Entrevista exclusiva: Nilson Jaime vai lançar livro sobre os 50 anos do Jornal Opção
04 julho 2026 às 21h00

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Doutor em Agronomia pela Universidade Federal de Goiás, onde deu aulas, Nilson Jaime, de 64 anos, é um especialista em formigas, tema de seu doutorado. Ele próprio é um tipo de formiguinha atômica. Porque não para de trabalhar. É auditor fiscal no Tocantins e, ao mesmo tempo, escreve e edita livros. É presidente do Instituto Bernardo Élis (Icebe) e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG).
Apesar de trabalhar em várias frentes, como se fosse múltiplos — trezentos e cincoenta, como dizia o escritor Mário de Andrade —, Nilson Jaime mantém a qualidade de seus trabalhos sempre em alta.
Apesar de não apreciar tanto o termo, ao menos para nominá-lo, Nilson Jaime é, de fato, um polímata. Ele sabe muito sobre temas diferentes e complexos. É capaz de sentar-se horas, ao lado de amigos ou do neto, para falar sobre insetos. Sabe tudo, ou quase tudo, sobre formigas e besouros, para citar dois exemplos. Frise-se: não se trata de diletante. Ele pesquisa, estuda com afinco os assuntos sobre os quais discute. É um cidadão da ciência.

Há pouco tempo, editou o conto “A Enxada”, de Bernardo Élis. Trata-se de uma edição primorosa, com notas explicativas que ajudam a compreender a notável história de Piano de maneira mais ampla.
Prepara uma edição anotada do romance “O Tronco”, do mesmo autor. A obra-prima precisa mesmo voltar a circular, sobretudo em edição crítica, que situe o livro na história e na literatura de Goiás e do país. Porque ele trata de um fato histórico recriado por uma literatura poderosa.
Há algum tempo, Nilson Jaime resenhou um livro da jornalista Maju Coutinho, da TV Globo. Apontou erros e ela entrou em contato informando que iria corrigi-los na próxima edição. Nilson Jaime é assim: rigoroso consigo mesmo e com os demais. É um perfeccionista e uma espécie de Google humano.
Mostrando que não brinca em serviço, Nilson Jaime vai lançar o livro “Jornal Opção — Meio Século de Jornalismo” brevemente. Depois de uma pesquisa ampla, ele conclui: o Jornal Opção é o mais importante jornal de Goiás e um dos mais relevantes do país. Porque, além de publicar fatos, a notícia em si, analisa-os com extrema categoria, desdobrando-os. “Talvez seja possível sugerir que o Jornal Opção mostra a ‘alma’ dos fatos, a sua essência, e não apenas a sua aparência. Por isso se tornou o jornal da intelligentsia.”
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AGL e a revista A Informação Goyana
Como é se tornar “imortal” aos 64 anos, quer dizer, membro da Academia Goiana de Letras?
A cadeira 16 tem um significado muito especial. Primeiramente pelo patrono — Henrique Silva (1865-1935). Sempre fui seu admirador. Foi um dos maiores jornalistas e cientistas de Goiás. Participou da Missão Cruls e editou a revista “A Informação Goyana” durante 18 anos ininterruptos, entre 1917 e 1935 (quando morreu), divulgando as potencialidades de Goiás. Não era nada fácil editar uma revista mensal, no Rio de Janeiro, financiada com dinheiro do próprio bolso. Conseguia algum patrocínio e vendia algumas assinaturas.

A revista “A Informação Goyana” foi relevante?
Sim, foi muito importante, um manancial para pesquisadores. A década de 1920 — com o tenentismo, a Coluna Prestes — foi muito turbulenta. Em 1922, em São Paulo, aconteceu a Semana de Arte Moderna. Então, pouco se falava da mudança da capital — ideia que está definida na Constituição desde 1891. Henrique Silva e Americano do Brasil mantiveram a chama acesa. O jornalista publicou cerca de 90 artigos sobre a transferência da capital. Republicou textos de Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), que era do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, que foi criado em 1838.
Quais os textos de Henrique Silva que o sr. destaca?
Todos. A revista de Henrique Silva tinha amplo espectro. Falava de etnografia, orografia, literatura. No primeiro número de a “Informação Goyana” há um texto da poeta Cora Coralina (1889-1985 — viveu 95 anos), “Ipê florido”. Saiu com erros; então, três edições depois, o jornalista republicou-o.
Quando o texto da poeta Cora Coralina foi publicado?
A publicação de Cora Coralina saiu em 1917, quando ela tinha 28 anos. A revista de Henrique Silva mostrava as potencialidades de Goiás, da glotologia, das línguas indígenas, da hidrografia, do relevo. Ele é o patrono de minha cadeira.
Tudo isso antes da mudança da capital.
A revista circulou de 1917 a 1935. O processo da mudança da capital se iniciou em 1933.

