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O homem de 7 vitórias consecutivas nas urnas

Marconi Perillo vem ganhando eleições desde 1990, o que mostra profunda afinidade com o eleitorado goiano por mais de duas décadas

Um professor de perder eleição

Nesta campanha, Iris Rezende repete o receituário de como não ganhar disputa eleitoral. Confirmando o que dizem as pesquisas, será a 3ª derrota em confrontos diretos com Marconi

O que há além da margem de erro

Em todas as eleições, os institutos de pesquisa se tornam alvos preferenciais por apresentarem informações que não se confirmam nas urnas. De quem é o erro?

O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça

O jornalista e escritor Klester Cavalcanti conta a história de Júlio Santana, que matou quase 500 pessoas, entre elas a guerrilheira Maria Lúcia Petit, crianças, mulheres e o sindicalista goiano Nativo da Natividade (no mandato de Iris Rezende e Onofre Quinan). Ele feriu José Genoino, na Guerrilha do Araguaia “Só mato quando me pagam para matar.” Júlio Santana [caption id="attachment_18931" align="alignleft" width="350"]“O Nome da Morte” mostra que a realidade pode ser tão ou mais virulenta do que obras literárias. Fiódor Dostoiévski possivelmente ficaria interessado na história do assassino brasileiro Júlio Santana “O Nome da Morte” mostra que a realidade pode ser tão ou mais virulenta do que obras literárias. Fiódor Dostoiévski possivelmente ficaria interessado na história do assassino brasileiro Júlio Santana[/caption] O livro “O Nome da Mor­te — A História Real de Júlio Santana, O Homem que Já Ma­tou 492 Pessoas” (Editora Planeta, 245 páginas), do jornalista Klester Cavalcanti, ex-repórter da “Veja”, contém histórias impressionantes e muito bem-contadas. Persistente, Klester demorou sete anos para convencer Júlio Santana, o Julão, hoje com 60 anos, a relatar sua história. O assassino serial começou a matar aos 17 anos, ajudou a prender José Genoino Neto e matou Maria Lúcia Petit, na Guerrilha do Araguaia, em 1972. Mais tarde, matou, em Goiás, o sindicalista Nativo da Natividade e um homem não identificado no livro em Porangatu, Norte do Estado. Leitores menos atentos podem alegar que o repórter trata um “monstro” como se fosse um ser humano “normal”. É um engano. Se tivesse tentado mostrar Júlio Santana como “monstro”, primeiro, a história não teria sido contada; depois, a tentativa de demonização não seria útil para compreender a personagem que, apesar de tudo, é muito rica. Ao mostrar, mais do que demonstrar, Klester julga o assassino, ou melhor, o julgamento é a narrativa de sua história. O romance “Crime e Castigo”, do escritor russo Fiódor Dostoié­vski, conta a história de Raskól­ni­kov, o jovem que mata duas mulheres e tenta justificar os crimes filosoficamente. Mesmo sendo ficção, a história é espantosa. O livro de Klester prova que a realidade pode superar a ficção. Nem mesmo Dostoiévski, um escritor que tinha um instinto especial para descrever as misérias humanas, seria capaz de imaginar Júlio Santana. Raskólnikov é frango de granja perto de Júlio Santana. Aos 17 anos, Júlio Santana tinha 1,76m e era excelente atirador (“aos 11 anos, o garoto já conseguia acertar um animal ‘do outro lado do rio’”, o Tocantins, “a uma distância de cerca de 100 metros”). A família vivia do que pescava e caçava em Porto Franco, à beira do Rio Tocantins, no Estado do Maranhão. Em agosto de 1971, o jovem recebe a visita do tio Cícero Santana, de 31 anos, que dizia ser policial militar. Pistoleiro, Cícero havia sido contratado para matar Antônio Martins, o Amarelo. Marcos Lima, pai de uma garota de 13 anos que havia sido estuprada por Amarelo, pagou para Cícero liquidá-lo. Com malária, Cícero não tinha condições físicas de matar Ama­relo, mas, como já havia recebido parte da recompensa, decidiu convencer Júlio a substituí-lo. “Tio, eu não quero saber de nada disso. Eu não vou matar ninguém. Até agora, não consigo acreditar que o senhor está me pedindo um negócio desse. Quer que eu vire um assassino como o senhor? Deus me livre”, disse Júlio. Pressionado por Cícero, a quem admirava, Júlio aceitou matar Amarelo: “Está bem, tio. Eu vou fazer esse serviço para o senhor. Mas nunca mais me peça uma coisa dessas”. Mesmo assim, o garoto relutou. O tio insistiu: “Depois de matar Amarelo, é só você pedir perdão a Deus e Ele vai perdoar”. Aproveitando que o adolescente ficou confuso, Cícero continuou: “Deus perdoa tudo, Julão. (...) Amanhã, depois de matar Amarelo, você volta para casa e reza dez ave-marias e 20 pai-nossos. Assim, eu garanto que você estará perdoado”. Depois da conversa, Júlio seguiu para a mata e, após relutar muito, atirou em Amarelo, matando-o. Ao se encontrar com o tio, disse, profundamente abalado: “Só quero esquecer essa desgraça toda. E nunca mais venha conversar comigo sobre esse negócio de matar gente para ganhar dinheiro. Não quero nem ouvir falar nesse tipo de coisa”. Deitado numa rede, prometeu a Deus: “Nunca mais vou matar ninguém na minha vida, Senhor. Nunca mais”. Leia Mais: Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

A repetição dos mesmos erros de avaliação

Pela quinta vez consecutiva, os opositores chegam às urnas prevendo mais uma derrota. O que faltou?

