Fernando Cupertino

Especial para o Jornal Opção

Na segunda metade do século XVIII, quando a mineração ainda sustentava a prosperidade da Capitania de Goiás e fazia convergir para seus sertões aventureiros, comerciantes, funcionários régios, religiosos e homens em busca de fortuna, a antiga Villa Bôa de Goyaz vivia um dos momentos mais intensos de sua história. Situada entre colinas suaves e cortada pelas águas do Rio Vermelho, a pequena capital apresentava ao viajante uma aparência ao mesmo tempo modesta e imponente: modesta pela simplicidade de suas construções de taipa e adobe, quase todas cobertas por telhas de barro e caiadas de branco; imponente porque, apesar do isolamento em relação ao litoral e aos grandes centros da colônia, concentrava o poder político, econômico e religioso de uma vasta região do interior da América portuguesa.

Ao romper da aurora, quando a névoa ainda pairava sobre os vales e os primeiros raios de sol douravam os campanários das igrejas, os sinos chamavam os fiéis para a missa matinal e marcavam o início de mais uma jornada de trabalho. Das cozinhas escapavam aromas de café torrado, mingaus de milho e broas recém-saídas dos fornos de barro; das estreitas ruas de terra surgiam escravos carregando ferramentas, gamelas e bateias, enquanto tropeiros vindos de distâncias quase inimagináveis conduziam longas fileiras de mulas carregadas de tecidos, vinho, sal, ferramentas, pólvora e notícias que haviam levado meses para atravessar montanhas, rios e sertões.

Era uma sociedade rigidamente hierarquizada, em que cada indivíduo parecia ocupar um lugar previamente determinado pela fortuna, pela cor da pele, pelo nascimento ou pela condição jurídica. Os grandes proprietários de lavras auríferas e os contratadores ligados à administração colonial exibiam suas riquezas em joias, móveis importados e vestimentas refinadas; os comerciantes enriquecidos procuravam imitar os hábitos da nobreza portuguesa; os artesãos e pequenos proprietários lutavam para manter uma posição respeitável; e, na base dessa complexa estrutura social, encontrava-se a imensa população escravizada, cujo trabalho sustentava a economia da capitania e permitia que os demais grupos desfrutassem dos benefícios da riqueza produzida pelas minas.

Foi nesse ambiente que vivia Antônio de Almeida, filho de um comerciante português estabelecido em Vila Boa desde os primeiros tempos da ocupação da região. Embora tivesse recebido alguma instrução e pudesse ter seguido a profissão paterna, Antônio alimentava a ambição que consumia tantos homens de sua geração: a esperança de descobrir uma lavra excepcional, enriquecer rapidamente e conquistar uma posição que lhe permitisse transitar entre as famílias mais influentes da capitania. Os relatos de fortunas construídas em poucos meses circulavam constantemente pelas tavernas, pelas praças e pelos salões das casas mais abastadas, alimentando sonhos que quase nunca se realizavam, mas que eram suficientemente sedutores para levar inúmeros homens a desafiar os perigos dos sertões.

A rotina dos garimpos começava cedo e terminava tarde. Durante horas seguidas, trabalhadores permaneciam dentro dos córregos, lavando cascalho e areia em busca das pequenas partículas douradas que justificavam todos os sacrifícios. O trabalho era repetitivo, cansativo e frequentemente frustrante, mas bastava o aparecimento de algumas pepitas para reacender o entusiasmo geral. Em torno das minas desenvolvia-se um universo próprio, marcado por disputas, alianças temporárias, promessas de enriquecimento e constantes tentativas de escapar à fiscalização da Coroa, cuja cobrança do quinto do ouro era motivo permanente de tensão.