Qual foi o primeiro ocupante da cadeira 16?
O fundador, o primeiro ocupante da cadeira, foi Gercino Monteiro Guimarães (1894-1948). Meu conterrâneo, nasceu na Vila de Alemão (Palmeiras de Goiás), era servidor público e jornalista. Na Vila de Alemão, seu pai, Benedito Monteiro Guimarães, e o irmão deste, Honestino Monteiro Guimarães, editaram dois jornais — “Monitor do Sul” e “Verdade”. Honestino era um grande jornalista. Zoroastro Artiaga (1891-1972) foi o primeiro ocupante da cadeira. É o meu patrono no Instituto Histórico Geográfico de Goiás. Em seguida, assumiram a cadeira a historiadora Regina Lacerda e os escritores Lygia de Moura Rassi e Luiz Augusto Paranhos Sampaio (1937-2025). Luiz Augusto fez o discurso de minha recepção no IHGG.
Luiz Augusto Paranhos Sampaio, seu antecessor, é de Catalão.
Sim, é de Catalão. Luiz Augusto Paranhos foi o vereador mais votado em Goiânia em 1962. Por coincidência, o ano em que nasci. Ele faleceu em outubro do ano passado. A ida para a AGL coroa uma trajetória intelectual de muitos anos. Comecei a escrever e editar livros há vários anos. É com satisfação que me integro à Academia, ao lado de tantos escritores importantes. Sou o quinto ocupante da cadeira 16.
Os ocupantes da cadeira 16 deram continuidade, em termos literários, ao primeiro ocupante?
Cada um tem suas especificidades. Henrique Silva era jornalista, historiador e, de alguma maneira, ativista (lutou pela mudança da capital). Zoroastro Artiaga e Regina Lacerda eram pesquisadores gabaritados. Ela escreveu livros sobre a Independência do Brasil e folclore. Luiz Augusto Sampaio era escritor, crítico e também pesquisador. Então, todos, a rigor, foram historiadores. Lygia Rassi é a única poeta. Era também pianista. Luiz Sampaio escreveu poesia, mas não era o centro de seu percurso intelectual.
O que significa fazer parte do grupo de escritores-intelectuais da Academia, como Lêda Selma, Augusta Faro, Maria Augusta Sant’Anna de Moraes, Hélverton Baiano, Aidenor Aires, Getúlio Targino, Luiz de Aquino, Geraldo Coelho Vaz, Iuri Rincon, Itaney Campos, Luiz Cláudio Veiga Braga, Brasigóis Felício, Gabriel Nascente, Ademir Luiz, Carlos Willian Leite, Francisco Itami Campos, Ubirajara Galli, Miguel Jorge, Nash Chaul, Edival Lourenço, Alaor Barbosa, Antônio José de Moura, Jales Mendonça e Irapuan Costa Junior?
A Academia Goiana Letras e a Academia Feminina de Letras e Artes de Goias (Aflag), verdadeiras instituições, são a reserva da língua portuguesa e da literatura em Goiás. Assim como a Academia Brasileira de Letras (ABL) zela pela língua e pela literatura do país. O Instituto Histórico e Geográfico de Goiás — presidido de maneira competente por Jales Mendonça, doutor em História — é a instituição que cuida da historiografia no Estado.
Como é o relacionamento da AGL com a Academia Brasileira de Letras?
As instituições culturais de Goiás, que têm muita relevância e pertinência, são, em termos nacionais, periféricas. O Instituto Histórico e Geográfico de Goiás ficou 30 anos sem ter um membro no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, lacuna preenchida recentemente com a indicação do presidente do IHGG, Jales Mendonça. Fiz uma palestra lá, no dia 1º de julho, sobre o bandeirantismo paulista e a colonização mameluca em Goiás. A última conferência de uma pessoa de Goiás, há 16 anos, foi feita pela historiadora Lena Castello Branco. Apenas a professora da Universidade Federal de Goiás e o escritor e pesquisador José Mendonça Teles fizeram conferências no IHGB. O único goiano a ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras foi Bernardo Élis, autor de “O Tronco” e “Veranico de Janeiro”. O crítico literário e poeta Gilberto Mendonça Teles e o poeta Gabriel Nascente, apesar de seus múltiplos méritos, não conseguiram se eleger.
Quais são as chances de Nilson Jaime se tornar membro da Academia Brasileira de Letras?
Goiás tem excelente escritores, como o citado Gabriel Nascente. Um deles pode ocupar uma vaga na ABL. Não tenho nenhuma pretensão a respeito. O importante, para mim, é fazer parte de duas instituições relevantes do Centro-Oeste — a AGL e o IHGG, que têm quase 100 anos.
Qual é o processo para se tornar membro de uma academia de letras?
A única exigência é que se tenha ao menos um livro publicado. A função é vitalícia. Quando o membro morre, faz-se uma sessão da saudade e abre-se espaço para as pessoas se inscreverem para a disputa da vaga. Me candidatei e apresentei minha produção. Uma comissão avaliou se eu podia pleitear a cadeira. Aí se fez a votação secreta e fui eleito.
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Livro sobre os 50 anos do Jornal Opção
O sr. está escrevendo um livro sobre os 50 anos do Jornal Opção. Quais são as cinco questões que mais o marcaram?
Primeiramente, tem a ver com a minha própria história. Dos 8 aos 13 anos, fui jornaleiro em Palmeiras de Goiás. Vendi jornais — “Cinco de Março”, “Correio Braziliense” e “Folha de Goiaz” —, nas ruas, de 1970 a 1975, em plena ditadura civil-militar. Coincidentemente, no último dia em que vendi jornais, chegou em Palmeiras a primeira edição do Jornal Opção. Não vendi o número dois. Quem assumiu a vendagem foi um irmão, que já era jornaleiro. Eu havia sido selecionado para trabalhar no supermercado que estava chegando — era o primeiro supermercado da cidade. Teve um concurso, com mais de 300 candidatos para 32 vagas. Aí eu passei o bastão para o meu irmão. O Jornal Opção era impresso na “Folha de Goiaz”, por isso chegavam juntos. Eram cinco exemplares. Eram 15 da “Folha”, 15 do “Correio” e 30 do “Cinco de Março”.
Na época, ao distribui-lo, o sr. lia o Jornal Opção?
Eu havia adquirido o hábito de ler jornais. Selecionava matérias sobre filosofia, ciência, música e arte em geral e fazia a minha hemeroteca. Cheguei a ter mais de oito mil textos selecionados por tema e amarrados com barbante de bacalhau. Os garotos da cidade pesquisavam no material organizado por mim. Havia reportagens sobre Goethe, Darwin, a Segunda Guerra Mundial, poesia. Eu sempre li o Jornal Opção. É o único jornal de Goiás que leio com frequência.
O sr. avalia que, para escrever a história de Goiás, e não apenas a partir de 1975, é crucial consultar o Jornal Opção?
Jornais fechados não podem ser consultados — o que é um desserviço à cultura e à história de Goiás e do país. Vi que 80% da bibliografia de um livro dos professores Nasr Chaul e Noé Freire são referentes a materiais publicados no Jornal Opção.
O Jornal Opção é livre na internet. Pode ser consultado por todos os leitores — de Goiás, do Brasil e do mundo.
O Jornal Opção, com seu excelente acervo histórico e cultural, pode ser consultado por leitores especializados e comuns. Pode ser consultado na internet. Patrícia Moraes me disse que o acervo vai ser digitalizado integralmente, o que é altamente relevante, e futuramente poderá ser consultado no IHGG. Porque o jornal é uma mina de ouro para pesquisadores. Vários jornais já estão com seus acervos no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Estão lá o “Cinco de Março”, a “Folha de Goiaz”, o “Diário da Manhã”, entre outros. A pesquisa pode ser feita presencialmente ou então pela hemeroteca do IHGG, que está na internet.

Para pesquisar sobre a Arena, dois professores universitários consultaram os arquivos do Jornal Opção.
Além do acervo, que é amplo, os leitores poderão consultar, em breve, o livro que conta a história dos 50 anos de jornalismo do Jornal Opção. É um documento histórico. Há uma entrevista com Iris Rezende, antes de ter sido eleito governador em 1982, que é um documento valioso. Há outras entrevistas de igual valor.
O jornal publicou muito material sobre a história de Goiás, inclusive anterior a 1975. Pedro Ludovico deu sua última grande entrevista ao Jornal Opção e faz referências às décadas de 1910, 1920, 1930 etc. Há uma entrevista importante de Jaime Câmara, o criador, ao lado de Joaquim Câmara, do Grupo Jaime Câmara.

Há entrevistas de Bernardo Élis, José J. Veiga, Carmo Bernardes, Antônio Olinto (então presidente da Academia Brasileira de Letras), Darcy Ribeiro, Consuelo Nasser, Isabel Câmara, Jorge Amado e Lula da Silva, quando ainda não era presidente. O jornal chegou a entrevistar o presidente Fernando Henrique Cardoso no Japão, em 1996. As entrevistas são excelentes e vitais para a historiografia goiana e do país.
O jornal entrevistou a escritora portuguesa Lídia Jorge, ganhadora do Prêmio Camões de 2026, o mais importante reconhecimento literário da língua portuguesa.
Inspirado no “Opinião” (circulou de 1972 a 1977), de Fernando Gasparian, o Jornal Opção se tornou um exemplo de cobertura factual rigorosa, análise objetiva dos fatos. E sempre abriu espaço para o debate, para a polêmica. Notou isto ao pesquisar em suas páginas?
Assim como Herbert de Moraes Ribeiro, o fundador do Jornal Opção, fui leitor do “Opinião”, do “Versus”, do “Movimento” e do “Pasquim”. Este era irreverente. A pesquisa que fiz mostra que Herbert inspirou-se no “Opinião” e no “Versus” [jornal que circulou entre 1975 e 1979]. Desde o princípio, o Jornal Opção se pautou por analisar os fatos, por não deixá-los, por assim dizer, soltos. Acima de tudo, o Jornal Opção é um veículo de comunicação analítico. Faz análises que os demais jornais não fazem, se omitem. Os jornais atuais estão com textos muitos curtos (dois mil caracteres), que não duram um dia. Até certos artigos do parecem não ter conclusão, ideias sedimentadas. São artigos, mas não têm opinião alguma. Nascem e morrem. Parte substancial dos textos do Jornal Opção sobrevive com extrema energia, por assim dizer. Estão vivos, substantivos. Por causa de sua capacidade analítica, de saber conectar os fatos e formular uma explicação mais ampla.
O que mais chamou sua atenção ao pesquisar os arquivos do Jornal Opção?
O Jornal Opção abre mais espaço para seus jornalistas e para os colaboradores. Eles podem escrever artigos mais amplos, desenvolvendo várias ideias. Há liberdade para o pensamento articulado, preparado e posicionado. Me chamou muito a atenção, ao pesquisar em suas páginas, o espaço que o jornal abre para os intelectuais, para os artistas (escritores, músicos, artistas plásticos) e os cientistas de Goiás, do país e do mundo. Nenhum outro jornal tem essa abertura. Cinco membros do Instituto Bernardo Élis (Icebe) escrevem no jornal. Do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás são vários — entre eles o presidente, Jales Mendonça. A Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás tem uma coluna fixa e publica vários artigos.

O Jornal Opção sempre deu muito destaque à história do país, não é?
Poucos jornais cobrem os chamados anos de chumbo — o ciclo mais pesado da ditadura civil-militar — como o Jornal Opção. Há farto material sobre o assunto. Há uma entrevista com um sargento goiano que comandou o batalhão que matou, na Guerrilha do Araguaia, o membro do PC do B Francisco Chaves. Este é citado no livro “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos. O Jornal Opção revelou em primeira mão como Francisco Chaves tombou em confronto com o Exército.
O jornalista e pesquisador Elio Gaspari o material do jornal sobre a guerrilha no livro “A Ditadura Escancarada” (editoras Companhia das Letras e Intrínseca). O Jornal Opção entrevistou, com exclusividade, Zezinho do Araguaia (Micheas Gomes de Almeida, de 92 anos), um dos sobreviventes da guerrilha. O jornal revelou que o escritor Goiamérico Felício [irmão do escritor Brasigóis Felício] serviu como soldado no combate aos integrantes do Partido Comunista do Brasil.

