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Quilombolas têm voto garantido em povoados de Goiás

Nos municípios de Niquelândia e Cavalcante, no Norte e Nordeste do Estado, os cartórios eleitorais têm muito trabalho para levar o direito ao voto aos moradores

Ex-vice de Vanderlan, Professor Alcides declara apoio a Marconi

Liderança do PSC em Aparecida de Goiânia está em campanha com o tucano desde o início da semana. Outros políticos da sigla anunciaram aliança com o governador

Conversa pelo WhatsApp determina suposta paternidade

Os dois envolvidos se conheceram em aplicativo de paquera online chamado Tinder e tiveram rápido relacionamento

Evento Startup Weekend valoriza empreendedorismo digital em Goiânia

O evento é mais uma das ações que põem em destaque as startups da região, abrindo, assim, mais caminhos para a inovação

Lei proíbe a cobrança de tarifa para vagas de reserva técnica de estacionamentos

A emenda à Lei Orgânica de Goiânia propõe minimizar os impactos no trânsito próximo aos estabelecimentos

O homem de 7 vitórias consecutivas nas urnas

Marconi Perillo vem ganhando eleições desde 1990, o que mostra profunda afinidade com o eleitorado goiano por mais de duas décadas

Um professor de perder eleição

Nesta campanha, Iris Rezende repete o receituário de como não ganhar disputa eleitoral. Confirmando o que dizem as pesquisas, será a 3ª derrota em confrontos diretos com Marconi

O que há além da margem de erro

Em todas as eleições, os institutos de pesquisa se tornam alvos preferenciais por apresentarem informações que não se confirmam nas urnas. De quem é o erro?

O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça

O jornalista e escritor Klester Cavalcanti conta a história de Júlio Santana, que matou quase 500 pessoas, entre elas a guerrilheira Maria Lúcia Petit, crianças, mulheres e o sindicalista goiano Nativo da Natividade (no mandato de Iris Rezende e Onofre Quinan). Ele feriu José Genoino, na Guerrilha do Araguaia “Só mato quando me pagam para matar.” Júlio Santana [caption id="attachment_18931" align="alignleft" width="350"]“O Nome da Morte” mostra que a realidade pode ser tão ou mais virulenta do que obras literárias. Fiódor Dostoiévski possivelmente ficaria interessado na história do assassino brasileiro Júlio Santana “O Nome da Morte” mostra que a realidade pode ser tão ou mais virulenta do que obras literárias. Fiódor Dostoiévski possivelmente ficaria interessado na história do assassino brasileiro Júlio Santana[/caption] O livro “O Nome da Mor­te — A História Real de Júlio Santana, O Homem que Já Ma­tou 492 Pessoas” (Editora Planeta, 245 páginas), do jornalista Klester Cavalcanti, ex-repórter da “Veja”, contém histórias impressionantes e muito bem-contadas. Persistente, Klester demorou sete anos para convencer Júlio Santana, o Julão, hoje com 60 anos, a relatar sua história. O assassino serial começou a matar aos 17 anos, ajudou a prender José Genoino Neto e matou Maria Lúcia Petit, na Guerrilha do Araguaia, em 1972. Mais tarde, matou, em Goiás, o sindicalista Nativo da Natividade e um homem não identificado no livro em Porangatu, Norte do Estado. Leitores menos atentos podem alegar que o repórter trata um “monstro” como se fosse um ser humano “normal”. É um engano. Se tivesse tentado mostrar Júlio Santana como “monstro”, primeiro, a história não teria sido contada; depois, a tentativa de demonização não seria útil para compreender a personagem que, apesar de tudo, é muito rica. Ao mostrar, mais do que demonstrar, Klester julga o assassino, ou melhor, o julgamento é a narrativa de sua história. O romance “Crime e Castigo”, do escritor russo Fiódor Dostoié­vski, conta a história de Raskól­ni­kov, o jovem que mata duas mulheres e tenta justificar os crimes filosoficamente. Mesmo sendo ficção, a história é espantosa. O livro de Klester prova que a realidade pode superar a ficção. Nem mesmo Dostoiévski, um escritor que tinha um instinto especial para descrever as misérias humanas, seria capaz de imaginar Júlio Santana. Raskólnikov é frango de granja perto de Júlio Santana. Aos 17 anos, Júlio Santana tinha 1,76m e era excelente atirador (“aos 11 anos, o garoto já conseguia acertar um animal ‘do outro lado do rio’”, o Tocantins, “a uma distância de cerca de 100 metros”). A família vivia do que pescava e caçava em Porto Franco, à beira do Rio Tocantins, no Estado do Maranhão. Em agosto de 1971, o jovem recebe a visita do tio Cícero Santana, de 31 anos, que dizia ser policial militar. Pistoleiro, Cícero havia sido contratado para matar Antônio Martins, o Amarelo. Marcos Lima, pai de uma garota de 13 anos que havia sido estuprada por Amarelo, pagou para Cícero liquidá-lo. Com malária, Cícero não tinha condições físicas de matar Ama­relo, mas, como já havia recebido parte da recompensa, decidiu convencer Júlio a substituí-lo. “Tio, eu não quero saber de nada disso. Eu não vou matar ninguém. Até agora, não consigo acreditar que o senhor está me pedindo um negócio desse. Quer que eu vire um assassino como o senhor? Deus me livre”, disse Júlio. Pressionado por Cícero, a quem admirava, Júlio aceitou matar Amarelo: “Está bem, tio. Eu vou fazer esse serviço para o senhor. Mas nunca mais me peça uma coisa dessas”. Mesmo assim, o garoto relutou. O tio insistiu: “Depois de matar Amarelo, é só você pedir perdão a Deus e Ele vai perdoar”. Aproveitando que o adolescente ficou confuso, Cícero continuou: “Deus perdoa tudo, Julão. (...) Amanhã, depois de matar Amarelo, você volta para casa e reza dez ave-marias e 20 pai-nossos. Assim, eu garanto que você estará perdoado”. Depois da conversa, Júlio seguiu para a mata e, após relutar muito, atirou em Amarelo, matando-o. Ao se encontrar com o tio, disse, profundamente abalado: “Só quero esquecer essa desgraça toda. E nunca mais venha conversar comigo sobre esse negócio de matar gente para ganhar dinheiro. Não quero nem ouvir falar nesse tipo de coisa”. Deitado numa rede, prometeu a Deus: “Nunca mais vou matar ninguém na minha vida, Senhor. Nunca mais”. Leia Mais: Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia

A repetição dos mesmos erros de avaliação

Pela quinta vez consecutiva, os opositores chegam às urnas prevendo mais uma derrota. O que faltou?

O fim da eleição poderá despertar ideias de controle pelo PT adormecidas no Planalto

Campanha de ódio petista pode desengavetar o controle da mídia, colocar em ação os conselhos sociais e estimular a reforma política em benefício próprio

Sem pudor, a viagem eleitoral de Dilma a Pernambuco foi um artifício que burlou a regra

[caption id="attachment_18950" align="alignleft" width="300"]Candidata Dilma Rousseff em comício bancado pelo dinheiro público Candidata Dilma Rousseff em comício bancado pelo dinheiro público[/caption] Há mais de um mês a agenda da presidente Dilma estava em branco no Planalto. A dedicação presidencial era toda da campanha pela reeleição. O último registro era de 19 de setembro, quando a candidata foi ao escritório receber um grupo de atletas. Após 32 dias, Dilma mandou colocar na agenda presidencial a visita, na terça-feira, a Goiana, em Pernambuco. Com isso, o novo voo eleitoral ao Nordeste se tornou programa oficial: uma visita a trabalho da presidente à fábrica local da Fiat. A viagem em campanha não foi paga pelo PT. A conta coube ao governo, com pompa e circunstância. O partido não pagou, mas fez a festa. A visita de Dilma, com discurso de campanha, ocorreu entre um mar de bandeiras petistas agitadas por fãs com camisas também em vermelho. A burla permitiu a Dilma tripudiar em cima de seu rival a presidente, o tucano Aécio Neves. Coisa do Lula, que apareceu em Goiana para se juntar àquela espécie de comitiva presidencial. Ele era presidente, em 2009, quando acertou com a Fiat que a fábrica seria em Pernambuco, sua terra. Passou para trás o então governador Aécio, que se empenhou para a empresa fincar em Minas, aonde chegou em 1976, todas as suas unidades. Na véspera da viagem a Goia­na, Lula ofereceu uma entrevista por telefone a rádio de Recife. Era para tirar sarro, conspirar contra o presidenciável tucano e gabar-se de seu poder a favor do Nordeste, onde o PT apresenta Aécio como inimigo lá no Sul Maravilha. Lula repetiu, por telefone, a história sobre como deixou o mineiro a ver navios, ops, automóveis. Em campanha, o ex aproveitou a entrevista para se opor à proposta do desafiante tucano a favor da troca da reeleição por um único mandato de cinco anos. “Dois mandatos de quatro anos são o suficiente”, rebateu, fez as contas e demonstrou, com meio disfarce, que poderia voltar ao Planalto dentro de quatro anos. “Quando chegar em 2018, eu terei 72 anos e tenho fé em Deus que o Brasil vai produzir quadros novos, jovens”, disfarçou, como se pudesse não ser candidato a presidente mais vezes. “A gente faz política, eu não sei como será o contexto político daqui a quatro anos”, deixou a porta aberta a uma convocação das massas pela volta. Naquele mesmo dia da entrevista, ministros do Supremo Tribunal Federal nomeados por Lula e Dilma se manifestaram, no Rio, sobre a reforma do sistema político-eleitoral, mas não se pronunciaram sobre a manutenção da reeleição que o PT de Lula defende para esticar a permanência do partido no poder.

Nadine Gordimer critica obsessão de escritores latino-americanos pela figura do ditador

[caption id="attachment_18925" align="alignleft" width="350"]Nadine Gordimer: a escritora percebe Jorge Luis Borges como sucessor de Kafka e diz que a literatura de Alejo Carpentier é maravilhosa / Foto: Berthold Stadler/Publico Nadine Gordimer: a escritora percebe Jorge Luis Borges como sucessor de Kafka e diz que a literatura de Alejo Carpentier é maravilhosa / Foto: Berthold Stadler/Publico[/caption] Numa entrevista a Jannika Hurwitt, da “Paris Review” (publicada no livro “Os Escritores — As Históricas Entrevistas da Paris Review”, Companhia das Letras, 327 páginas, tradução de Alberto Alexandre Martins e Beth Vieira), a escritora sul-africana Nadine Gordimer (1923-2014) acerta e erra sobre a literatura latino-americana. “O tema entre os escritores latino-americanos dignos de nota é o ditador corrupto. No entanto, apesar da repetição do tema, eu a considero a ficção mais excitante que está sendo escrita no mundo hoje em dia” (entre 1979 e 1980). Jannika Hurwitt pede que mencione quais escritores latino-americanos são mais interessantes. “Gárcia Márquez, é claro. Nem é necessário citar [Jorge Luis] Borges. Borges é o único sucessor vivo de Franz Kafka [o autor argentino morreu em 1986]. Alejo Carpentier era absolutamente maravilhoso. ‘O Reino Deste Mundo’ é um livrinho delicioso... é brilhante. Há também Carlos Fuentes, um escritor magnífico. Mario Vargas Llosa. E Manuel Puig. [...] Mas há sempre esse tema obsessivo — o ditador corrupto. Todos eles escrevem sobre isso; são obcecados por isso”. Não há o que contestar: os autores citados são do primeiro time e escreveram sobre ditadores. Algumas das estrelas do chamado boom latino-americano chegaram a se reunir para escrever sobre o assunto, mas não publicaram romances e contos apenas a respeito disso. Há as injustiças de praxe. Le­zama Lima (1910-1976), maior escritor cubano, não é mencionado. Nadine Gordimer concedeu a entrevista dois anos depois de sua morte. “Paradiso”, seu notável romance — Laurence Sterne certamente o leria com prazer —, não merece a mínima referência e seu tema não é o mesmo de alguns romances de García Márquez (“O Outono do Patriarca”) e Vargas Llosa (“Conversa no Catedral”). O uruguaio Juan Carlos Onetti, autor de “Junta-Cadávares” e “A Vida Breve”, é esquecido. Guimarães Rosa, autor de “Sagarana” e “Grande Sertão: Veredas”, não merece um comentariozinho. Ele morreu em 1967, doze anos depois da entrevista. O pesquisador alemão Willi Bolle diz que a opus magna de Guimarães Rosa é uma resposta literária à história do Brasil. Deve ser. Mas, para além de ser uma réplica histórica, é um romance no qual personagens, gigantes e, até, épicos, são rivais e, ao mesmo tempo, complementos da linguagem. Assim como a obra de Lezama Lima. Clarice Lispector, autora de uma obra cada vez mais valorizada no exterior, morreu em 1976, dois anos antes da entrevista. Com algum esforço, Nadine Gordimer poderia ter lido traduções dos quatro autores latino-americanos. É possível que, mais tarde, tenha lido autores brasileiros. Numa coletânea recente de seus ensaios e resenhas não encontrei referência à literatura patropi. Quando entrevistado, o americano Philip Roth, de 81 anos, tem o hábito de dizer que está relendo clássicos, raramente citando autores vivos, e lendo livros de história. Às vezes, menciona Saul Bellow, John Updike e Primo Levi, coincidentemente, todos mortos. Outros autores dizem a mesma coisa. Menos Nadine Gordimer: “Muitos escritores dizem que não leem outros escritores, os contemporâneos. Se é verdade, é uma grande pena”. Leitora apaixonada de D. H. Lawrence, Hemingway e Virginia Woolf, Nadine Gordimer afirma que, “em fases diferentes” de sua vida, foi “psicologicamente dependente de diversos escritores”. A tal angústia da influência citada pelo crítico Harold Bloom. [caption id="attachment_18927" align="alignleft" width="620"]Layout 1 Fotos: Wikipédia Commons[/caption] Ao escrever contos, a autora de “Uma Mulher Sem Igual” admite que sofreu forte influência de escritoras do Sul dos Estados Unidos. “Eudora Welty foi uma grande influência para mim.” É uma “contista sublime”. “Katherine Anne Porter me influenciou. Faulkner. Sim. Mas, outra vez, a gente mente, porque, tenho certeza de que, quando estávamos ensaiando o bê-á-bá da arte do conto, Hemingway deve ter influenciado todo mundo que começou a escrever no fim da década de 1940, como eu. Proust tem sido uma influência em mim, durante toda a minha vida — uma influência tão profunda que me assusta... não apenas nos meus escritos, mas nas minhas atitudes com relação à vida. Mais tarde vieram Camus, que foi também uma influência bem forte, e Thomas Mann, que passei a admirar mais e mais. E. M. Forster, quando era moça. E ainda acho ‘Passagem Para a Índia’ um livro absolutamente ma­ravilhoso, que não pode ser assassinado ao ser ensinado nas universidades.” O que a autora quis dizer? Não fica claro. Talvez, como Harold Bloom, temesse os estudos de gênero ou as interpretações politicamente corretas, que às vezes retalham e mandam para o ostracismo obras complexas mas que não cabem em alguns figurinos políticos, ideológicos e intelectuais. O choque cultural entre indianos e ingleses, exibido com mestria e abertura por Forster, pode ser interpretado de maneira simplista pelos policiais-acadêmicos do politicamente correto. Como Hemingway, com sua prosa telegráfica, influenciou a autora de “Beethoven era 1/16 Negro — E Outros Contos”? “Ah, através dos seus contos. A redução e também o uso do diálogo. [...] Os contos são uma excelente disciplina contra o excesso de palavas. [...] Hoje penso que uma grande falha nos contos de Hemingway é a onipresença da voz de Hemingway. As pessoas não falam por si mesmas, em seus próprios esquemas de pensamento; elas falam como Hemin­gway. O ‘disse ele’, ‘disse ela’ da o­bra de Hemingway. Cortei essas atribuições dos meus romances há mui­to tempo. Algumas pessoas se quei­xam que isso torna os meus romances difíceis de serem lidos. Mas não me importo. Simplesmente não consigo mais suportar disse-ele/disse-ela. E se não consigo fazer com que os leitores saibam quem está falando pelo tom de voz, os tor­neios da frase, bom, então fracassei.” O monólogo interior, tão caro aos escritores modernos, é utilizado por Nadine Gordimer. “Uma espécie de monólogo interior que fica pulando de um lado para outro, de diferentes pontos de vista. Em ‘O Amante da Natureza’, às vezes é Mehring falando de dentro de si mesmo, observando, e às vezes é um ponto de vista totalmente desapaixonado do exterior.” A entrevistadora sugere que há semelhança entre “A Filha de Burger” e o romance “Enquanto Agonizo”, de William Faulkner. Nada a ver, ressalva Nadine Gordimer. Os estilos são diversos. “Foi Proust quem disse que estilo é o momento de identificação entre o escritor e a sua situação. Idealmente isso é o que deveria ser — permitir que a situação dite o estilo.” O autor na maioria das vezes não é o melhor crítico de seus próprios livros. Mas alguns críticos costumam exagerar nas suas interpretações. Conor Cruise O’Brien, numa resenha de “A Filha de Burger”, ressaltou a arquitetura supostamente muito arrumadinha do romance. Nadine Gordimer discorda: “Muito pouco da construção é objetivamente concebido. Ela é orgânica, instintiva e subconsciente. [...] Não sei, antes de escrever, como vou fazer, e sempre receio não ser capaz de fazê-lo”. A morte é apontada como um tema obsessivo para a autora de “Tempos de Reflexão — 1990-2008” (ensaios e resenhas). “A morte”, diz, “é realmente o mistério da vida. [...] Dizemos que é terrível se as pessoas morrem jovens, e que é terrível se continuam a viver por tempo demais”. Jannika insiste para que a escritora discuta sexo e literatura. Mas Nadine Gordimer corta o barato da entrevistadora, pois considera os escritores como “seres andróginos”. “Em literatura, o sexo não importa; é a literatura que importa.” O que vale é a qualidade da prosa do autor, não se é homem ou mulher.

