Toda vez que sigo por um caminho em que a natureza é um componente significativo do destino, levo comigo uma certeza inspirada por Henry David Thoreau. Suas palavras me lembram que caminhar por um bosque é também caminhar para dentro de nós, em busca do essencial, dispostos a aprender com a vida antes que ela se transforme apenas em lembrança. Entendo que o pior mesmo é deixar o tempo passar sem verdadeiramente o viver e assim faltar azul para colorir a memória.

Em Walden ou A Vida nos Bosques, Thoreau escreveu: “Fui para o bosque porque queria viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido.” Este trecho foi eternizado também no belo filme Sociedade dos Poetas Mortos, cujo personagem professor John Keating foi vivido pelo ator Robin Williams.

Havia muito tempo que eu desejava conhecer o Santuário de Vida Silvestre Vagafogo, em Pirenópolis. Neste domingo, a vontade finalmente ganhou a estrada. Fui acompanhado de uma amiga, moradora da cidade e amiga de Evandro Ayer e Catarina Schiffer, fundadores daquele refúgio onde o Cerrado parece conservar o tempo em seu ritmo sublime. Depois de um brunch delicioso, entreguei-me às trilhas e segui adiante como quem visita uma catedral erguida pela própria natureza, em que cada árvore sustenta um teto verde e o silêncio convida à contemplação. Na verdade, não era um silêncio pleno, pois havia folhas caindo chão com o início da estiagem (o que é uma estratégia da natureza nessa época do ano para poupar a vida das árvores no período da seca) e o rumorejar da água do córrego caminhando entre as pedras.

Uma das trilhas do Santuário de Vida Silvestre Vagafogo, criado pelo casal Evandro e Catarina | Foto: Sinésio Dioliveira

Foi numa dessas trilhas que encontrei três formigas-cabo-verde em combate, certamente pertencentes a colônias diferentes. A ferroada dessa espécie é muito dolorosa. As três se enfrentavam com uma determinação impressionante, sem perceber que a sua batalha já havia chamado outro personagem para a cena. Na verdade, um inimigo perigoso das três.

Durante o confronto, as formigas liberavam feromônios de alarme e o odor das feridas. Esses sinais químicos atraíram as moscas forídeas, que são donas de um olfato extraordinário. A fêmea age veloz. Aproveita um descuido, pousa por um instante sobre a formiga e rapidamente deposita um ovo dentro de seu corpo, quase sempre nas regiões lesionadas das escaramuças.

As moscas não enfrentavam as guerreiras. Seriam incapazes disso. São pequeninas perto das brigonas. Esperavam apenas o momento mais oportuno para agir. Sua sobrevivência depende justamente das batalhas alheias. As larvas que nascem desses ovos desenvolvem se alimentando do corpo da formiga.
Continuei a caminhada com a sensação de que, de vez em quando, a natureza resolve falar de nós. Muitas vezes chega a gritar. Também entre os humanos existem as moscas forídeas. Não criam os conflitos, mas sabem reconhecê-los de longe. Esperam que alguém esteja ocupado demais lutando, enfraquecido pelas próprias feridas, para então se aproximarem em silêncio. Não chegam empunhando armas nem levantando a voz. Pousam discretamente sobre a dor alheia e fazem dela a oportunidade de que precisavam.

Como bem disse João Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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