Entrevistou, com exclusivamente, Antônio Duarte, o marinheiro que politizou, à esquerda, o Cabo Anselmo. Antropólogo, ele, quando falou com o jornal, morava na Suécia. O jornal entrevistou o Tenente Vermelho, José Wilson, que foi aliado de João Goulart e Leonel Brizola. Ele revelou o que Brizola fez com o dinheiro enviado por Fidel Castro, de Cuba, à guerrilha brasileira. Há material sobre a Coluna Prestes, uma das especialidades de José Asmar, um dos entrevistados.
O sr. notou um vínculo forte do jornal com instituições culturais e universidades.
A ligação era e continua forte. Poucos jornais cobrem tão bem a questão da inteligência artificial, abrindo amplo espaço para pesquisadores e cientistas da UFG e de outras universidades. No ano de 1980, os professores Itami Campos e Sérgio Paulo Moreyra editaram o suplemento “Encarte”. Um dos colaboradores era o professor Sidney Valadares Pimental. Os três da UFG. Considero como a iniciativa mais feliz da imprensa goiana em todos os tempos — seguido pelo Opção Cultural, editado por Miguel Jorge, José Maria e Silva, Carlos Willian Leite e Euler de França Belém. Havia também a Revista Opção, que era editada por Helvécio Cardoso. Também de cultura, incluindo entretenimento.
O Jornal Opção sempre incentivou o debate sobre grandes temas. Por exemplo, a questão da inteligência artificial.
O Jornal Opção é um veículo de comunicação que abre espaço para a sociedade, para as diversas instituições científicas e culturais. Nunca deixa de fora temas palpitantes. Não limita espaço, por isso temas seminais, como a inteligência artificial, aparecem expostos de maneira ampla e não telegráfica. Frise-se que hoje o Jornal Opção é diário. Ainda assim, seu material jornalístico é mais consistente do que o dos demais jornais. É um jornal de porte nacional, até global. É um jornal bem-escrito. Há jornais hoje que nem se preocupam com a revisão de seus textos. Os leitores percebem isto.
Durante sua pesquisa para o livro, o sr. notou que o jornal fez uma defesa ampla, incisiva, de Goiás; acima das questões partidárias, por exemplo?
O Jornal Opção sempre primou pela diversidade política. Sempre abriu espaço para as partes descontentes. Por exemplo, para Ronaldo Caiado quando era deputado federal. Ele cobrou e ganhou espaço para expor suas ideias e responder às críticas. Herbert de Moraes Ribeiro, Euler de França Belém e José Maria e Silva participaram da entrevista. Ele critica o jornal e tudo saiu publicado. Foi um direito de resposta muito bem concedido. Durante a entrevista, o jornal também se defendeu. Uma crítica literária [Moema Olival] ficou descontente com uma crítica de José Maria e Silva e o jornal abriu amplo para espaço para sua réplica. Ela escreveu uma página inteira (na edição impressa) para explicar o conteúdo de seu livro e contestar o articulista.
Costuma-se dizer que o Jornal Opção é universal, e não um veículo de província. O noticiário internacional, por exemplo, sempre ganhou amplo espaço.
O Jornal Opção sempre teve correspondentes e colaboradores em vários Estados e países. Você, Herbert [Moraes], trabalhou para a TV Record cerca de 20 anos no Oriente Médio, com base em Tel Aviv, em Israel, e assinou uma coluna, Direto do Oriente, no Jornal Opção. De Stuttgart, Edgar Welzel, escreveu a coluna Carta da Europa. Rui Martins, da Suíça, tem artigos publicados com frequência. Astier Basílio escreve para o jornal de Moscou. Ele é um grande tradutor de poesia diretamente do russo (já disse que leu bons textos no Jornal Opção sobre o poeta Óssip Mandelstam).
Doutor pela USP, o crítico literário, historiador e biógrafo Adelto Gonçalves é um dos principais resenhistas do jornal. A.C. Scartezini, ex-repórter e ex-editor da revista “Veja”, foi correspondente do jornal em Brasília durante anos. Então, o nacional e o internacional estão sempre presentes no jornal. Uma coisa é importante: a equipe de repórteres sempre faz questão de levar Goiás para o Brasil e para o mundo, universalizando-o. Há muitos acessos em países como Portugal, Espanha, Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra.
Há pouco tempo, o jornal publicou uma resenha da biografia de Martha Gellhorn [foi casada com o escritor Ernest Hemingway], a grande correspondente internacional dos Estados Unidos. Poucos dias depois, chega uma correspondência de Amanda Shakespeare (mora na Inglaterra), irmã do escritor inglês Nicholas Shakespeare. Ela disse: “Seu excelente artigo me foi enviado com um simples clique pelo meu irmão Nicholas, que mora na Tasmânia”.

Os escritores sempre publicaram textos no Jornal Opção. Alguns deles eram colunistas?
Anatole Ramos, Antônio José de Moura, Brasigóis Felício, Heleno Godoy, Moema Olival, Modesto Gomes, Joaquim Rosa, Miguel Jorge, Bernardo Élis, Carlos Augusto Silva, Licínio Leal Barbosa, Jales Mendonça, entre vários outros, escreveram no jornal. Alguns deles ainda escrevem. Joaquim Rosa, um dos maiores valores da historiografia goiana, escreveu artigos importantes e polêmicos no Jornal Opção. Carmo Bernardes escreveu artigos sobre meio ambiente já em 1975 e mostro isto no livro. Há reportagens sobre teatro — com Cici Pinheiro, Otavinho Arantes. O jornal sempre esteve aberto aos bons valores da sociedade. Bernardo Élis concedeu uma bela entrevista ao jornal. Trata-se de uma entrevista icônica, muito boa. Uma de suas entrevistas, “Ermos do homem e ideias gerais”, por ser bem longa, não teve como ser transcrita no livro. É a melhor entrevista do autor do romance “Chegou o Governador” e do conto “A Enxada”.

O Jornal Opção é conhecido por suas entrevistas densas, como as de Pedro Ludovico, Francisco de Britto, Consuelo Nasser, José Asmar, Washington Novaes, Jorge Amado, Bernardo Élis, Carmo Bernardes, José J. Veiga, Gilberto Mendonça Telles, entre outras. Qual a que mais impactou o sr.?
A entrevista do Bernardo Élis é muito impactante. A de Iris Rezende é muito boa. As entrevistas de Pedro Ludovico e Jaime Câmara, imensas, são de alta qualidade. São documentos históricos. Há longas e proveitosas entrevista de Mauro Borges e de Siron Franco.
O que chamou sua atenção na entrevista do Jaime Câmara?
O criador de “O Popular” (ao lado de Joaquim Câmara) fala sobre o processo da mudança da Cidade de Goiás para Goiânia. Desconheço um texto que tenha mais informações sobre a mudança do que essa entrevista do Jaime Câmara. Inclusive, quando foi escrever os livros “A Assembleia Constituinte Goiana de 1935 e o Mudancismo Condicionado” e “A Invenção de Goiânia — O Outro Lado da Mudança”, o doutor em História Jales Mendonça usou a entrevista como fonte. Porque é maravilhosa. Vale sublinhar que Jaime Câmara era concorrente do Jornal Opção. O jornalista e empresário era amigo de Herbert de Moraes Ribeiro.
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Jornal é dirigido por uma jornalista e empresária competente
Poucas mulheres dirigiram jornais importantes no Brasil. Uma delas é Niomar Moniz Sodré Bittencourt, que editou o “Correio da Manhã”, um dos mais importantes da história do Brasil. A criadora do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro enfrentou a ditadura e foi perseguida e presa. Em Goiás, há mais de 20 anos, o Jornal Opção é dirigido pela jornalista Patrícia Moraes. Ela comanda um jornal bem-sucedido. O sr. considera que é um case a ser avaliado pelos que estudam comunicação no país?
Acho que, no momento, não há outra mulher dirigindo um jornal da magnitude do Jornal Opção. O caso de Patrícia Moraes merece tese de doutorado. É preciso mostrar a história dela, sua trajetória. Ela se formou em São Paulo e, na Europa, estagiou no “El País”, que é o “New York Times” da Espanha. No Jornal Opção, começou como repórter — entrevistou Mauro Borges e Iris Rezende, dois governadores, por exemplo. Então, a partir de 2010, Herbert de Moraes a promoveu a diretora-editora-executiva. Hoje, ela administra o jornal, como empresária e jornalista. Euler de França Belém diz que poucas vezes viu uma jornalista que gosta tanto de informação. Ela aprecia conversar pessoalmente com as fontes, frente a frente. Patrícia é a grande responsável por transformar o semanário num azeitado diário. Ela firmou o jornal nos tempos digitais. Soube fazer a transição e a modernização. Por sinal, hoje o grupo tem três jornais: o Jornal Opção de Goiás, o Jornal Opção Tocantins e o Jornal Opção Entorno de Brasília. Todos com suas especificidades.

