Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

O Natal e a Bondade da Alma

Poeta Manuel Bandeira, ao passar o fim de ano em sanatório na Suíça, escreveu um poema que, como toda sua obra, ainda alcança o leitor, mais de cem anos depois, rompendo o Tempo, sendo continuamente lido

Manuel Bandeira (1886-1968): Em cada linha que compôs, há um pouco de musicalidade misturada àquilo que denominou “conteúdo emocional das reminiscências de sua primeira infância”

 “Penso em Natal.
No teu Natal…
Para a Bondade
A minh´alma se volta”
(Manuel Bandeira)

 Então, é Natal!, período em que, por excelência, nossos corações se adoçam, no mundo Ocidental, e nossas mentes se voltam para a reflexão e o convívio fraterno – quando tudo no ano que finda parecia indicar o oposto –, a anulação de nossa humanidade num ambiente em que a pletora de informações liquefeitas parece dominar os corações e as mentes.

Esses versos, escritos em 1913, num sanatório na Suíça pelo grandessíssimo “poeta menor” Manuel Bandeira, alcançam o leitor, mais de cem anos depois, rompendo o Tempo, sendo continuamente lidos, anotados e repetidos nas escolas, casas e nas igrejas.
Tornaram-se um exemplo franciscano da mais alta expressão do Belo sobre a maior festa da Cristandade.

Sobre o autor desta pequena joia já o disse de modo antológico outro grande entre nossos vates – Ivan Junqueira: “Seria muito difícil, senão mesmo ocioso ou impossível, dizer algo de novo sobre a poesia de Manuel Bandeira. Ensaístas e exegetas da mais alta linhagem nos precederam nessa empreitada e, a rigor, praticamente esgotaram o assunto…[i]

E para não incorrer na mesma “perda de tempo” sua, dileto leitor, e desse cronista – já me alerta meu infalível interlocutor invisível: “Vá direto ao assunto, mesmo que desagrade alguém em sua ‘meia-dúzia’ de leitores”.

Lá vou eu.
Em quatro crônicas restantes para fecharmos os trabalhos do dorido ano de 2017, voltar-me-ei à temática da Natividade na literatura brasileira.

Poesia e infância

Poema tornou-se um legado para todos que fazem do Menino nascido em Belém uma nova esperança; feito aquele nascido no Recife com sua evocação eterna

Começo com o menino Manuel Bandeira – que em seus “Versos de Natal” nos garante aquilo que muitos amigos do poeta afirmavam – “…Bandeira morreu menino. Puro como um menino. Um desses amigos – dos maiores e mais constantes, aliás – Dante Milano, afirmou certa vez que esse era “o segredo de Manuel, aquele menino, que supera todas as amarguras do seu espírito e da sua carne, e que dá saltos, cambalhotas, e enche de gritinhos e risinhos a sua poesia[ii]” – como nesses

Versos de Natal (1940)

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
Pôs o autor desses versos em cada estrofe, em cada linha do que compôs um pouco de musicalidade misturada àquilo que denominou o “conteúdo emocional das reminiscências de sua primeira infância” – é de Ivan Junqueira, apud Emanuel de Moraes[iii] a anotação que nos garante a consciência de Bandeira sobre o que fazia:

“A certa altura da vida vim a identificar essa emoção particular com outra – a de natureza artística. Desde esse momento, posso dizer que havia descoberto o segredo da poesia, o segredo do meu itinerário em poesia.” Daí deriva a definição manuelina de poeta: “Já se disse que o poeta é o homem que vê o mundo com olhos de criança, quer dizer: o homem que olha as coisas como se as visse pela primeira vez; que as olha em sua perene virgindade.”

“Pôr os seus chinelinhos atrás da porta” é decisão de um homem que se vai dando conta com a idade da finitude da vida e que, se só tem consciência plena do que está a construir ou do que deve construir, quando o vai fazendo; quando o vai construindo, com determinação e distante do olhar do mundo pejado de indiferença ou pronto para uma risada de escárnio ante o Poeta e sua realização poética.