O fim da eleição poderá despertar ideias de controle pelo PT adormecidas no Planalto

Campanha de ódio petista pode desengavetar o controle da mídia, colocar em ação os conselhos sociais e estimular a reforma política em benefício próprio

Sem pudor, a viagem eleitoral de Dilma a Pernambuco foi um artifício que burlou a regra

[caption id="attachment_18950" align="alignleft" width="300"]Candidata Dilma Rousseff em comício bancado pelo dinheiro público Candidata Dilma Rousseff em comício bancado pelo dinheiro público[/caption] Há mais de um mês a agenda da presidente Dilma estava em branco no Planalto. A dedicação presidencial era toda da campanha pela reeleição. O último registro era de 19 de setembro, quando a candidata foi ao escritório receber um grupo de atletas. Após 32 dias, Dilma mandou colocar na agenda presidencial a visita, na terça-feira, a Goiana, em Pernambuco. Com isso, o novo voo eleitoral ao Nordeste se tornou programa oficial: uma visita a trabalho da presidente à fábrica local da Fiat. A viagem em campanha não foi paga pelo PT. A conta coube ao governo, com pompa e circunstância. O partido não pagou, mas fez a festa. A visita de Dilma, com discurso de campanha, ocorreu entre um mar de bandeiras petistas agitadas por fãs com camisas também em vermelho. A burla permitiu a Dilma tripudiar em cima de seu rival a presidente, o tucano Aécio Neves. Coisa do Lula, que apareceu em Goiana para se juntar àquela espécie de comitiva presidencial. Ele era presidente, em 2009, quando acertou com a Fiat que a fábrica seria em Pernambuco, sua terra. Passou para trás o então governador Aécio, que se empenhou para a empresa fincar em Minas, aonde chegou em 1976, todas as suas unidades. Na véspera da viagem a Goia­na, Lula ofereceu uma entrevista por telefone a rádio de Recife. Era para tirar sarro, conspirar contra o presidenciável tucano e gabar-se de seu poder a favor do Nordeste, onde o PT apresenta Aécio como inimigo lá no Sul Maravilha. Lula repetiu, por telefone, a história sobre como deixou o mineiro a ver navios, ops, automóveis. Em campanha, o ex aproveitou a entrevista para se opor à proposta do desafiante tucano a favor da troca da reeleição por um único mandato de cinco anos. “Dois mandatos de quatro anos são o suficiente”, rebateu, fez as contas e demonstrou, com meio disfarce, que poderia voltar ao Planalto dentro de quatro anos. “Quando chegar em 2018, eu terei 72 anos e tenho fé em Deus que o Brasil vai produzir quadros novos, jovens”, disfarçou, como se pudesse não ser candidato a presidente mais vezes. “A gente faz política, eu não sei como será o contexto político daqui a quatro anos”, deixou a porta aberta a uma convocação das massas pela volta. Naquele mesmo dia da entrevista, ministros do Supremo Tribunal Federal nomeados por Lula e Dilma se manifestaram, no Rio, sobre a reforma do sistema político-eleitoral, mas não se pronunciaram sobre a manutenção da reeleição que o PT de Lula defende para esticar a permanência do partido no poder.

Nadine Gordimer critica obsessão de escritores latino-americanos pela figura do ditador