Meu pai, Herbert de Moraes Ribeiro, foi um visionário. O jornal começou tabloide, passou pelo standard e adotou o formato germânico, um pouco maior do que o tabloide original. Depois, quase todos os jornais, inclusive “O Popular”, adotaram o mesmo formato.
Os jornais voltaram, de alguma maneira, ao formato dos tabloides dos anos de chumbo — ao “Opinião”, ao “Movimento”, ao “Versus”, ao “Pasquim” e ao Jornal Opção. Houve uma retomada. Então, sim, Herbert de Moraes Ribeiro era visionário.
Como o sr. resume a mente de Herbert Moraes? O Jornal Opção é Herbert Moraes e vice-versa?
O leitor atento consegue perceber o espírito de Herbert de Moraes Ribeiro no jornal de hoje. Tanto que o jornal continua analítico e crítico, de alto nível. Patrícia Moraes ampliou o jornal no mundo digital. Ela e Euler de França Belém operam o jornal renovando-o sempre. O jornal conta com uma equipe jovem e eficiente — com Ton Paulo, editor de Política, João Paulo Alexandre, editor-executivo, Giovanna Campos e Bruna Ariadne, editoras do diário online. Considero o Jornal Opção como o jornal mais crítico, mais aberto, mais democrático do Estado de Goiás. Ele abre espaço generoso à classe artística, à classe intelectual, a professores, a escritores que queiram escrever. É o que Herbert pensou desde o começo. Ele disse queria um jornal que fosse além dos fatos, que fosse analítico, que fosse crítico. Ouvi muita gente para fazer o livro e todos me disseram a mesma coisa: trata-se de um jornal analítico e crível. O importante é que o Jornal Opção permanece se renovando e continua um jornal diferenciado, num momento em que quase todos os jornais buscam o fato imediato e estão cada vez mais muito parecidos, praticamente iguais.
Meu pai gostava muito daquela música “Metamorfose Ambulante”, de Raul Seixas. Pode-se dizer que o Jornal Opção é uma espécie de metamorfose ambulante? Está sempre mudando, mas guardando as suas características básicas: a objetividade na descrição dos fatos e a análise detida dos acontecimentos. E, hoje, firme no mundo digital, é diário e no seu campo da cobertura política é líder ou um dos líderes em audiência. O sr. contempla no livro essa nova fase do jornal Opção?
Não só eu. Todo o meio intelectual e o meio político bebem no Jornal Opção. Mesmo que o jornal seja diário, a gente espera o domingo para ler as resenhas, ensaios culturais e as notáveis análises políticas. As matérias do Jornal Opção são esperadas com, eu diria, muita ansiedade e expectativa. A coluna Bastidores é lidíssima, e não apenas por quem vive no mundo da política.
Por que as pessoas esperam para ler o que o Jornal Opção vai dizer?
Porque é um jornal analítico e confiável. Não publica a mera notícia. Ele a interpreta e leva o leitor a refletir, a angular os fatos. Manter a capacidade analítica por 50 anos não é nada fácil. É preciso coragem e talento. Patrícia Moraes e Euler de França Belém são os principais responsáveis pelo caráter analítico do jornal. Considero Euler um dos maiores jornalistas da história de Goiás. José Luiz Bittencourt, Euler de França Belém e José Maria e Silva deixaram sua marca na imprensa de Goiás, não apenas no Jornal Opção.
A pesquisa sobre o Jornal Opção resultará no seu quinto livro?
Autoral é, de fato, o quinto. Mas tenho outras produções, inclusive que edito, que é mais do que escrever, é mais completo. Então, posso sugerir que o livro sobre o jornal é o 16º.
O sr. escreveu sobre o quê?
Escrevi um livro de matemática, no início dos anos 1990. “Matemática Passo-a-Passo das Quatro Operações” vendeu muito bem. O Jornal Opção chegou a noticiar. Depois, escrevi “Família Jaime/Jayme — Genealogia e História”, um catatau de 1.148 páginas. Como notou o Jornal Opção, é um livro de história de Goiás e do Brasil. Biografo aproximadamente 7.600 pessoas, segundo Leão Ramos Caiado. Escrevi a biografia “Frederico Jayme Filho — 50 Anos de Vida Pública”. Publiquei também “Resenhas e Ensaios”. São textos que escrevi para o Jornal Opção. A história do jornal está quase pronta. Organizo a coleção Goiás + 300 — lançamos seis livros e vamos publicar mais quatro. Cada livro é feito por 30 autores. Sou um dos organizadores do livro “Goiânia, 90 Anos”.
O sr. poderia descrever o livro sobre Frederico Jayme?
Trata-se de um livro de história contado a partir das ações de um indivíduo, que, evidente, precisa ser conectado às ações de outros indivíduos. Ou seja, do coletivo. Uma empresa quer me contratar para escrever um livro. Trata-se de um conglomerado — são dez empresas. A empresa tem de “entrar” na história de Goiás. Frederico Jayme nasceu em 1947, quando Coimbra Bueno era governador de Goiás. Conto a história, pois há um hiato do governo de Pedro Ludovico, que durou de 1930 a 1945 — primeiro como interventor e, depois, como ditador (no Estado Novo, de 1937 a 1945). Pedro Ludovico volta em 1950, agora eleito. A história de Goiás é composta de ciclos de 15 a 20 anos. Se você pegar desde os Bulhões, até 1901, quando Xavier de Almeida assumiu, e ele era bulhonista também, então vamos pôr até 1909 — aí se tem um ciclo de 20 anos. De 1909, quando houve a Revolução da Quinta, e depois o poder total de Eugênio Jardim e Totó Caiado, até 1930, se tem 21 anos ou 18 anos. Então, aproximadamente 20 anos.
O novo ciclo de Pedro Ludovico, com seu filho Mauro Borges, vai até 1964.
O ciclo de Pedro Ludovico e Mauro Borges dura cerca de 14 ou 15 anos. Vai até 1964. Em seguida, vem o período da ditadura civil-militar, que vai de 1964 a 1985. São 21 anos de regime discricionário. A partir de 1983, Iris Rezende, do MDB, assume o governo do Estado. O “Povo no Poder” — o MDB — começou em 1983 e foi até 1998, quando Marconi Perillo derrotou Iris na disputa para governador. O Tempo Novo ficou 20 anos no poder — até 2018, quando Ronaldo Caiado foi eleito governador. São os ciclos da história de Goiás. Para contar a história de um político, como Frederico Jayme, e de um jornal, como o Jornal Opção, é preciso inseri-los na história. Registre-se que o jornal sobreviveu aos ciclos, desde 1975. Sua força deriva das defesa da importância das ideias.
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O que as formigas podem ensinar aos seres humanos
O sr. é conhecido como polímata.
Não diria que sou polímata. Sou muito curioso. Sempre volto ao exame das coisas com o espírito científico de minha adolescência. Lia e me interessava por tudo. Fui professor de matemática, de estatística. Mas amava ciência, gostava de escrever e de fazer redações. Tenho formação científica, com doutorado em Agronomia. Mas tenho, sobretudo, uma visão universalista das coisas. Quando entrei na universidade, ia para a Biblioteca Central da Universidade Federal de Goiás, que ficava na Faculdade de Direito, na Praça Universitária. Eu tinha prova no dia seguinte. Mas sempre me distraía com um livro interessante de ciência, de história ou mesmo um romance. Sempre tive uma cabeça atenta à diversidade cultural.
O sr. é um dos maiores especialistas em formigas do país e fez um doutorado sobre o assunto. Elas têm algo a dizer aos seres humanos, por exemplo, em relação à solidariedade?
Rejeito a caracterização de grande especialista. Estudei as formigas, pois gostava muito de entomologia. Mas a vida me levou para a área de agronomia, para a tecnologia de alimentos. Lecionei na Universidade Federal de Goiás, por cinco anos, sobre o assunto. Depois, aprovado no concurso do Fisco, fui para o Tocantins. Nas folgas, dava consultoria à indústria de alimentos. Trabalhei em 12 usinas de Goiás, com a implantação de programas de qualidade para exportação e de ISO 22.000. Trabalhei para laticínios, frigoríficos, fábrica de doces, de conservas.

