Forma, conteúdo e blasfêmia: entenda por que Joe Fosse e László Krasznahorkai não me empolgaram
20 junho 2026 às 21h00

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Vitor Tavares
Li recentemente dois dos últimos ganhadores do Prêmio Nobel, e suspeito que os literatos implicantes com a atual literatura “conteudista” estejam satisfeitos com as escolhas da academia. Mas questiono a apuração de minhas inclinações.

Em “Manhã e Noite” (Zain, 152 páginas, tradução de Leonardo Pinto Silva), o escritor norueguês Jon Fosse lapida à perfeição uma breve novela que, no entanto, não me deixou com impressão diferente da canção “Conversa de Botas Batidas”, e forma por forma, prefiro a música.
Em “Sátántangó” (Companhia das Letras, 232 páginas, o escritor húngaro László Krasznahorkai constrói uma “fotografia”’ realmente impressionante, mas se trata de uma vertiginosa narrativa que não me levou além do sentimento de arrasamento do espírito humano que o documentário “O Mercador (Sovdagari)” e este, novamente, superando-o em efeito.

Vale notar, ambos propõem uma dimensão transcendental/religiosa, talvez justamente habilitadora de suas leituras mais ricas (?), para a qual eu (talvez) seja particularmente insensível (nessa forma).
Ótimos livros com belíssimas imagens, porém senti como se errasse o alvo, como leitor, em que o valor (maior) da literatura sempre foi encontrar uma nova experiência humana, uma provocação, uma idiossincrasia que seja, de uma consciência que eu jamais acessara. Algo que, como leitor, cujas engrenagens da imaginação nunca requereram poderosos aparatos formais para engatar, quase sempre encontrei em todas as leituras.

Logo, talvez tenha de repensar minhas (não) opiniões sobre autoficção também.
Claro, pode ter sido apenas o excesso de expectativa.
Vitor Tavares é escritor.



