de minha autoria de um poema de Púchkin. Aqui, o texto que é citado como epígrafe em um dos romances de Fiódor Dostoiévski.
Demônios
Nuvem veloz, nuvem em nó;
Que a lua invisível trace
Sua luz na neve a voar só;
Turvo é o céu, noite a turvar-se;
Sigo no coche, aberto o campo,
O sinozinho din din din…
O horrível, um horrível amplo,
Planície estranha se abre a mim
“Toca, cocheiro” – “a força enrasca:
Coche, o senhor, tudo me é árduo;
Cega os meus olhos a nevasca;
Está o caminho interditado;
Mata-se alguém, nada aparece;
O que fazer? Erramos tanto.
Demônios guiam-nos, parece,
E tudo gira em todo canto
Olha ele lá: brincando, urra,
Seu cuspe em minha cara pega;
Para um barranco agora empurra
Asselvajada a nossa égua;
Como verstá¹ que se extravasa
Em frente a mim aparecia:
Riscou numa faísca rasa,
Sumiu na escuridão vazia”.
Nuvem veloz, nuvem em nó;
Que a lua invisível trace
Sua luz na neve a voar só;
Turvo é o céu, noite a turvar-se;
Sem força para giros amplos
O sinozinho sons não faz;
Cansou a égua… “O que há no campo?”
Seriam cepos ou chacais?”
Nevasca má, nevasca em ais;
Com atenção cada égua bufa;
E ele a galope longe vai;
Na treva, aceso, um olho estufa;
Todas as éguas dispararam
O sinozinho din din din…
Entre a planície alva juntaram-se
Tantos espíritos, eu os vi.
Sem ter final, sem traços claros,
No turvo jogo do luar,
Giravam-se demônios vários
Como um novembro a farfalhar
Quantos serão? Para onde erram?
Cantam por que com tal lamento?
Será que um domovói² enterram,
E uma bruxa dão em casamento?
Nuvem veloz, nuvem em nó;
Que a lua invisível trace
Sua luz na neve a voar só;
Turvo é o céu, noite a turvar-se;
Velozes saem bando após bando
Na mais soberba imensidão
Com guinchos vão se embora uivando
A me rasgar o coração
Notas
¹ Antiga unidade de medida, que vale aproximadamente 1.067 metros.
² Espírito guardião da casa, segundo folclore.