Como foi o seu mestrado?
Meu mestrado foi na área de tecnologia de alimentos. Depois, no doutorado, optei pela entomologia. As formigas são os animais mais fantásticos que existem no planeta Terra. A massa das formigas é superior à dos humanos. Ela consegue levantar várias vezes o seu peso. Nenhum outro ser consegue fazer o mesmo. Isso é basicamente pelo exoesqueleto. Ela tem um esqueleto externo. Então, comparando no âmbito humano, é como se você tivesse uma armadura de ferro. Então, se essa armadura tivesse um motor, o ser humano conseguiria levantar muito mais peso do que consegue normalmente. As formigas são extremamente solidárias. Integram uma sociedade da solidariedade. São todas assexuadas, exceto a rainha e o rei, em determinadas épocas. Elas canalizam toda sua energia para o trabalho, ou melhor, para o altruísmo.
Por que o cientista Edward O. Wilson (1929-2021) dizia que as formigas constroem uma sociedade altruísta?
O brilhante entomólogo e biólogo americano disse que as formigas constroem uma sociedade altruísta. Edward Wilson, grande ecólogo, elas criam uma sociedade altruísta. O altruísmo chega ao ponto de buscarem alimentos fora da colônia. Quando chegam na colônia, passam comida para as outras. As formigas cortadeiras (saúvas) saem, cortam folhas, se alimentam com a energia do próprio corte das folhas e levam as folhas para fazer um fungo — que é proteína — para alimentar as mais jovens. As formigas têm um sistema, trofaloxia, para regurgitar alimentos para as outras. Elas limpam umas às outras também. Por isso, quando chegam ao formigueiro, não transmitem doenças. Mas, se alguma adoecer, é levada para a “panela” — que é uma parte da colônia. Recentemente se descobriu que determinadas formigas fazem “cirurgia”, quer dizer, elas colam a parte quebrada de outras formigas. Há também um sistema de feromônios, quer dizer, primeiro elas agregam e chamam quando encontram uma fonte de alimentos. É o feromônio de agregação. Elas têm feromônios marcadores, para que não se percam. Por isso andam em fila. Se a pessoa passar o dedo e interromper o movimento, elas param.
Cada formiga tem suas características, como os humanos?
Para entender a formiga, a coletividade das formigas, é preciso fazer uma analogia com o cérebro. Cada neurônio é individual, mas o todo é que conta. Então, no caso das formigas, o que conta é a colônia. A formiga de outra colônia é expulsa. Existem também as supercolônias de formigas. Existe uma única colônia de formigas que está espalhada por toda a Europa. É um grande formigueiro. Então, neste caso, não se estranham.
Como é no Brasil, com toda sua diversidade?
O Brasil é um dos países com maior diversidade de formigas. Existe, por exemplo, a formiga atta goiana. O gênero atta tem 15 ou 16 espécies conhecidas. Uma delas é de Goiás. Foi encontrada por um agrônomo na região de Aruanã. Nunca mais se achou essa formiga. Mas, como foi muito bem descrita, a ciência a considera até hoje como uma espécie. É considerada extinta, mas, com certeza, não está. Só não foi mais encontrada. No Brasil existem formigas exóticas, como as tocandiras, na Amazônia. Os indígenas as usam no ritual de passagem. São colocadas 120 formigas, aproximadamente, dentro de uma luva e o menino, entre 9 e 12 anos, enfia a mão. Se não chorar, apesar da picada dolorida, está pronto para se casar.
Há formigas semelhantes em Goiás?
Sim, a cabo-verde, do gênero dinoponera. A formiga cabo-verde é a dinoponera australis. A formiga da Amazônia é a paraponera clavata. São dois gêneros diferentes, mas com hábitos muito similares, inclusive a picada.
Existe formiga que come carne humana?
Com certeza. Toda formiga, teoricamente, come carne humana. Mas não saem por aí comendo gente, esclareça-se. Peritos forenses, quando encontram um corpo em algum lugar, a primeira coisa que procuram são resíduos de insetos. Verificam o que o inseto comeu, se colocou ovo. Por exemplo, as moscas. Rapidinho, botam os ovos ali. Então, de acordo com as larvas encontradas, com os ovos ou com a pupa, a fase de desenvolvimento dos insetos presentes, eles vão saber há quantos dias aquele inseto está ali.
E há quanto tempo está em decomposição o corpo?
Quando morre qualquer animal, o primeiro inseto — o primeiro animal — que chega são as formigas. Antes das moscas.
Pesquisador dedicado, o sr. tinha uma promissora carreira na UFG, como professor. Por que a trocou pelo Fisco?
Antes de ir para o Fisco, no Tocantins, trabalhei no governo em Goiás, na gestão de Henrique Santillo. Ele fez um grande trabalho no social. Construiu várias creches. Então, abriu uma padaria, algumas usinas de leites de soja. Como precisavam de um técnico, me ofereceram duas vezes mais do que eu ganhava na universidade. Me arrumaram um contrato em três dias. Não pude dizer não. Então, saí da UFG. Trabalhei nas unidades do governo e fui diretor da escola-fazenda de Araçu, que estava sendo implantada. Depois, fui para a Escola de Formação de Maquinistas Agro-Rodoviários de Goiás (Efomargo — criada no governo de Mauro Borges e extinta no segundo governo de Iris Rezende). Ficava em Senador Canedo. Fiquei lá um período. Por questões econômicas, por ser mais vantajoso, prestei concurso no Fisco, onde estou até hoje.
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Livros de reparação histórica: indígenas e negros
Como é o projeto Goiás + 300?
O projeto Goiás + 300 foi pensado por mim e Jales Mendonça. Somos os coordenadores. Sou o editor geral de todos os livros. Para cada tema nós temos dois ou três organizadores e aproximadamente 30 autores de diversas instituições culturais e científicas. O objetivo é fazer uma reflexão e uma ressignificação sobre a história de Goiás. Aprende-se, desde cedo, que Goiás foi colonizado pelos europeus, os bandeirantes. Corrija-se: os bandeirantes não eram europeus, e sim mamelucos. Já estavam na quarta ou quinta geração dos mamelucos que viviam em São Paulo. Eram descendentes dos caciques Tibiriçá, Caiubi e Piquerobi. Eram irmãos, cada um com uma aldeia. Os filhos deles foram tendo filhas e filhos com alguns personagens, como João Ramalho. Tais grupos são a origem dos bandeirantes.