[caption id="attachment_18925" align="alignleft" width="350"]Nadine Gordimer: a escritora percebe Jorge Luis Borges como sucessor de Kafka e diz que a literatura de Alejo Carpentier é maravilhosa / Foto: Berthold Stadler/Publico Nadine Gordimer: a escritora percebe Jorge Luis Borges como sucessor de Kafka e diz que a literatura de Alejo Carpentier é maravilhosa / Foto: Berthold Stadler/Publico[/caption] Numa entrevista a Jannika Hurwitt, da “Paris Review” (publicada no livro “Os Escritores — As Históricas Entrevistas da Paris Review”, Companhia das Letras, 327 páginas, tradução de Alberto Alexandre Martins e Beth Vieira), a escritora sul-africana Nadine Gordimer (1923-2014) acerta e erra sobre a literatura latino-americana. “O tema entre os escritores latino-americanos dignos de nota é o ditador corrupto. No entanto, apesar da repetição do tema, eu a considero a ficção mais excitante que está sendo escrita no mundo hoje em dia” (entre 1979 e 1980). Jannika Hurwitt pede que mencione quais escritores latino-americanos são mais interessantes. “Gárcia Márquez, é claro. Nem é necessário citar [Jorge Luis] Borges. Borges é o único sucessor vivo de Franz Kafka [o autor argentino morreu em 1986]. Alejo Carpentier era absolutamente maravilhoso. ‘O Reino Deste Mundo’ é um livrinho delicioso... é brilhante. Há também Carlos Fuentes, um escritor magnífico. Mario Vargas Llosa. E Manuel Puig. [...] Mas há sempre esse tema obsessivo — o ditador corrupto. Todos eles escrevem sobre isso; são obcecados por isso”. Não há o que contestar: os autores citados são do primeiro time e escreveram sobre ditadores. Algumas das estrelas do chamado boom latino-americano chegaram a se reunir para escrever sobre o assunto, mas não publicaram romances e contos apenas a respeito disso. Há as injustiças de praxe. Le­zama Lima (1910-1976), maior escritor cubano, não é mencionado. Nadine Gordimer concedeu a entrevista dois anos depois de sua morte. “Paradiso”, seu notável romance — Laurence Sterne certamente o leria com prazer —, não merece a mínima referência e seu tema não é o mesmo de alguns romances de García Márquez (“O Outono do Patriarca”) e Vargas Llosa (“Conversa no Catedral”). O uruguaio Juan Carlos Onetti, autor de “Junta-Cadávares” e “A Vida Breve”, é esquecido. Guimarães Rosa, autor de “Sagarana” e “Grande Sertão: Veredas”, não merece um comentariozinho. Ele morreu em 1967, doze anos depois da entrevista. O pesquisador alemão Willi Bolle diz que a opus magna de Guimarães Rosa é uma resposta literária à história do Brasil. Deve ser. Mas, para além de ser uma réplica histórica, é um romance no qual personagens, gigantes e, até, épicos, são rivais e, ao mesmo tempo, complementos da linguagem. Assim como a obra de Lezama Lima. Clarice Lispector, autora de uma obra cada vez mais valorizada no exterior, morreu em 1976, dois anos antes da entrevista. Com algum esforço, Nadine Gordimer poderia ter lido traduções dos quatro autores latino-americanos. É possível que, mais tarde, tenha lido autores brasileiros. Numa coletânea recente de seus ensaios e resenhas não encontrei referência à literatura patropi. Quando entrevistado, o americano Philip Roth, de 81 anos, tem o hábito de dizer que está relendo clássicos, raramente citando autores vivos, e lendo livros de história. Às vezes, menciona Saul Bellow, John Updike e Primo Levi, coincidentemente, todos mortos. Outros autores dizem a mesma coisa. Menos Nadine Gordimer: “Muitos escritores dizem que não leem outros escritores, os contemporâneos. Se é verdade, é uma grande pena”. Leitora apaixonada de D. H. Lawrence, Hemingway e Virginia Woolf, Nadine Gordimer afirma que, “em fases diferentes” de sua vida, foi “psicologicamente dependente de diversos escritores”. A tal angústia da influência citada pelo crítico Harold Bloom. [caption id="attachment_18927" align="alignleft" width="620"]Layout 1 Fotos: Wikipédia Commons[/caption] Ao escrever contos, a autora de “Uma Mulher Sem Igual” admite que sofreu forte influência de escritoras do Sul dos Estados Unidos. “Eudora Welty foi uma grande influência para mim.” É uma “contista sublime”. “Katherine Anne Porter me influenciou. Faulkner. Sim. Mas, outra vez, a gente mente, porque, tenho certeza de que, quando estávamos ensaiando o bê-á-bá da arte do conto, Hemingway deve ter influenciado todo mundo que começou a escrever no fim da década de 1940, como eu. Proust tem sido uma influência em mim, durante toda a minha vida — uma influência tão profunda que me assusta... não apenas nos meus escritos, mas nas minhas atitudes com relação à vida. Mais tarde vieram Camus, que foi também uma influência bem forte, e Thomas Mann, que passei a admirar mais e mais. E. M. Forster, quando era moça. E ainda acho ‘Passagem Para a Índia’ um livro absolutamente ma­ravilhoso, que não pode ser assassinado ao ser ensinado nas universidades.” O que a autora quis dizer? Não fica claro. Talvez, como Harold Bloom, temesse os estudos de gênero ou as interpretações politicamente corretas, que às vezes retalham e mandam para o ostracismo obras complexas mas que não cabem em alguns figurinos políticos, ideológicos e intelectuais. O choque cultural entre indianos e ingleses, exibido com mestria e abertura por Forster, pode ser interpretado de maneira simplista pelos policiais-acadêmicos do politicamente correto. Como Hemingway, com sua prosa telegráfica, influenciou a autora de “Beethoven era 1/16 Negro — E Outros Contos”? “Ah, através dos seus contos. A redução e também o uso do diálogo. [...] Os contos são uma excelente disciplina contra o excesso de palavas. [...] Hoje penso que uma grande falha nos contos de Hemingway é a onipresença da voz de Hemingway. As pessoas não falam por si mesmas, em seus próprios esquemas de pensamento; elas falam como Hemin­gway. O ‘disse ele’, ‘disse ela’ da o­bra de Hemingway. Cortei essas atribuições dos meus romances há mui­to tempo. Algumas pessoas se quei­xam que isso torna os meus romances difíceis de serem lidos. Mas não me importo. Simplesmente não consigo mais suportar disse-ele/disse-ela. E se não consigo fazer com que os leitores saibam quem está falando pelo tom de voz, os tor­neios da frase, bom, então fracassei.” O monólogo interior, tão caro aos escritores modernos, é utilizado por Nadine Gordimer. “Uma espécie de monólogo interior que fica pulando de um lado para outro, de diferentes pontos de vista. Em ‘O Amante da Natureza’, às vezes é Mehring falando de dentro de si mesmo, observando, e às vezes é um ponto de vista totalmente desapaixonado do exterior.” A entrevistadora sugere que há semelhança entre “A Filha de Burger” e o romance “Enquanto Agonizo”, de William Faulkner. Nada a ver, ressalva Nadine Gordimer. Os estilos são diversos. “Foi Proust quem disse que estilo é o momento de identificação entre o escritor e a sua situação. Idealmente isso é o que deveria ser — permitir que a situação dite o estilo.” O autor na maioria das vezes não é o melhor crítico de seus próprios livros. Mas alguns críticos costumam exagerar nas suas interpretações. Conor Cruise O’Brien, numa resenha de “A Filha de Burger”, ressaltou a arquitetura supostamente muito arrumadinha do romance. Nadine Gordimer discorda: “Muito pouco da construção é objetivamente concebido. Ela é orgânica, instintiva e subconsciente. [...] Não sei, antes de escrever, como vou fazer, e sempre receio não ser capaz de fazê-lo”. A morte é apontada como um tema obsessivo para a autora de “Tempos de Reflexão — 1990-2008” (ensaios e resenhas). “A morte”, diz, “é realmente o mistério da vida. [...] Dizemos que é terrível se as pessoas morrem jovens, e que é terrível se continuam a viver por tempo demais”. Jannika insiste para que a escritora discuta sexo e literatura. Mas Nadine Gordimer corta o barato da entrevistadora, pois considera os escritores como “seres andróginos”. “Em literatura, o sexo não importa; é a literatura que importa.” O que vale é a qualidade da prosa do autor, não se é homem ou mulher.

