Fernando Cupertino

Especial para o Jornal Opção

No ano de 1745, quando as minas de Goiás ainda conservavam algo da rudeza e do assombro dos primeiros descobrimentos, Vila Boa erguia-se lentamente entre os morros do sertão, como uma cidade que procurasse nascer da própria terra vermelha que a sustentava. As águas do Rio Vermelho deslizavam entre as casas de taipa e adobe, refletindo os telhados irregulares que se multiplicavam ao sabor da fortuna das lavras. Por toda parte ressoavam os ruídos do trabalho: o bater dos martelos dos ferreiros, o ranger dos carros de boi, o murmúrio incessante das bateias revolvendo a areia dos córregos em busca do ouro que atraíra milhares de homens para aquelas paragens remotas.

Entretanto, à medida que crescia a riqueza, cresciam também as inquietações do espírito. Os mesmos homens que passavam os dias perseguindo o metal precioso experimentavam, nas horas de recolhimento, a fragilidade da existência humana. A morte surgia frequentemente sob a forma de enfermidades, acidentes ou violências repentinas. As fortunas faziam-se e desfaziam-se com espantosa rapidez. A prosperidade parecia tão fugidia quanto os reflexos dourados que cintilavam nas águas dos ribeirões.

Foi nesse ambiente que nasceu a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, sob a orientação do vigário da vara, Padre João Perestelo. Algum tempo depois de sua instituição, reunidos numa dependência da Matriz de Sant’Ana, à luz de velas cuja chama oscilava ao sabor das correntes de ar que penetravam pelas frestas da construção, os homens da confraria deliberaram sobre a necessidade de enriquecer a vida religiosa da vila com uma imagem que despertasse nos fiéis a meditação sobre os sofrimentos de Cristo. Não desejavam um Cristo glorioso e triunfante, coroado pela vitória da Ressurreição, mas aquele que avançava penosamente rumo ao Calvário, vergado sob o peso da cruz e da condição humana.

A decisão foi tomada em comum acordo, e logo se providenciou uma carta destinada à cidade do Salvador da Bahia, capital do Estado do Brasil e centro artístico de toda a colônia. A missiva, cuidadosamente redigida, seguia acompanhada dos recursos necessários à encomenda e continha instruções precisas acerca da obra pretendida. Os irmãos desejavam uma imagem de grande porte, esculpida por mãos experimentadas, cujo semblante fosse capaz de transmitir simultaneamente sofrimento, resignação e misericórdia.

Meses depois, após atravessar caminhos difíceis e percorrer as rotas que ligavam o litoral aos sertões do interior, a encomenda chegou ao seu destino.

Numa oficina situada nas proximidades das igrejas e conventos da velha cidade da Bahia, um mestre imaginário recebeu a tarefa com a seriedade que o trabalho exigia. Escolheu cuidadosamente a madeira de cedro, examinando-lhe os veios e a resistência. Durante semanas, sob o som compassado dos formões, a matéria bruta foi cedendo lugar à figura sagrada. Aos poucos surgiram o contorno do rosto, os cabelos caídos sobre os ombros, as mãos marcadas pela fadiga, os pés descalços e a postura inclinada daquele que carrega o peso da cruz.

Quando o entalhe ficou concluído, iniciou-se o trabalho da policromia. Sobre a madeira prepararam-se sucessivas camadas de tinta e verniz, até que a escultura adquirisse uma aparência quase humana. Os olhos de vidro, vindos da Europa, foram colocados por último. E contam que, ao terminar a obra, alguns dos próprios artífices permaneceram em silêncio diante dela, impressionados pela intensidade do olhar que parecia acompanhar quem quer que se colocasse diante da imagem.

A notícia da conclusão da encomenda foi recebida com alegria em Vila Boa. Contudo, entre a oficina baiana e o sertão goiano estendiam-se centenas de léguas de caminhos difíceis, atravessando rios caudalosos, serras abruptas, campos intermináveis e regiões onde a presença humana era rara.

Preparou-se então a grande viagem.

A imagem foi cuidadosamente envolvida em tecidos, couro e camadas de palha seca. Em seguida, colocaram-na numa sólida caixa de madeira reforçada por ferragens. A carga exigia atenção permanente, pois qualquer acidente poderia comprometer uma obra que representava anos de expectativa e devoção.

A expedição partiu de Salvador em meio ao movimento incessante da cidade portuária. Enquanto os sinos das igrejas repicavam sobre a baía, a caixa contendo o Senhor dos Passos iniciava uma jornada que poucos poderiam imaginar.

Senhor Bom Jesus dos Passos Foto de Fernando Cupertino transformada por IA

Os primeiros trechos da viagem transcorreram sob o calor intenso do interior baiano. As estradas, quando existiam, eram apenas trilhas abertas pela passagem contínua de tropeiros, boiadas e viajantes. Durante o dia, a poeira levantada pelos animais envolvia a comitiva numa névoa avermelhada; durante a noite, o silêncio do sertão era interrompido apenas pelo crepitar das fogueiras e pelos sons distantes da natureza.

Entre os integrantes da expedição encontravam-se tropeiros experientes, homens armados para a defesa contra eventuais ataques e diversos escravos encarregados das tarefas mais pesadas. Em muitos trechos, especialmente onde o terreno se tornava íngreme ou pedregoso, a caixa precisava ser retirada dos lombos dos animais e conduzida diretamente nos ombros daqueles homens negros, arrancados de África e submetidos à dureza do cativeiro.

Sob o peso da carga e das correntes invisíveis de sua condição, avançavam lentamente pelos caminhos do interior. Alguns haviam aprendido as orações católicas; outros misturavam às devoções cristãs lembranças remotas das crenças trazidas de além-mar. Mas todos, de algum modo, passaram a desenvolver respeito pela imagem que transportavam. Antes de iniciar certas jornadas, não eram poucos os que tocavam discretamente a madeira da caixa e murmuravam preces em voz baixa.

Depois de semanas de marcha, a expedição alcançou Paracatu.

A povoação, enriquecida pelas minas, fervilhava de atividade. As notícias espalharam-se rapidamente, e logo uma multidão se reuniu para contemplar a preciosa carga. Houve quem pedisse licença para rezar diante da caixa fechada; houve quem deixasse pequenas ofertas ou formulasse promessas ao Cristo que ainda permanecia oculto.

De Paracatu, a jornada prosseguiu em direção a Santa Luzia. As paisagens modificavam-se gradualmente. As vastidões do sertão alternavam-se com campos ondulados, matas esparsas e serras azuladas que pareciam recortar o horizonte. O caminho tornava-se cada vez mais difícil à medida que a expedição penetrava no coração da Capitania de Goiás.

Em Santa Luzia, os viajantes encontraram repouso temporário. Os animais foram tratados, os arreios reparados e as provisões renovadas. Durante vários dias, a presença da imagem dominou as conversas da localidade. À noite, diante das casas iluminadas por lamparinas, comentava-se a beleza da escultura e a devoção que ela certamente despertaria entre os habitantes de Vila Boa.

Retomada a viagem, vieram as passagens por Jaraguá e pelas regiões mineradoras que floresciam em torno das novas descobertas auríferas. As encostas apareciam marcadas pelas escavações das lavras; os córregos eram desviados por engenhos improvisados; homens cobertos de lama trabalhavam incessantemente em busca do ouro. Ainda assim, quando a notícia da passagem do Senhor dos Passos chegava a uma povoação, interrompiam-se os afazeres e formavam-se espontaneamente pequenas procissões para acompanhar a comitiva.

Em Meia-Ponte, a recepção assumiu caráter particularmente solene. Os sinos repicaram durante horas, celebraram-se ofícios religiosos e muitos moradores acompanharam os viajantes por parte do trajeto seguinte. A imagem, ainda encerrada em sua caixa, já parecia irradiar uma presença que mobilizava a imaginação e a fé das populações do sertão.

Finalmente, após meses de caminhada, a comitiva alcançou as últimas elevações que dominavam o vale do Rio Vermelho.

Era uma manhã luminosa. Ao longe avistavam-se as casas brancas de Vila Boa espalhadas pelas encostas, as torres das igrejas elevando-se acima dos telhados e o rio serpenteando silenciosamente pelo fundo do vale. A notícia da chegada já havia alcançado a cidade dias antes, de modo que uma multidão aguardava os viajantes.

Os membros da Irmandade vestiam suas opas cerimoniais. As autoridades civis e militares encontravam-se reunidas. O clero preparara cruzes processionais, turíbulos e estandartes. Homens livres, escravos, mulheres e crianças comprimiam-se ao longo das ruas, ansiosos por testemunhar um acontecimento que rapidamente ingressaria na memória coletiva da comunidade.

Quando a caixa foi aberta diante do povo, instalou-se um silêncio tão profundo que parecia possível ouvir apenas o movimento das águas do Rio Vermelho.

Então surgiu a imagem. O Senhor Bom Jesus dos Passos apareceu aos olhos dos presentes com a cabeça levemente inclinada, os cabelos caindo sobre os ombros e uma expressão de sofrimento sereno que tocou imediatamente os corações. Muitos se ajoelharam. Outros choraram abertamente. Até homens acostumados às asperezas da vida sertaneja baixaram os olhos em reverente emoção.

A procissão iniciou-se ao som dos sinos da Matriz de Sant’Ana. À frente seguia a cruz processional; atrás vinham os irmãos da confraria portando círios acesos. O aroma do incenso espalhava-se lentamente pelo ar, misturando-se ao perfume das flores lançadas das janelas. Das sacadas pendiam colchas de damasco e tecidos preciosos reservados para as grandes festividades religiosas.

À medida que o cortejo avançava pelas ruas da vila, as ladainhas ecoavam entre os morros e pareciam envolver toda a paisagem numa atmosfera de recolhimento e solenidade.

Ao chegar à Matriz de Sant’Ana, a imagem foi recebida pelo vigário sob um pálio ornamentado. Celebrou-se missa solene de ação de graças, acompanhada por cânticos, orações e um longo sermão sobre os sofrimentos de Cristo e a vaidade das riquezas terrenas.

Somente ao final das cerimônias ocorreu o momento mais aguardado. Entre nuvens de incenso e sob a luz dourada de centenas de velas, o Senhor Bom Jesus dos Passos foi conduzido ao altar lateral esquerdo da Matriz de Vila Boa de Goiás, preparado especialmente para acolher a nova devoção. Quando a imagem tomou seu lugar definitivo, uma emoção profunda percorreu o templo. Muitos fiéis permaneceram ajoelhados durante longo tempo; outros contemplavam em silêncio aquele Cristo peregrino que atravessara rios, montanhas e sertões para encontrar morada na capital das minas goianas.

Naquela noite, a igreja permaneceu aberta até altas horas. As chamas das velas refletiam-se nos douramentos dos altares, enquanto o olhar sereno do Senhor dos Passos parecia repousar sobre toda a cidade. E, à medida que o silêncio envolvia novamente o vale do Rio Vermelho, iniciava-se uma história de devoção que atravessaria gerações, tornando a imagem não apenas um objeto de culto, mas parte inseparável da própria alma de Vila Boa de Goiás.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.