Por que vieram para o sertão goiano?
Eles enfrentaram as agruras do sertão — rios cheios, mosquitos, indígenas reativos — porque já eram, de algum modo, indígenas também. A coleção se chama Goias + 300 porque acreditamos que a colonização europeia e mameluca não foi o início da história.
Por qual motivo dizem isto?
A história de Goiás tem pelo menos 13 mil anos, quer dizer, quando os primeiros indígenas, os povos originários, chegaram na região. Nosso objetivo é fazer tanto uma reflexão quanto uma reparação histórica. É preciso mostrar a importância crucial dos indígenas e dos povos afrodiaspóricos. Vai sair, em breve, o livro “Goiás + 300 — Povos Afrodiaspóricos”. Frisamos a questão da reparação histórica.
Como é a questão do negro-escravizado em Goiás?
Metade dos negros que saíam da África para o Brasil morria pelo caminho. Os mortos eram jogados aos tubarões. A outra metade era comercializada no Rio de Janeiro, no Valongo, e na Bahia. A família — pais de filhos, irmãos — era separada. Como escravizados, trabalhavam de 18 a 20 horas por dia na lavoura cafeeira e na produção de açúcar. Quando saiu a primeira lei de educação no Brasil, em 1827, já no Império, o negro foi proibido de se alfabetizar. Não podia estudar. Em 1850, quando saiu a primeira lei de terras, ficou definido que o negro não podia requerer terras absolutas do Estado. Todo mundo podia, menos os negros. Era uma maneira de manter o sistema escravagista.

Como eram as leis para inglês ver?
As legislações para inglês eram a Lei Eusébio de Queiroz (proibia o tráfico de escravizados, que continuou), a Lei do Ventre Livre, a Lei dos Sexagenários (Lei Saraiva-Cotegipe). Com a mãe escravizada, a criança não tinha como ser efetivamente livre. Os escravizados morriam aos 30, 40 anos. Raramente chegavam aos 60 anos. Os que chegavam iam viver de quê? Não tinham estudado, não tinham terras.
Como o sr. analisa a Abolição da escravidão?
A Lei Áurea aboliu a escravidão, mas o governo não pensou na reparação histórica, nos 350 anos de sofrimento, chicote, tortura, senzalas. O governo deu terras para italianos (daí Zambelli, Bolsonaro), poloneses, japoneses, alemães — brancos — que foram convocados para substituir a mão de obra escravizada. Não houve uma política de reparação e inserção do negro na sociedade. Continuaram excluídos. Foram morar em cortiços e, depois, nas favelas.
Aa discriminações continuam no Brasil. Como era a “Lei do Boi”?
Em 1980, para entrar na Escola de Agronomia da UFG, tive de lutar contra a chamada “Lei do Boi”, instituída em 1968, na ditadura. Ela reservava 50% das vagas nas escolas de Ciências Agrárias, Agronomia e Veterinária para filhos de fazendeiros. Diziam que era para filhos de trabalhadores rurais, mas na verdade entravam os filhos dos fazendeiros. Na década de 1980, na Escola de Agronomia, de oitenta alunos apenas quatro eram negros
No Goiás + 300 há ensaios sobre mulheres?
Nós estudamos os povos originários (indígenas) e afrodiaspóricos e vamos lançar um livro sobre mulheres. Há um capítulo sobre a escritora Rosarita Fleury, a pianista Belkiss Spenciere e a poeta Cora Coralina. E há um capítulo a respeito de mulheres trans. É o tipo de ressignificação e reparação que a gente procura com o Goiás + 300.
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Livros fundamentais para entender a história de Goiás