Olga Savary faz prefácio fraco para Paradiso mas tradução é de qualidade

[caption id="attachment_18920" align="alignleft" width="300"]“Paradiso”: o romance de Lezama Lima é a obra-prima máxima da literatura cubana “Paradiso”: o romance de Lezama Lima é a obra-prima máxima da literatura cubana[/caption] Estou iniciando a leitura de “Paradiso” (Martins Fontes, 623 páginas), de José Lezama Lima (1910-1976), na tradução da poeta Olga Savary. Não se trata de um trabalho inepto. De fato, é muito difícil traduzir o escritor cubano para qualquer língua. Ao profissional não basta saber, e muito bem, as línguas Espanhola, o ponto de partida, e Portuguesa, o ponto de chegada. Precisa travar uma verdadeira guerra para tornar uma obra enviesada, pouco “fluente”, num texto legível mas não simplista. Nós, brasileiros, temos o hábito de achar que o espanhol é uma espécie de português com defeito e, por isso, seria fácil traduzir de uma língua para a outra. Não é bem assim. As duas línguas são hermanas, sim, mas são como Caim e Abel. As dificuldades são maiores exatamente porque parece fácil traduzir de uma para a outra. Traduzir significa ganhar e perder. Mas, sem as traduções, as pessoas deixariam de ler as principais obras-primas da literatura internacional. Ao comparar o original com a versão de Olga Savary, é preciso considerar duas coisas. Primeiro, a perícia da tradutora é flagrante. Segundo, o fato de existir outra tradução, de Josely Vianna Baptista, certamente facilitou o trabalho de Olga Savary. Não estou sugerindo que a poeta copiou e inspirou-se no trabalho precedente da também poeta Josely Vianna Bap­tista. É possível que, para não se in­fluenciar, a segunda tradutora não te­nha examinado a versão anterior. Porém, se o fez, e isto é correto, às vezes decisivo, pôde encontrar outras soluções, adequar e melhorar frases, palavras, expressões e sentidos. [caption id="attachment_18921" align="alignleft" width="250"]Lezama Lima: Brasil ganha duas traduções do mais importante romance de Cuba, “Paradiso” / Foto: Wikipédia Commons Lezama Lima: Brasil ganha duas traduções do mais importante romance de Cuba, “Paradiso” / Foto: Wikipédia Commons[/caption] Observe-se que, na nova tradução que fez para a editora Estação Liberdade, Josely Vianna Baptista recriou “Paradiso”. Porque há novos estudos sobre a obra, ex­plorando nuances que haviam sido pouco percebidas, e a tradutora está mais experiente e atenta às filigranas da Língua Espanhola e à prosa de Lezama Lima. Perce­be-se, numa comparação rápida en­tre os empreendimentos hercúleos das duas poetas, que, aqui e ali, há mais “fluência” no trabalho de Josely Vianna Baptista. Porém, no caso, fluência não tem a ver com tornar o texto mais pedestre, simplificado, e sim mais preciso em português — criando, por assim dizer, um texto em português (quase) tão rico quanto o texto em espanhol. É um tour de force. É rico um país que tem duas traduções de alta qualidade de uma obra-prima seminal como “Paradiso”. Há probleminhas na edição da Martins Fontes, a que, no momento, examino com mais cuidado. O prefácio de quatro páginas de Olga Savary nada acrescenta — só contém platitudes e autoelogios —, prendendo-se demasiadamente a um texto de Julio Cortázar. Um trecho do comentário do escritor argentino é repetido duas vezes, o que sugere uma revisão descuidada. O sumário cita o “prefácio” e o texto “Convite a ‘Paradiso’”, mas seus autores não são mencionados, exceto no final deles. A apresentação, bem feita, é de autoria de Cintio Vitier, coordenador da edição crítica do romance. Uma reclamação tem a ver mais com o fato de que como manuseio muito certos livros, como “Paradiso” — a leitura é mais lenta, para não perder as filigranas —, as capas que não têm orelhas acabam por ter as pontas dobradas. Livros grossos, com mais de 600 páginas, exigem orelhas protetoras. De resto, até agora, não há muito do que reclamar.

Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro

[caption id="attachment_18917" align="alignleft" width="300"]Nativo da Natividade: o importante sindicalista rural foi assassinado  a mando de um político de Carmo do Rio Verde, em Goiás, em 1985 / Foto: Reprodução Nativo da Natividade: o importante sindicalista rural foi assassinado a mando de um político de Carmo do Rio Verde, em Goiás, em 1985 / Foto: Reprodução[/caption] No caderno de Júlio Santana está (ou estava) escrito: “Matar Na­ti­vo da Natividade (presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais) em Carmo do Rio Verde, Goiás. Man­dante, prefeito Roberto Pas­coal. Contato na cidade, Genésio. Pa­gamento, 2 milhões de cruzeiros”. Em 1985, Júlio morava em Por­to Franco, com sua mulher, quando foi procurado pelo tio Cícero Santana para fazer um serviço: matar o sindicalista goiano Nativo da Natividade. “A mulher de Júlio odiava Cícero. Dizia que o tio era o culpado por ele levar aquela vida desgraçada de matador. Júlio sempre rebatia. Dizia que entrou para a pistolagem por vontade própria. Queria ganhar dinheiro e viver grandes aventuras. O tio havia apenas o ajudado a fazer o que desejava.” O relato de Klester Cavalcanti: “Numa conversa que não demorou mais de 10 minutos, Cícero passou todo o serviço ao sobrinho. Ele teria de matar Nativo da Natividade, presidente do Sindicato dos Trabalha­dores Rurais de Carmo do Rio Verde, no interior de Goiás. O mandante do crime era o prefeito da cidade, Roberto Pascoal, que se dizia incomodado com a influência política de Nativo na região e, principalmente, com os boatos de que o sindicalista seria candidato a prefeito nas eleições municipais de 1988. Quando contatou Cícero, Roberto Pascoal disse que queria eliminar Nativo antes que ele ganhasse ainda mais força e projeção”. A mando de Roberto Pascoal, Genésio buscou Júlio em Brasília e o levou para Carmo do Rio Verde. “Pelo trabalho, receberia 2 milhões de cruzeiros — pouco mais do que três salários mínimos da época, que era de 600 mil cruzeiros.” Júlio tinha 31 anos. Genésio disse ao pistoleiro que ele mesmo poderia fazer o trabalho. “E por que não fez?”, perguntou Júlio. “O prefeito disse que era mais seguro trazer um matador de fora, para não levantar suspeitas sobre ele”, explicou Genésio. Nativo, informou-se Júlio, era casado e pai de dois filhos pequenos. Tinha 33 anos. “Muito pacato, só saía de casa para ir ao sindicato ou a alguma reunião de agricultores.” O motorista Pelé, num Fusca azul, levou Júlio para conhecer o sindicato onde Nativo atuava. Informado dos hábitos de Nativo, Júlio decidiu matá-lo quando estivesse voltando para casa. “Eram quase 7 horas da noite quando o carro do sindicalista apareceu na esquina. Júlio ajeitou o chapéu de palha para esconder o rosto e ficou de pé. Caminhava lentamente, no lado oposto da rua, na direção da casa de Nativo. Tirou o revólver da cintura no mesmo instante em que o carro parou. Estava a uns 20 metros do homem. Mas queria chegar mais perto, para acertar o tiro na cabeça. O sindicalista estava tranquilo. Nem desconfiava que estava prestes a morrer”, escreve Klester. “Nativo andava devagar, a caminho da porta”, relata Klester. “Do outro lado da rua, a uns 10 metros de distância, Júlio o tinha na mira de seu revólver. Estava puxando o gatilho quando viu uma menina de uns 5 ou 6 anos abrir a porta e correr, sorrindo, na direção do pai. Não teria coragem de matar um homem diante dos olhos da própria filha. Imediata­mente, apontou a arma para o chão. O sindicalista agachou-se e pegou a menina nos braços. Júlio ainda viu quando os dois se beijaram pouco antes de entrarem em casa.” No dia seguinte, Júlio saiu à caça de Nativo. Este voltou para o sindicato à noite e foi seguido pelo pistoleiro. [Júlio] “Chegou na porta do carro de Nativo antes que ele saísse. Apontou a arma para a cabeça do sindicalista. O homem reagiu, segurando o braço direito de Júlio com as duas mãos. Durante o embate, ele puxou o gatilho quatro vezes — os exames feitos no cadáver encontraram três perfurações no tórax e uma no pescoço. Só parou de atirar quando teve certeza de que Nativo estava morto (em 1996, 11 anos após o episódio, o prefeito Roberto Pascoal foi julgado como mandante do crime, e absolvido).” Promo­tores, juízes e advogados que atuaram no caso têm o dever de ler as informações do livro de Klester. Trata-se do próprio pistoleiro revelando quem encomendou o crime e mostra como este foi feito. Crime cometido, Júlio foi levado para Brasília numa ambulância. Genésio disse: “Acho que, agora, concordo com o prefeito. Você fez por merecer os 6 milhões de cruzeiros pelo serviço”. Cícero havia passado o sobrinho para trás. Para matar Nativo, Júlio recebeu “apenas” 2 milhões de cruzeiros. Em Imperatriz, ao se encontrar com o tio, Júlio ameaçou matá-lo. Cí­cero disse: “Já parou para pensar que você deve tudo o que tem a mim? Se não fosse por mim, você não teria nada, Julão! Você não seria ninguém”. Júlio replicou, gritando: “Grande vida de merda essa que o senhor me deu. Eu sou um assassino, tio. Ganho a vida matando gente. E o senhor tem coragem de dizer que isso é bom”. Cícero morreu em 1993, aos 53 anos, e o sobrinho descobriu que, ao contrário do que todos na sua família acreditavam, não era policial militar. Júlio também se passava por policial militar. Detalhe: o maior assassino do Bra­sil agiu livremente em Goiás no mandato dos governadores Iris Re­zende e Onofre Quinan — matando pessoas no Estado — e os peemedebistas-chefes não conseguiram, nem tentaram, prendê-lo. (E. F. B.) Leia Mais: O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino

[caption id="attachment_18915" align="alignleft" width="620"]José Genoino, guerrilheiro do PC do B: preso, em 1972, por militares do Exército, na região do Araguaia / Foto: O Globo José Genoino, guerrilheiro do PC do B: preso, em 1972, por militares do Exército, na região do Araguaia / Foto: O Globo[/caption] Em 1972, aos 17 anos, convencido pelo tio Cícero Santana, Júlio Santana aceitou trabalhar na equipe do delegado de Xambioá, o sargento da Polícia Militar de Goiás Carlos Teixeira Marra, como guia ou mateiro. Exímio conhecedor dos “segredos” da floresta amazônica, Júlio seria utilizado para caçar integrantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Ele nem sabia o que era comunista, nunca tinha visto um automóvel, não conhecia energia elétrica e seu sonho era tomar Coca-Cola. Ao ver um helicóptero, pensou: “Como essa trepeça pode voar?”. Como uma personagem de García Márquez, “achou delicioso tomar água gelada. ‘Parece que a língua fica adormecida’”. No início da Guerrilha do Araguaia, os militares queriam capturar e não matar os militantes do PC do B. Eles buscavam informações sobre as forças de esquerda. Por isso, Carlos Marra avisou aos soldados e Júlio: “Se a gente encontrar algum guerrilheiro, é para capturar o cabra vivo. Não é para matar ninguém. Quero o sujeito vivo, para ele contar onde os outros guerrilheiros se escondem”. Júlio ficou aliviado, pois não queria matar. Na selva, além de orientar os soldados, Júlio tinha a missão de achar alimentos para a tropa. “Matou um macaco, uma garça e uma onça-pintada. A carne musculosa e repleta de nervos do felino não agradou a ninguém.” [caption id="attachment_393930" align="aligncenter" width="378"] Corpo de Maria Lúcia Petit: a guerrilheira foi morta na região do Araguaia | Foto: Reprodução[/caption] Em 11 de abril de 1972, como integrante da equipe do delegado Marra, Júlio colaborou na prisão de José Genoino Neto. O grupo era constituído de Marra, Ricardo, Emanuel, Forel, Júlio e Tonho (um negro musculoso). Marra patrocinou um “campeonato” de tiro e Júlio ganhou com facilidade e, por isso, obteve a primazia de atirar primeiro num guerrilheiro. Na mata, Júlio localizou José Genoino e alertou Marra: “Estou vendo um sujeito lá na frente”. Ao ser abordado, o guerrilheiro, que usava o nome de Geraldo, disse ao delegado que era “apenas um agricultor”. Logo depois, mesmo com as mãos amarradas, conseguiu fugir. O militar pediu que parasse. “Vou mandar abrir fogo, Geraldo”, gritou Marra. “Pode atirar”, respondeu Genoino. Irritado, Marra ordenou: “Julão, derruba o cara. (...) Mas lembre que eu quero ele vivo”. Júlio atirou e acertou, de raspão, o ombro direito de José Genoino. Recapturado, José Genoino, segundo a versão de Júlio, foi torturado pelo militares — chegaram a queimar suas pernas. Mesmo assim, respondia: “Não sei de nada, delegado”. Sem aprovar as torturas, Júlio disse para José Genoino: “Rapaz, fala logo tudo o que você sabe. Você vai acabar morrendo de tanto apanhar”. José Genoino respondeu: “Mas eu não sei de nada. Não estou mentindo”. Estava mentindo, é claro. Ouvido por Klester Cavalcanti, o petista confirma o diálogo: “Diante de tanto sofrimento e agonia, agradava-lhe a ideia de que ao menos um de seus algozes preocupava-se com a sua integridade”. Na versão de Júlio, José Genoino não entregou seus companheiros. Em maio de 1972, Júlio viu o corpo do guerrilheiro Bérgson Farias sendo chutado por militares. Assistiu o barqueiro Lourival Moura, aliado dos guerrilheiros, ser torturado até a morte. Júlio disse a Klester que não gostou do que viu. No início de junho de 1972, os militares acuaram os guerrilheiros Miguel Pereira, o Cazuza, Rosalindo Souza, o Mundico (que teria sido justiçado pelos companheiros), e Maria Lúcia Petit da Silva, a Maria. Marra gritou para Júlio: “Derruba um deles. Pelo menos, um”. Júlio mirou no ombro de um guerrilheiro e atirou. “Por causa do ferimento na perna direita, o comunista machucado inclinou-se para o lado direito e dobrou levemente os joelhos. Esses movimentos fizeram com que o tiro, que deveria pegar no ombro, o atingisse na cabeça, do lado esquerdo. O corpo caiu no solo e ali ficou, sem mover-se. Júlio sabia o que tinha acontecido. Quis não acreditar que acabara de matar mais uma pessoa”, relata Klester. Quando ouviu que havia matado uma “moça”, Júlio ficou ainda mais perturbado. Marra o recriminou: “Não era para matar, Julão”. Detalhe: a história relatada por Klester não estava registrada — até 2006 — em nenhum outro livro sobre a Guerrilha do Araguaia. Trata-se de um furo de reportagem publicado em livro. “Mata! — O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia” (Companhia das Letras, 443 páginas, publicado em 2012), do jornalista Leonencio Nossa, relata: “João Coioió e a mulher, Lazinha, posseiros amigos de Maria Lúcia Petit, contaram ao delegado Marra que a guerrilheira apareceria no sítio, na manhã seguinte, para buscar mantimentos que o casal tinha comprado a seu pedido. Marra e um grupo de soldados fizeram tocaia dentro da casa. Maria Lúcia se aproximou do sítio. Estava acompanhada de Cazuza e Mundico, que a ajudaria a carregar a compra. Um homem da equipe do delegado, Júlio Santana, de dezoito anos [na verdade, tinha 17], atirou nos guerrilheiros, acertando a cabeça de Maria Lúcia. Cazuza e Mundico escaparam”. A fonte da informação é Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, um dos militares mais bem informados sobre a Guerrilha do Araguaia. Os depoimentos de um dos algozes dos guerrilheiros do PC do B e de alguns moradores da região confirmam a versão de Júlio Santana. Pelos serviços prestados ao Exército, Júlio recebeu 1.200 cruzeiros, cerca de cinco salários mínimos da época, e ganhou uma farda. Parece ter ficado mais feliz com o fardamento do que com o dinheiro. (E.F.B.) Leia Mais: O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