“A nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!” – exclama Bandeira, como também o faz Alberto da Costa e Silva – que quer se manter “longe, bem longe do curral dos adultos”.

Vozes da noite

Manuel Bandeira: foi-se a infância, passaram a adolescência e a maturidade, veio a velhice

Claro me parece que a essa hora distante, no tempo de “A Cinza das Horas” (1917) “não havia o poeta adquirido ainda plena consciência daquele “menino”

[…] que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,

“como tampouco poderia supor o quanto iria ele interferir em sua obra. Há diversos poemas, inclusive, que não se teriam cumprido não fora a participação direta desse menino, pois que ouvidos senão os dele poderiam distinguir, naquelas “vozes da noite”, entre “o cloc cloc cloc” dos “quatro cãezinhos policiais bebendo água” e o da “saparia no brejo”? – pergunta Junqueira, que conclui: “Foi-se a infância, passaram a adolescência e a maturidade, veio a velhice.” Ao visitar a “velha chácara em que residira, o poeta lá encontraria apenas a voz de um riacho. A casa já não havia”:

 

Velha chácara[iv]

A casa era por aqui…
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida…nos desenganos…)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa…

– Mas o menino ainda existe.
(1944) – do livro “Lira dos Cinquent´anos.”

[v] Assim, “O Testamento de Pasárgada” tornou-se um legado para todos que fazem do Menino nascido em Belém uma nova esperança; feito aquele nascido no Recife com sua evocação eterna –; como para aqueles que a cada fim de ano (ou de troca de idade) reconstroem a esperança, com a precariedade de tudo que é Humano, deixada na salmoura da passagem do tempo, com os olhos voltados para o Eterno.
Seja porque humano, seja porque “tudo passa: o que não é eterno não é nada” (S. João Bosco).

*Adalberto de Queiroz, jornalista e poeta.
Autor de “Frágil Armação” (2ª. Edição; Caminhos, 2017) – e-mail : [email protected]

[i] BANDEIRA, Manuel (1886-1968). “Testamento de Pasárgada : antologia poética”; org. Ivan Junqueira. 3ª edição – S. Paulo : Global, 2014.
[ii] JUNQUEIRA. Ivan. Op. cit., pág. 321.
[iii] MORAES, Emanuel de. “Manuel Bandeira: análise e interpretação literária”. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962, cit. por Ivan Junqueira, op. cit.
[iv] BANDEIRA, Manuel. “Testamento de Pasárgada” – notas em aspas foram elaboradas pelo poeta Ivan Junqueira (1934-2014) sobre a poesia de Manuel Bandeira.
[v] Foto Manuel Bandeira, foto de Autor Desconhecido está licenciada.
© by htps://creativecommons.org/licenses/by/2.5/

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Nilson Jaime

Excelente texto, Adalberto de Queiroz. Rememorar Bandeira sempre traz lições sobre a simplicidade da vida.

ADALBERTO+DE+QUEIROZ

Obrigado, NILSON. A simplicidade da vida, os mistérios da alma – esta a essência do nosso grandessímo “poeta menor”, Manuel Bandeira.

ivani

Excelente Beto. Parabéns!

ADALBERTO+DE+QUEIROZ

Obrigado, Ivani Corrêa.

Ivanor Florêncio Mendonça

Bacana demais esse jornal nos presentear nesse natal com os belos textos do mestre Adalberto de Queiroz. Trazer Manoel Bandeira embalado com fita vermelha, numa caixa recheado de letras bem escritas é coisa de fino trato. É presente que alegra a mente e suaviza o coração. Obrigado aos três.

Zéllo Visconti

Maravilhado com o buquê de letras…desfile de pensamentos e personalidade no texto. Bravo Mr.Queiroz….de pé, aplaudo! Leio com emoção, obrigado pela postagem!