Vitor Tavares

Li recentemente dois dos últimos ganhadores do Prêmio Nobel, e suspeito que os literatos implicantes com a atual literatura “conteudista” estejam satisfeitos com as escolhas da academia. Mas questiono a apuração de minhas inclinações.

Jon Fosse: escritor norueguês, Nobel de Literatura | Foto: Reprodução

Em “Manhã e Noite” (Zain, 152 páginas, tradução de Leonardo Pinto Silva), o escritor norueguês Jon Fosse lapida à perfeição uma breve novela que, no entanto, não me deixou com impressão diferente da canção “Conversa de Botas Batidas”, e forma por forma, prefiro a música.

Em “Sátántangó” (Companhia das Letras, 232 páginas, o escritor húngaro László Krasznahorkai constrói uma “fotografia”’ realmente impressionante, mas se trata de uma vertiginosa narrativa que não me levou além do sentimento de arrasamento do espírito humano que o documentário “O Mercador (Sovdagari)” e este, novamente, superando-o em efeito.

Jon Fosse capa de Manhã e Noite 1

Vale notar, ambos propõem uma dimensão transcendental/religiosa, talvez justamente habilitadora de suas leituras mais ricas (?), para a qual eu (talvez) seja particularmente insensível (nessa forma).

Ótimos livros com belíssimas imagens, porém senti como se errasse o alvo, como leitor, em que o valor (maior) da literatura sempre foi encontrar uma nova experiência humana, uma provocação, uma idiossincrasia que seja, de uma consciência que eu jamais acessara. Algo que, como leitor, cujas engrenagens da imaginação nunca requereram poderosos aparatos formais para engatar, quase sempre encontrei em todas as leituras.

Sátántangó capa

Logo, talvez tenha de repensar minhas (não) opiniões sobre autoficção também.

Claro, pode ter sido apenas o excesso de expectativa.

Vitor Tavares é escritor.