A vida urbana, entretanto, não girava exclusivamente em torno da mineração. As festividades religiosas desempenhavam papel central na organização da sociedade e constituíam momentos privilegiados de sociabilidade. Procissões, novenas, festas de padroeiros e celebrações das irmandades reuniam indivíduos de diferentes condições sociais em torno de rituais que misturavam devoção, exibição pública de prestígio e oportunidades de encontro. Durante a Semana Santa, por exemplo, as ruas eram cuidadosamente preparadas para a passagem das procissões; moradores enfeitavam fachadas, construíam pequenos altares e espalhavam flores pelo caminho percorrido pelas imagens sacras. À noite, centenas de velas iluminavam a cidade, criando um cenário que parecia transportar os habitantes para uma realidade distinta daquela marcada pelas preocupações cotidianas.

Foi justamente durante uma dessas solenidades religiosas que Antônio viu Isabel Furtado pela primeira vez.

Filha de Domingos Furtado, um dos homens mais ricos da capitania, Isabel havia sido educada segundo os padrões reservados às famílias de maior prestígio. Sabia ler e escrever com elegância, tocava cravo, conhecia as principais orações em latim e mantinha correspondência com parentes residentes em Portugal. Em uma sociedade na qual a instrução feminina costumava ser limitada, tais qualidades contribuíam para torná-la ainda mais admirada. Sua beleza, frequentemente comentada nas reuniões sociais, era realçada por uma postura serena e por uma inteligência que contrastava com a superficialidade de muitas jovens da mesma condição.

Na procissão de Corpus Christi, enquanto os fiéis acompanhavam a passagem do Santíssimo Sacramento sob um pálio ornamentado e os sinos repicavam festivamente, os olhares de Antônio e Isabel se cruzaram por alguns instantes. O episódio, aparentemente insignificante para qualquer observador externo, marcou o início de uma relação que se desenvolveria lentamente, alimentada por encontros breves, conversas discretas e uma sucessão de pequenos gestos que precisavam permanecer ocultos dos olhos atentos da sociedade local.

Em Villa Bôa, como em tantas outras cidades coloniais, os casamentos raramente eram determinados apenas pelos sentimentos dos envolvidos. Considerações econômicas, alianças familiares e interesses patrimoniais pesavam muito mais do que as inclinações afetivas dos futuros cônjuges. Por essa razão, Isabel já estava prometida a Jerônimo Teles, capitão de ordenanças e proprietário de importantes lavras auríferas, cuja fortuna parecia assegurar um futuro vantajoso para qualquer família que com ele se associasse.

Jerônimo era um homem acostumado ao mando. Alto, vigoroso e de temperamento impulsivo, construíra sua reputação tanto pela coragem demonstrada em expedições pelo interior quanto pela severidade com que tratava subordinados e adversários. Embora respeitado por muitos, era também temido, e poucos se atreviam a contrariar suas vontades.

Durante meses, Antônio e Isabel mantiveram uma relação discreta, sustentada por bilhetes trocados por intermédio de pessoas de confiança e por encontros ocasionais em ambientes onde a presença de terceiros dificultava suspeitas. A cada novo contato, contudo, tornava-se mais evidente que o simples afeto juvenil havia se transformado em algo mais profundo e perigoso.

O inevitável ocorreu durante as festividades de Nossa Senhora do Rosário.

A cidade encontrava-se particularmente animada naquela ocasião. Barracas haviam sido instaladas ao longo das ruas principais; vendedores ofereciam doces de frutas cristalizadas, queijos, aguardente e quitandas; músicos tocavam modinhas e danças populares; e grupos de moradores circulavam entre as celebrações religiosas e os divertimentos profanos que inevitavelmente as acompanhavam.

Ao perceber uma conversa entre Antônio e Isabel em um trecho menos movimentado da festa, Jerônimo foi dominado por um sentimento de humilhação que rapidamente se converteu em fúria. Aproximou-se dos dois sem disfarçar a irritação e, diante de dezenas de testemunhas, lançou acusações que colocavam em dúvida a honra do rival. As palavras logo deram lugar aos empurrões, e os empurrões evoluíram para uma luta violenta que derrubou mesas, espalhou garrafas pelo chão e interrompeu a música. Somente a intervenção de vários homens conseguiu evitar consequências ainda mais graves, mas a ameaça pronunciada por Jerônimo antes de se afastar deixou claro que aquele conflito estava longe de terminar.

Nos meses seguintes, temendo que a rivalidade culminasse em tragédia, Antônio decidiu partir para uma região distante da capitania, lá pelas bandas do norte, onde se falava da descoberta de novas jazidas auríferas. A viagem revelou-se tão difícil quanto as narrativas dos sertanistas faziam supor. Estradas praticamente inexistentes, rios perigosos, doenças tropicais e a constante possibilidade de ataques por criminosos transformavam cada jornada em um teste de resistência física e psicológica.

Enquanto isso, em Villa Bôa, Isabel procurava manter a esperança sem desafiar abertamente as convenções sociais. Participava das missas, das novenas e das atividades familiares, mas seu comportamento reservado denunciava uma tristeza que nem mesmo os cuidados da mãe conseguiam disfarçar. O tempo passava lentamente, e as notícias provenientes das regiões mineradoras eram escassas e incertas.

Paradoxalmente, foi a própria instabilidade da economia aurífera que alterou o destino dos personagens. À medida que algumas lavras se esgotavam e a produção diminuía, muitos homens que pareciam invulneráveis começaram a enfrentar dificuldades financeiras. Entre eles estava Jerônimo Teles. Acostumado à abundância dos anos anteriores, viu suas receitas diminuírem enquanto as dívidas aumentavam, até que parte de suas propriedades precisou ser vendida para satisfazer credores cada vez mais impacientes.

Quando Antônio regressou a Vila Boa, quase um ano depois de sua partida, a situação era completamente diferente. Além de trazer consigo recursos provenientes de uma exploração bem-sucedida, retornava com uma maturidade adquirida pelas dificuldades enfrentadas nos sertões. Já não era o jovem impulsivo que havia deixado a cidade; transformara-se em um homem capaz de sustentar uma família e administrar seus próprios negócios.

Domingos Furtado, observador atento das mudanças econômicas e sociais ao seu redor, compreendeu rapidamente que a antiga aliança com Jerônimo perdera boa parte de sua utilidade. Pouco a pouco, a resistência ao relacionamento entre Antônio e Isabel foi desaparecendo, até que finalmente o casamento recebeu sua aprovação.

A cerimônia, realizada na igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, funcionando como matriz de Villa Bôa, tornou-se um dos acontecimentos mais comentados daquele ano. Após a celebração religiosa, os convidados participaram de um banquete em que não faltaram carnes assadas, aves, arroz, doces elaborados e vinhos cuidadosamente preservados para ocasiões especiais. Músicos animaram a festa até altas horas da noite, enquanto famílias inteiras comentavam os acontecimentos recentes e especulavam sobre o futuro dos recém-casados.

Quando os últimos convidados partiram e a cidade mergulhou no silêncio, interrompido apenas pelo murmúrio das águas do Rio Vermelho e pelo som distante dos insetos do cerrado, Antônio e Isabel contemplaram as luzes que ainda brilhavam em algumas janelas. À sua frente estendia-se um futuro incerto, como incerta era a própria sorte da mineração goiana. Contudo, naquele instante, compreenderam que haviam sobrevivido não apenas às convenções sociais de seu tempo, mas também à violência, à ambição e às transformações que constantemente moldavam a vida na fronteira colonial.

E por muitos anos, enquanto o ouro se tornava cada vez mais raro e a antiga riqueza da capitania começava lentamente a declinar, os habitantes de Villa Bôa continuaram a recordar a história daqueles dois jovens, cuja paixão atravessara um mundo em que quase tudo — a fortuna, o poder e o prestígio — podia desaparecer tão rapidamente quanto o brilho fugaz de uma pepita de ouro encontrada nas águas do rio.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.