O dicionário do professor Ferreira que Bernardo Élis e Chico Buarque prefaciaram
02 julho 2026 às 09h48

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Garimpando livros pelos sebos do Rio de Janeiro, me deparo na Beta de Aquários, loja tradicional na Rua do Catete, com algumas reimpressões do icônico “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa (ideias afins)”, de autoria do professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo – primeiro presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e um dos fundadores da Academia Goiana de Letras (AGL).
“Professor Ferreira” como era conhecido, lecionou no Lyceu de Goyaz e foi geógrafo, agrimensor, cartógrafo e
historiador, autor da célebre “Carta Geográfica de Goiás”, além de lexicógrafo.
O léxico, que Chico Buarque ganhou de presente se seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, pouco antes do falecimento do autor de “Raízes do Brasil”, tornou-se uma obsessão, uma espécie de fetiche para Chico, conforme admite.
O autor de “Tantas Palavras” – especialista em encaixar vocábulos improváveis em suas letras de músicas e livros, pródigos em neologismos – admite que ficou “viciado” na arte de perambular pelos sebos e acumular exemplares da obra, temendo que se perdesse o espécime ofertado por seu pai. Consultando o dicionário, escreveu letras de canções, peças teatrais e romances. Com as palavras anotadas desse livro, “embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais”, confessa. Essas informações constam da 2a. edição do dicionário, publicado pela Editora Thesaurus.
Antes de Chico Buarque, contudo, fez a apresentação do “Dicionário Analógico…” o imortal da Academia Brasileira de Letras, Bernardo Élis, em 24 de julho de 1974, 2a. reimpressão da 1a. edição. O original foi lançado em 1950, mas seu autor não chegou a vê-lo nas livrarias, pois faleceu aos 67 anos, em 15 de novembro de 1942, na Cidade de Goiás, sem se quedar à nova capital que, dias antes, fora inaugurada e roubara o protagonismo de sua terra natal.
O autor de “Ermos e Geraes – contos” (1944) e “O Tronco” (1956) traduz que o dicionário “é um poderoso auxiliar para todos aqueles que lutam com as palavras”. Em sua apresentação, Élis esclarece que não se trata de um mero dicionário de sinônimos, mas de “uma imensa gama de palavras, termos, vocábulos ou expressões que se inscrevem nessa ampla e meio nebulosa área do campo semântico”.
O autor de “Veranico de Janeiro” (1965) faz menção a um fato pouco conhecido: “o primeiro dicionário da língua portuguesa escrito e publicado (escrito e publicado, vejam) no Brasil, foi de autoria de um goiano, Luis Maria da Silva Pinto, que, em 1832, em Ouro Preto, escrevia e imprimia na sua tipografia o ‘Dicionário da língua brasileira’. Por baixo de seu nome escreveu, orgulhoso – natural da Província de Goiás”. Bernardo Élis antecedeu Chico, portanto. Dois mestres da língua, homenageando um terceiro, quase anônimo.
Chico confessa em seu preâmbulo que quase morreu de ciúmes, ao saber que publicariam uma nova edição de seu tesouro escondido: “sinto como se invadissem minha propriedade, retirassem meus baús, espalhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se para mim de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, misetanda) notícia”.
Setenta anos antes que a inteligência artificial conquistasse o planeta, um professor de uma bucólica cidade do interior do Brasil concentrou seus esforços na busca de auxiliar os escritores e amantes da língua de Camões. Professor Ferreira fez o que a IA faz hoje, sugerindo expressões e vocábulos que melhor se encaixam às necessidades dos usuários.
Ferreira não foi o primeiro, já que em 1936, o padre Carlos Spitzer lançou o seu “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa” (Editora Globo) com várias reimpressões. Contudo, o dicionário do lexicógrafo goiano foi mais resiliente e permanece.
Aos interessados em conhecer a obra, na fiquem aflitos (angustiados, ansiosos, atormentados, perturbados, inquietos, apreensivos, preocupados, afligidos, consternados, desolados, acabrunhados, pesarosos, desesperados, oprimidos, abatidos, atribulados, enfim, consumidos pela aflição): foi publicada a terceira edição, revista e atualizada (2016) do dicionário do professor Ferreira, que possui “índice com mais de 100 mil entradas (palavras e expressões) em ordem alfabética, enviando a quase 160 mil referências diferentes”.
Por precaução – os preços foram módicos -, comprei três exemplares: dois para doar e um terceiro, primeira edição capa dura, com a apresentação de Bernardo Élis, para minha biblioteca. Ao final, adquiri também a 1a. edição (8a. reimpressão) do clássico dicionário do padre Spitzer, do qual possuo a segunda edição, afinal, não se sabe quando a IA irá “bugar”.
Nilson Jaime, escritor, editor e doutor em Agronomia, é colaborador do Jornal Opção.
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