O calango que salvei da gata Cristal
27 junho 2026 às 08h00

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Saí pelo quintal da chácara à procura de uma saracura-três-potes que estava cantando. Poesia em estado bruto, sem necessidade de palavra. Se você, altaneiro leitor, ainda não ouviu o canto de uma, não morra sem escutar. Ouvir passarinhos cantar é um belo passatempo para pôr melodia na passagem do tempo. Riobaldo, o personagem rosiano, em conversa com Diadorim, descobriu a apreciação dos pássaros numa das muitas veredas que compõem o sertão:
— Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos voos e pousação.
Sempre gostei do nome dessa saracura. Há nomes populares de bichos que parecem pequenos poemas, e o da saracura é um deles. Vem do canto da ave um insistente “três-potes… três-potes… três-potes”. Fico imaginando quem foi a primeira pessoa a ouvir aquele canto e transformá-lo em nome. Bem que poderia existir um dicionário dedicado a esses registros anônimos, contando a origem dos nomes que o povo dá aos seres da natureza. Gosto também dos nomes dos bacuraus amanhã-eu-vou e joão-corta-pau. Há muitos outros nomes.
Enquanto caminhava à procura da ave, lembrei-me das muitas saracuras que existiam no Bosque dos Buritis. EXISTIAM. O verbo no passado pesa. Os gatos abandonados e soltos pelo parque fizeram a feira na carne delas. Há bem poucas por lá. Como as saracuras vivem no chão, tornam-se presas fáceis. O gato se esconde numa moita, espera a presa e salta certeiro. A natureza tem seus caçadores, mas os desequilíbrios criados pelos homens costumam cobrar um preço alto. Existe por lá uma senhora idosa que, na boquinha da noite, vai alimentar os gatos e assim prolongar os desequilíbrios. Além da ração que recebem diariamente, os felinos complementam o cardápio com saracuras e outras aves. Para essa senhora, ao que parece, basta apenas que os gatos estejam vivos; os demais bichos eles que se danem. Uma visão estreita e perigosa para a biodiversidade.

| Foto: Sinésio Dioliveira
Quando finalmente avistei a saracura da chácara, ela já havia interrompido o canto. Foi então que outra cena roubou a minha atenção. Cristal, uma gatinha da propriedade, brincava com um calango que acabara de capturar. Brincava, na verdade, é o modo de dizer. Dava-lhe sucessivas patadas. O pequeno lagarto tentava escapar sem sucesso. No ritmo em que as coisas iam, não demoraria para virar apenas mais uma vítima de Cristal.
Resolvi interferir. Aproximei-me da gata, chamando-a pelo nome, e consegui resgatar o calango, que estava suas patas. Levei-o para longe dali e o soltei. Ao vê-lo reunir toda a força das pernas para desaparecer entre as folhas secas, não resisti à brincadeira de adverti-lhe: “Você me deve a sua vida, meu rapaz.” Ele nem olhou para trás.
Meses depois, conversando por telefone com a amiga dona da chácara, perguntei-lhe por Cristal. Eu esperava ouvir alguma travessura recente, alguma nova caçada interrompida. Em vez disso, recebi uma notícia triste. A gatinha havia morrido. Provavelmente fora vítima de uma cobra, segundo minha amiga. Talvez tenha sido picada ao tentar fazer algum bicho o mesmo que fizera com o calango. Ela ficou sumida da casa uma semana, minha amiga procurou-as nas chácaras vizinhas e nada de notícia. Indo pescar no rio que passa no fundo da propriedade para pescar, seu genro sentiu um mau cheiro: era Cristal.
Depois dessa notícia, lembrei-me do pequeno lagarto dando o que tinha nas pernas e desaparecendo entre as folhas secas, carregando consigo uma vida que por pouco não terminou naquele dia. Cristal também desapareceu, mas por outro caminho. E fiquei pensando que a natureza não conhece favores nem privilégios. Hoje é o calango que escapa; amanhã, a gata que não volta. Entre um destino e outro, nós seguimos atravessando o mundo como podemos, devendo uns aos outros apenas o breve gesto de cuidado que, às vezes, nos é dado oferecer.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza



