Edival Lourenço

Falar sobre o Cerrado neste quarto de século não é fazer uma descrição de bioma o do ecossistema para compor folhetos turísticos. É, antes de tudo, assinar um laudo pericial de um crime em andamento. O título que nos reúne hoje, “O Horizonte em Chamas: Entre a Utopia do Lugar e a Distopia do Supérfluo”, não carrega o adorno fútil da metáfora lírica. Ele é literal. Trata-se do clarão de um incêndio metabólico que consome cobertura vegetal, nossa superfície hídrica, esburaca nosso solo e subsolo e, por via de consequência, opera a mais dramática ruína da nossa integridade espiritual. Estamos imprensados entre a Utopia do Lugar, que é o direito à permanência, ao pertencimento e à simbiose com o chão nativo, e a Distopia do Supérfluo, essa engrenagem voraz que converte o essencial da vida em quinquilharias descartáveis, mas que despertam desejos compulsivos.

Em busca de compreendermos um pouco o andamento dessa ruína, faz-se necessário recuar os ponteiros do relógio histórico e convocar os fantasmas do pensamento crítico. Quando Karl Marx e Friedrich Engels vaticinaram no século XIX que, sob o tropel do capitalismo industrial, “tudo o que é sólido desmancha no ar”, eles operavam sob a lógica de uma física social que possuía, ao menos, um vetor de chegada. Naquela modernidade pesada, o desmanche das velhas estruturas feudais, das tradições agrárias e das corporações de ofício, também conhecidas como guildas, tinha um propósito sistêmico: realocar a sociedade em outro patamar de produção. Destruía-se o velho para edificar o novo; uma solidez fabril, mecânica, urbana, mas que mantinha o homem ancorado em uma classe, em um território e em um horizonte previsível de progresso, por mais contraditório que fosse no tocante ao acesso à distribuição das riquezas.

O drama do nosso tempo, contudo, é que a física mudou de estado. Ao ingressarmos no território que Zygmunt Bauman classificou como Modernidade Líquida, a fórmula do desmanche sofreu uma mutação perversa. Hoje, tudo o que é sólido continua desmanchando no ar, no entanto, não existe mais o segundo ato da realocação. O esboroamento social tornou-se perpétuo. As instituições derretem, os vínculos humanos liquefazem-se na velocidade de um clique e o espaço geográfico é açambarcado pela volatilidade dos fluxos financeiros. O homem contemporâneo não é mais o operário realocado em uma nova estrutura; ele é o caminhante desorientado de uma esteira rolante que flutua sobre o abismo, desfazendo-se em farelos de si mesmo enquanto consome narrativas emuladas nas telas digitais. É a entropia social elevada à categoria de dogma econômico.

Esse desmanche perpétuo ganha a sua expressão mais trágica no chão do Brasil Central. O Cerrado é muito mais do que a pátria do homem do Centro-Oeste, onde passeiam a seriema e o lobo-guará, além de mais de 300 mil espécies de animais, grande parte sofrendo risco de extinção. O Cerrado é o suporte biológico e a “Caixa d’Água” da maior parte da América do Sul. As raízes profundas de sua vegetação originária, rasteira e torta, lançam gotículas da chuva nos lençóis freático e artesiano, para alimentar as bacias hidrográficas do Prata, do Araguaia/Tocantins, do Amazonas, do Paraná, do Pantanal, do São Francisco, dentre outras, além dos aquíferos Guarani, Urucuia e o Bambuí, formando uma esponja extraordinária que garante o equilíbrio climático e o abastecimento hídrico de uma vastíssima região. Componentes essenciais para uma vida salutar e salubre.

Entretanto, nos últimos cinquenta anos, essa esponja vem sendo sistematicamente espremida e calcinada pela aliança espúria entre a monocultura da soja e a invasão do capim braquiária. Onde a natureza exercia o seu laboratório de formas tortas e milagres botânicos, o trator do capital desenhou linhas retas, mudas e monótonas. O resultado é o enfarte crônico das nossas nascentes. Destrói-se o berço das águas para alimentar o excedente que viaja em navios cargueiros.

E se a superfície já se encontra rasurada, ou assoreada, o subsolo agora se tornou o tabuleiro de um xadrez geopolítico assustador. A urgência norte-americana pela aquisição de Terras Raras, minerais indispensáveis para a transição energética, para a inteligência artificial, para os chips de última geração e para as fantasias de extrema acumulação de riqueza das Big Techs, lançou uma sombra sobre nossos horizontes. Sob a égide do governo de Donald Trump, desenha-se um cenário de pressões e ameaças que ultrapassa, em muito, o limite da diplomacia comercial. O império do Norte cria, a olhos vistos, as pré-condições macroeconômicas e retóricas para uma negociação leonina, desfavorável ao Brasil, ou, na pior das hipóteses, para uma intervenção cirúrgica e brutal, como é do feitio ianque. É a ameaça de um novo esquema colonial, tendo por base as matérias primas da transição energética, que nos deixaria como herança apenas a ruína ambiental e a desmoralização definitiva como nação soberana, sempre emergente, sem jamais, no entanto, emergir por completo. Querem o nosso subsolo para manter o mundo deles “higienizado” e conectado, enquanto nos condenam à tetraplegia ecológica.