Quais são os cinco livros fundamentais para se entender a história de Goiás?
Há mais de cinco livros, é claro. “Anais da Província de Goiás”, de José Martins Pereira de Alencastre, e “Chorographia Histórica da Província de Goiás”, de Raimundo José da Cunha Mattos, são clássicos importantes. “Súmula de História de Goiás”, de Americano do Brasil, é um livro muito bom. “Coronelismo em Goiás”, de Itami Campos, é uma obra consistente. Os livros do padre Luis Palacín são incontornáveis. Os livros dele e os escritos em colaboração com outros historiadores são cruciais para se entender a história do Estado.
Paulo Bertran publicou pesquisas de valor, como “Notícia Geral da Capitania de Goiás em 1783” e “História da Terra e do Homem no Planalto Central”. Um livro seminal sobre a Primeira República em Goiás é “História de uma Oligarquia: os Bulhões”, de Maria Augusta Sant’Anna Moraes. Vale leitura “Pelo Sangue — A Genealogia do Poder em Goiás”, de Vitor Jardim. Também é sobre a Primeira República. Merece figurar na lista “A Sociedade Agrária em Goiás”, de Maria Sônia França Souza. Há um livro importante, mas esquecido, que merece muito ser lido: “Viagem ao Rio São Francisco e pela Província de Goiás”, de Saint-Hilaire. Não estou falando do livro “Viagem à Província de Goiás”, um livro mais conhecido. Há livros mais recentes, sobre a modernidade, o século 20, de alta qualidade — como os de Nash Chaul (“Caminhos de Goiás — Da Construção da Decadência aos Limites da Modernidade”) e Jales Mendonça (sobre a mudança da capital), dois doutores em história.

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Os esquecidos
Goianos que ajudaram a construir Brasília
A fundação de Brasília passa pela fundação de Goiânia?
Goiânia foi decisiva para a construção de Brasília. Ficou evidente que era possível criar uma capital no Cerrado. Vai sair um livro, “Brasília — O Protagonismo de Goiás na Mudança”, que apresenta as várias pessoas que tiveram importância na mudança da capital mas foram esquecidas pela história.
Quais são os esquecidos?
Altamiro Moura Pacheco, que fez a desapropriação para que Brasília fosse possível, raramente é lembrado. Ele a fez em tempo recorde e não houve problemas judiciais. Não deixa de ser curioso que Altamiro, de oposição, e o governador não se entendiam, mas, ainda assim, foi o escolhido para organizar a desapropriação da área do Distrito Federal, que ficava em Goiás. O governador teria dito o seguinte: se eu colocar um adversário, ninguém vai dizer que estou roubando.

Há outros esquecidos?
Sim. O general e senador Aguinaldo Caiado de Castro. Filho do presidente (governador) de Goiás João Alves de Castro, foi chefe do gabinete militar do presidente Getúlio Vargas. Encontrou o líder gaúcho morto, em agosto de 1954. Ele nasceu no Rio de Janeiro, mas era filho de pai e mãe goianos. Vargas mandou o militar fazer o levantamento para a mudança da capital, na década de 1950. (Vale lembrar que, como coronel na Segunda Guerra Mundial, Aguinaldo Caiado comandou a ação dos pracinhas na tomada de Monte Castello, na Itália, na luta contra os nazistas de Adolf Hitler. Ele ganhou elogios do, entre outros, presidente americano Dwight D. Eisenhower, que, como general, comandou os Aliados na batalha contra a Alemanha.)
O que o general Aguinaldo Caiado de Castro realmente fez?
O general contratou uma empresa dos Estados Unidos para fazer todo o levantamento topográfico, altimétrico. Era uma espécie de Estudo de Impacto Ambiental-Relatório de Impacto Ambiental (Eia-Rima) para a região de Brasília. Quando Juscelino Kubitschek, candidato a presidente da República, visitou Jataí, no famoso episódio do Toniquinho — Antônio Soares Neto —, havia uma ideia de levar a capital para Minas Gerais. JK acabou decidindo colocar a mudança da capital no seu plano de governo. O levantamento articulado por Aguinaldo Caiado foi decisivo para a construção ter sido feita em território goiano.

Quantos personagem ajudaram na construção de Brasília mas estão esquecidos?
Por enquanto, são entre 25 e 27 pessoas. Estamos confirmando os nomes e o que fizeram. Eles tiveram muita importância. Jalles Machado, por exemplo, lutou pela construção da rodovia Anápolis-Belém. Goiânia deu o suporte necessário para a construção da nova capital.
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Anos de chumbo
Opção é citado por Elio Gaspari e Luiz Maklouf em livros
O Jornal Opção chegou a ser premiado pela Academia Brasileira de Letras pela qualidade do texto. Como o sr. considera essa premiação?
O Jornal Opção sempre manteve entre seus repórteres e articulistas profissionais que são autores de textos de alta qualidade. Cito, como exemplo, Haroldo de Britto, Herbert de Moraes Ribeiro, José Luiz Bittencourt, Carmo Bernardes, Luís Estevão, Pedro Wilson Guimarães, Anatole Ramos, Miguel Jorge, José Maria e Silva e Euler de França Belém. Os textos são cultos e finamente elaborados. Contêm ideias que reverberam nos demais jornais. Percebo que o Jornal Opção pauta a imprensa de maneira geral.
O Jornal Opção é citado em vários livros de História
O que prova que muito do que o jornal publica sobrevive ao passar do tempo. Por causa da qualidade do material. O Jornal Opção tem um acervo maravilhoso, que vale ser levado para o formato de livro. Daria no mínimo uns dez livros. Elio Gaspari e Luiz Maklouf de Carvalho citam, em dois livros, fartamente o Jornal Opção. Geneton Moraes Neto disse que a melhor resenha de um de seus livros saiu no jornal. Fulvio Franchi, argentino especializado na tradução de literatura russa, afirmou que a melhor resenha de um livro traduzido por ele saiu no jornal de Goiânia. O intelectual argentino Martín Sivak escreveu para agradecer uma resenha de um de seus livros sobre a batalha entre o jornal “Clarín” e os Kirschner. A socióloga argentina Liliana de Riz, doutora pela Sorbonne e autora de um livro sobre Javier Milei, disse no X que a resenha do Jornal Opção sobre sua obra era perceptiva.
O Jornal Opção denunciou plágios das editoras Martin Claret e Germinal. As denúncias repercutiram na “Folha de S. Paulo”, na revista “Piauí” e no blog da categorizada tradutora Denise Bottmann.
A história denunciada pelo Jornal Opção ganhou repercussão nacional. Os livros plagiados, ao menos os da Martin Claret, foram retirados do mercado por causa do que o jornal goiano levantou de maneira minuciosa e documentada. O jornal prestou ao Brasil um serviço de utilidade pública.