As denúncias de corrupção antecipam sugestões do Supremo sobre a reforma política

[caption id="attachment_18948" align="alignleft" width="248"]Dias Toffoli, presidente do TSE: ex-advogado do PT vive drama de definir questão que afetava o partido | Foto: Ricardo Setti/STF Dias Toffoli, presidente do TSE: ex-advogado do PT vive drama de definir questão que afetava o partido | Foto: Ricardo Setti/STF[/caption] A mudança no jogo entre as relações eleitorais e políticas deve criar o financiamento público a campanhas? O PT é a favor, para todos os partidos. Ironicamente, hoje os petistas e seus aliados são os grandes beneficiados pelo dinheiro público, desviado em movimentos escusos para financiar também candidatos, além de deixar algum a quem opera o sistema. Na mesma segunda-feira em que Lula telefonou de São Paulo para a rádio em Recife e falou da reforma, o ministro da Justiça, companheiro José Eduardo Cardozo, ofereceu declarações, no Rio, em defesa da mudança: “Se queremos um Estado de direito legitimado, temos uma tarefa inadiável: a reforma política. Não é possível conviver com um sistema (político-eleitoral) que, pelas formas de financiamento, gera corrupção estrutural. Isso não pode mais ser aceito entre nós.” Lula não mencionou financiamento eleitoral, nem Cardozo disse algo sobre reeleição. A diferença é que Cardozo se levou pelo auditório onde estava, numa conferência nacional de advogados promovida pela OAB. Ali, uma sombra pairava sobre todos: as denúncias sobre corrupção do governo que contaminaram a reeleição presidencial. Cardozo pegava carona numa parte da ramificação governista do Supremo Tribunal Federal que se apresentou na reunião. Autor de uma palestra por encomenda da OAB, o ministro Luís Roberto Barroso, nomeado pela candidata Dilma Rousseff, recomendou ao futuro presidente, fosse quem fosse, uma receita da reforma para higienizar o sistema político-eleitoral: — Quem quer que ganhe as eleições tem que ter comprometimento patriótico e dedicar o primeiro semestre a mudar essas instituições que transformaram política em negócio privado. A receita de Barroso admite que empresas doassem dinheiro a campanha eleitoral, mas apenas a um partido, não a candidatos. A doadora poderia fechar contrato de fornecimento ao governo a quem financiou, mas apenas depois de uma quarentena pós-eleitoral. O discurso de Barroso inspirou o presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, nomeado por Lula, a recomendar um teto às doações de empresas, para evitar contribuições excessivas. Receitou mais duas providências: o fim da coligação partidária na eleição de deputado e vereador; e um sistema para peneirar os partidos e evitar que proliferem sem controle. Antes deles, o ministro Dias Toffoli, nomeado por Lula, publicou artigo onde recomendou a proibição de financiamento por empresa, a limitação de contribuição por pessoa física, a fixação de um teto para gastos de campanha e a criação de uma barreira que impeça a proliferação de partidos como os 28 que, neste ano, elegeram deputados federais. Admitiu Toffoli que partidos nanicos vivem da oferta de seus serviços a partidos mais fortes, como o acesso a dinheiro do fundo partidário e o espaço no horário eleitoral de televisão e rádio. Uma oferta na qual se fartou a campanha da reeleição de Dilma neste ano: “Ficam sujeitos a se colocar a serviço de projetos políticos de agremiações mais robustas”, nas palavras de Toffoli. Os três ministros que se expressaram, durante a semana, sobre pontos diferentes da reforma política representam quase um terço da atual composição do Supremo com dez juízes. Mesmo que não se reeleja, Dilma terá tempo para preencher a vaga aberta. Se nomear mais um, o PT será o padrinho de 7 ministros entre 11, seis deles influenciáveis pelo Planalto. Na verdade, não cabe ao Supremo determinar a reforma, mas eventualmente julgar dúvidas que surjam sobre decisões na esfera legislativa. Mesmo assim, sugestões e articulações informais deles podem ser úteis na condução do processo de definição sobre as mudanças eleitorais. Veja-se uma manobra recente de Toffoli como presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Na segunda-feira, o TSE começou a julgar o pedido do PT para proibir o PSDB de divulgar no horário eleitoral uma antiga gravação em que a candidata Dilma elogia o desafiante Aécio Neves. A votação empatou em três a três. Cabia ao presidente Toffoli desempatar, mas ele pediu vistas porque estava numa situação difícil. Antigo advogado petista no próprio tribunal, o companheiro estaria na berlinda qualquer que fosse o seu voto, contra ou a favor de Dilma. “Até elogio fica proibido?”, ironizou o ministro Gilmar Mendes, sem levar em conta o drama do colega Toffoli, mas apenas o inusitado da questão levantada pela campanha da reeleição. E o que fez Toffoli? Não apresentou o voto de desempate. Chamou os advogados do PSDB e PT e sugeriu que todos desistissem de reclamações pendentes no tribunal a cinco dias do final da eleição presidencial em nome da boa ordem eleitoral. O acordo saiu e ele não precisou votar.

No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens

[caption id="attachment_18913" align="alignleft" width="620"]Klester Cavalcanti: o repórter escreveu um livro meticuloso e surpreendente sobre um matador de aluguel / Foto: Divulgação Klester Cavalcanti: o repórter escreveu um livro meticuloso e surpreendente sobre um matador de aluguel / Foto: Divulgação[/caption] Depois de participar da Guerrilha do Araguaia, em 1972, Júlio Santana voltou para a casa dos pais, em Porto Franco, “decidido que não mataria mais ninguém”. Cícero Santana o procurou mais uma vez e convidou-o para participar de um assassinato. Leandro levou um tapa no rosto e contratou Cícero para matar o agressor, Aníbal. Júlio perguntou para o tio: “O senhor vai matar o cabra só porque ele deu um tapa na cara do outro?”. O tio explicou-se: “Não, Julão. Eu vou matar o cabra porque alguém me pagou para fazer isso. Aprenda uma coisa. Nesse negócio, não importa se o camarada é bonzinho ou se é um peste. Não quero saber se ele deu um tapa na cara do outro ou se estuprou a filha de alguém. O que importa é que a pessoa me paga e eu faço o serviço”. Nesse tempo, Júlio começou “a sentir uma ponta de admiração e respeito pelo trabalho do tio pistoleiro”. Aceitou matar Aníbal. Ao encontrá-lo, Júlio perguntou: “O sr. sabe onde posso comprar uma Coca-Cola?”. Aníbal respondeu e Júlio o matou. Ele e o tio fugiram numa bicicleta. “Cícero pedalava com calma, como se nada tivesse acontecido. Júlio não conseguia esquecer a imagem daquele homem estendido a seus pés, com a cabeça lavada de vermelho. Mas seu tio demonstrava uma tranquilidade impressionante. Como, depois de tirar a vida de uma pessoa, ele poderia estar tão sereno? Era frieza. Ou seria coragem demais.” Depois de ouvir que a polícia da região do Maranhão não se metia com pistoleiros e acreditando que poderia ficar rico, Júlio aceitou a proposta de se tornar matador profissional. Depois, recuou: “Sei não, tio. Acho que não quero entrar nesse negócio”. Cícero insistiu que, se rezasse dez ave-marias e 20 pai-nossos, a alma seria “limpa”. Ao aceitar ser sócio de Cícero, Júlio ouvia, no rádio, uma música do goiano Odair José. Ele lembra que o refrão dizia: “Eu vou tirar você desse lugar. Eu vou levar você pra ficar comigo”. O tio garantiu que Odair José era o “melhor” cantor do Brasil. Cícero disse para Júlio economizar para comprar uma motocicleta e sugeriu que usasse apenas uma arma (como parece ser o caso do serial killer goiano Tiago Henrique Gomes da Rocha, de 26 anos). “Isso lhe daria mais segurança e precisão no tiro.” O tio deu-lhe um revólver calibre 38. Cícero explicou que Júlio devia atirar nas suas vítimas bem de perto — “porque é importante que o tiro seja certeiro, de preferência na cabeça”. Orientado pelo tio, o pistoleiro-chefe, Júlio viajou para Açailândia para matar Caetano, vendedor de frutas que devia dinheiro a um comerciante. Como Caetano atendia todas as pessoas com um “sorriso largo”, Júlio sentiu pena dele. Seguiu Caetano até sua casa e chamou-o. Depois de fazer uma pergunta, acertou um tiro no seu rosto e “saiu correndo matagal adentro. Enquanto corria, rezava as dez ave-marias e os 20 pai-nossos que deveriam tirar de sua alma o peso da morte daquele coitado. Mas parecia que, quanto mais rezava, mais culpado se sentia”. O primeiro crime como profissional ocorreu em 27 de julho de 1972. Pelo assassinato, recebeu 300 cruzeiros. “Ganhar 300 cruzeiros por um dia de trabalho era algo que ele jamais imaginara ser possível. Além disso, havia gostado da emoção que sentira ao matar Caetano.” Ele “queria ganhar mais dinheiro”. Depois de assassinar um menino de 13 anos, em 1978, em Parago­minas, no Pará, Júlio foi contratado por José Mariano, o Índio, para matar o garimpeiro João Baiano, no garimpo de Serra Pelada. João Baiano havia roubado ouro do patrão. Recebeu informações de que João Baiano era negro e tinha um dente de ouro. Matou o garimpeiro errado. Em seguida, matou o verdadeiro João Baiano. Júlio matou quatro menores de 16 anos, 59 mulheres (“a maior parte delas teve a morte encomendada pelos próprios maridos, que acreditavam ter sido traídos”) e 424 homens. Sem contar “as três pessoas [Amarelo, Maria Lúcia Petit e Caetano] que matou antes de 1974, quando começou a anotar seus trabalhos” num caderno. Esse caderno era mantido escondido numa mochila, atrás do guarda-roupa, e nele havia um relato pormenorizado com os nomes de suas vítimas e as circunstâncias de suas mortes. Após de matar tantas pessoas, como se estivesse numa guerra particular, Júlio amealhou um patrimônio que ele considera ínfimo — uma voadeira, um Fiat 147 e 100 mil reais. “Aos 51 anos, dos quais quase 35 trabalhando exclusivamente como matador de aluguel — ele jamais teve outra atividade profissional —, achava que tudo aquilo era muito pouco para tanta desgraça e miséria que viu e fez na vida. Se soubesse que terminaria assim, jamais teria ouvido os conselhos do tio.” Embora tenha matado tantas pessoas, Júlio só foi preso uma vez. Matou uma mulher, em Tocantinópolis, mas subornou o delegado, dando-lhe uma motocicleta, e fugiu. Em junho de 2006, Júlio prometeu à sua mulher, evangélica, “que não cometeria mais nenhum homicídio”. Klester Cavalcanti diz que, “aos 52 anos, Júlio se dizia exausto daquela vida desgraçada, de matar um aqui e outro acolá. Além disso, não tinha mais a agilidade, a força e a visão aguçada do passado”. Decidiu sair de Porto Franco, no meio da madrugada, para não deixar pistas. Antes, pegou a voadeira e jogou o revólver e a mochila com o caderno onde anotava os nomes de suas vítimas no Rio Tocantins. A mulher de Júlio o pressionava, desde 1985, para abandonar a “profissão” de pistoleiro. Menos comedida e discreta do que a Sônia de “Crime e Castigo” — espécie de redenção de Raskólnikov —, ela, que não tem o nome mencionado, possível acordo de Klester com Júlio, “nunca deixou de dizer que o amava. Costumava falar que não entendia como um homem tão carinhoso com a esposa e os filhos poderia tirar a vida de alguém. E, o pior, por dinheiro”. Júlio respondia: “É o meu trabalho, mulher”. Ela dizia, com firmeza: “A maior vergonha da minha vida é ser casada com um assassino”. E ameaçava: “Ou você arruma outro emprego ou um dia eu ainda vou deixar você”. Após matar um funcionário público, em Carolina, no Ma­ranhão, voltou para casa e, deitando ao lado da mulher, disse: “Acabou”. Ela nada respondeu. Júlio comprou um sítio, onde mora com a mulher. “Não precisava de mais dinheiro. Já tinha tudo o que era necessário para ser feliz: uma boa casa, a roça e a família. E ainda havia guardado parte de suas economias na poupança. (...) Júlio Santana costuma dizer que só não vive totalmente em paz porque, de vez em quando, ainda sonha com algumas de suas vítimas.” O que ele faz? Reza as dez ave-marias e os 20 pai-nossos que aprendeu com o tio Cícero. “E volta a dormir.” O filho mais velho de Júlio morreu aos 19 anos, num acidente de mo­tocicleta. “Júlio acredita que a morte do seu primogênito foi um cas­tigo de Deus por todas as desgraças que fez na vida.” Por não ter sido preso pela polícia e julgado e con­denado pela Justiça, pode-se dizer que Júlio, autor de vários crimes, não foi castigado? Por mais que se diga “tranquilo”, um homem que se sente vigiado, que teme a própria sombra, está irremediavelmente preso numa cela invisível. O “já” do título indica que, mesmo aposentado, Julão pode voltar a matar? Não se sabe. Nem Júlio, sua mulher e Klester certamente sabem. (Euler de França Belém) Leia Mais: O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

Aos leitores que se interessam pela história da Guerrilha do Araguaia, recomendo seis livros: “O Coronel Rompe o Silêncio” (Editora Objetiva, 224 páginas), de Luiz Maklouf Carvalho; “A Lei da Selva — Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares Sobre a Guerrilha do Araguaia” (Geração Editorial, 384 páginas), de Hugo Studart; “Operação Araguaia — Os Arquivos Secretos da Guerrilha” (Geração Editorial, 656 páginas), de Eumano Silva e Taís Morais; Guerrilha do Araguaia — A Esquerda em Armas (Editora da Universidade Federal de Goiás, 241 páginas), de Romualdo Pessoa Campos Filho; A Dita­dura Escancarada (Companhia das Letras), de Elio Gaspari, e “Mata! — O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia” (Com­panhia das Letras, 443 páginas, publicado em 2012), de Leo­nencio Nossa. O excelente livro de Maklouf contém o relato de Lício Au­gusto Ribeiro, o coronel que comandou a operação para prender José Genoino (o relato sobre a prisão pode ser lido entre as páginas 89 e 102). É o militar durão, citado por Júlio Santana, que mandava no delegado Carlos Marra. O livro de Leonencio Nossa faz referência direta ao pistoleiro Júlio e ao delegado-militar Carlos Marra. (E. F. B.) Leia mais: O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens

Jornal Opção tem quase 1 milhão de acesso com apenas duas edições

Em outubro, com apenas duas edições, o Jornal Opção obteve quase 1 milhão de acessos. Jornal Opção impresso e o Jornal Opção Online, com uma cobertura extensa, rápida e ricamente informativa, conquistaram os eleitores goianos. Mais: o número de acesso do jornal em outros Estados, sobretudo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, está crescendo. São Paulo superou Brasília como segunda colocada. A cidade campeã em acesso é Goiânia. Rio Verde, dos municípios do interior, é o que mais acessa o jornal, seguido de perto por Anápolis.