Aqui tocamos no nervo exposto da nossa “ruína humana”. Operamos uma transação que faria o mais simplório dos pescadores da Bacia do Araguaia/Tocantins rir de escárnio: estamos trocando o meio ambiente saudável, que é a base biológica insubstituível para a manutenção da vida, pelo supérfluo gourmetizado. O homem da Modernidade Líquida, esse “sommelier do trivial”, aceita a morte da nascente se o mercado lhe oferecer em troca o brilho efêmero de uma bijuteria com design sofisticado, o ronco de um carro esportivo, o passaporte para festas dionisíacas, baladas barulhentas e uma infinidade de quinquilharias digitais.

Mudamos o conceito de consumo para “ter uma experiência”, mas a única experiência real que nos resta é a da perda do centro. O capitalismo do século XXI esbulhou o espírito original do homem, substituindo o sentido da existência pela performance da aparência. O corpo tonificado pelo Whey protein na academia tornou-se o único patrimônio de uma geração que desistiu de possuir o próprio chão, enquanto o “pendrive de fumaça” do vape aromatizado mascara a ansiedade crônica de quem sabe que o futuro está derretendo. Tornamo-nos ricos em dados e miseráveis em sabedoria, trancados em nossos fones de ouvido para não escutar o clamor da terra que desaba ao redor.

Diante dessa conjuntura sociocultural agônica, qual deve ser, afinal, o posicionamento da Literatura? Ela não pode, sob pena de covardia estética, se recolher ao papel de ornamento de sala de visitas ou de passatempo para fins de semana higienizados. A literatura deve se posicionar como a trincheira, o arquivo da resistência e a testemunha de acusação.

Esse cenário de exclusão territorial evoca o pensamento de José Saramago sobre a ocupação da terra. Para o autor, a apropriação se resume à famosa premissa de que, quando alguém diz “isso aqui é meu”, coloca imediatamente a polícia para guardar o que é seu. Seja nas planícies áridas do sul de Portugal, como no Alentejo, onde ambientou a sua obra-prima Levantado do Chão, ou nos extensos campos brasileiros, onde o latifúndio é visto por ele como uma estrutura de opressão, uma continuidade das capitanias hereditárias, das sesmarias e dos latifúndios. Ele criticava como essas grandes extensões deixavam multidões à margem da sobrevivência, enquanto a terra, muitas vezes, era usada apenas para especulação ou monoculturas de exportação.

Quando o arado da soja apaga a vereda e o trator a mando das das big techs rasga a rocha em busca do minério cobiçado, o escritor deve assumir uma função voluntária, de fiscalizador, registrando e denunciando, abrindo os olhos do leitor sobre aquilo que o progresso tenta apagar. Esse trabalho, com a resistência possível, vem sendo feito exemplarmente, pelos escritores mais telúricos, desde Hugo de Carvalho Ramos, passando por Eli Brasiliense, Carmo Bernardes, Bernardo Elis e José J. Veiga e, segundo o crítico e escritor paranaense, Miguel Sanches Neto, minha obra romanesca se filia a e dá continuidade a essa linha. Minha literatura tem um pano de fundo ou até mesmo uma trama de frente voltada para as questões socioambientais. Agora mesmo, no meu romance a sair Um Palmo ou Dois Acima do Chão que, inclusive, o professor Eguimar Felício Chaveiro, nosso digníssimo mediado, leu no original, faço uma grave e severa acusação sobre o que ocorreu nos anos 60 e 70 em diante, concomitantemente com a mudança da Capital Federal do Rio de Janeiro para Brasília, com o deslocamento do campesinato para as periferias das cidades, sem preparo, desamparado, em condições precaríssimas, o que ficou conhecido como Êxodo Rural. De alguma forma, a Literatura tem o dever de acender um fósforo na escuridão da mente em vigor.

A literatura é o contra algoritmo por excelência. Ela não busca a eficiência do lucro, mas a densidade da memória. Se a geografia está sendo rasurada pelo arado do colonizador ou explorador local, cabe ao Verbo literário/poético erguer a trincheira espiritual que preserva o “não-tempo” e o “não-lugar” da nossa dignidade. O escritor é aquele que, ao ver a paisagem se esboroar em chuva de poeira sobre o abismo, recusa-se a admirar o arco-íris sinistro da propaganda corporativa. Ele mete a mão na lama da história e diz: Aqui havia vida, aqui havia um povo, aqui havia um Deus que falava pelo murmúrio das cacimbas; talvez um personagem de Guimarães Rosa, sobrevivente até nossos dias, pudesse dizer esta frase, embora não tenha dito.

O horizonte está em chamas e a fumaça já nos arde os olhos. Não há inteligência artificial ou aplicativo de rede social que consiga emular a pureza de uma fonte de água potável ou o sopro de vento limpo sobre o Cerrado. A nossa “Caixa d’Água” não pode ser entregue em leilões coloniais de terras raras para alimentar a ansiedade tecnológica de potências estrangeiras.

O nosso tempo exige o despertar do pesadelo. Precisamos rasurar o roteiro que o roteirista oculto do capital internacional escreveu para nós. Que este colóquio universitário não se encerre no conforto das teses bem arranjadas, mas que sirva como o estopim de uma insubordinação poética e política. Se a física moderna nos condena a desmanchar no ar, que a nossa palavra escrita seja o mineral que se recusa a derreter-se, sustentando o fogo da consciência ecológica até que o dia, finalmente, recupere o seu prumo e a sua verdade. Que nossa consciência se desencante do supérfluo e se apegue, como deve ser, ao essencial.

Edival Lourenço é escritor. Palestra proferida no II Colóquio Geografia & Literatura — Diálogos/UFG.