Olga Savary faz prefácio fraco para Paradiso mas tradução é de qualidade

[caption id="attachment_18920" align="alignleft" width="300"]“Paradiso”: o romance de Lezama Lima é a obra-prima máxima da literatura cubana “Paradiso”: o romance de Lezama Lima é a obra-prima máxima da literatura cubana[/caption] Estou iniciando a leitura de “Paradiso” (Martins Fontes, 623 páginas), de José Lezama Lima (1910-1976), na tradução da poeta Olga Savary. Não se trata de um trabalho inepto. De fato, é muito difícil traduzir o escritor cubano para qualquer língua. Ao profissional não basta saber, e muito bem, as línguas Espanhola, o ponto de partida, e Portuguesa, o ponto de chegada. Precisa travar uma verdadeira guerra para tornar uma obra enviesada, pouco “fluente”, num texto legível mas não simplista. Nós, brasileiros, temos o hábito de achar que o espanhol é uma espécie de português com defeito e, por isso, seria fácil traduzir de uma língua para a outra. Não é bem assim. As duas línguas são hermanas, sim, mas são como Caim e Abel. As dificuldades são maiores exatamente porque parece fácil traduzir de uma para a outra. Traduzir significa ganhar e perder. Mas, sem as traduções, as pessoas deixariam de ler as principais obras-primas da literatura internacional. Ao comparar o original com a versão de Olga Savary, é preciso considerar duas coisas. Primeiro, a perícia da tradutora é flagrante. Segundo, o fato de existir outra tradução, de Josely Vianna Baptista, certamente facilitou o trabalho de Olga Savary. Não estou sugerindo que a poeta copiou e inspirou-se no trabalho precedente da também poeta Josely Vianna Bap­tista. É possível que, para não se in­fluenciar, a segunda tradutora não te­nha examinado a versão anterior. Porém, se o fez, e isto é correto, às vezes decisivo, pôde encontrar outras soluções, adequar e melhorar frases, palavras, expressões e sentidos. [caption id="attachment_18921" align="alignleft" width="250"]Lezama Lima: Brasil ganha duas traduções do mais importante romance de Cuba, “Paradiso” / Foto: Wikipédia Commons Lezama Lima: Brasil ganha duas traduções do mais importante romance de Cuba, “Paradiso” / Foto: Wikipédia Commons[/caption] Observe-se que, na nova tradução que fez para a editora Estação Liberdade, Josely Vianna Baptista recriou “Paradiso”. Porque há novos estudos sobre a obra, ex­plorando nuances que haviam sido pouco percebidas, e a tradutora está mais experiente e atenta às filigranas da Língua Espanhola e à prosa de Lezama Lima. Perce­be-se, numa comparação rápida en­tre os empreendimentos hercúleos das duas poetas, que, aqui e ali, há mais “fluência” no trabalho de Josely Vianna Baptista. Porém, no caso, fluência não tem a ver com tornar o texto mais pedestre, simplificado, e sim mais preciso em português — criando, por assim dizer, um texto em português (quase) tão rico quanto o texto em espanhol. É um tour de force. É rico um país que tem duas traduções de alta qualidade de uma obra-prima seminal como “Paradiso”. Há probleminhas na edição da Martins Fontes, a que, no momento, examino com mais cuidado. O prefácio de quatro páginas de Olga Savary nada acrescenta — só contém platitudes e autoelogios —, prendendo-se demasiadamente a um texto de Julio Cortázar. Um trecho do comentário do escritor argentino é repetido duas vezes, o que sugere uma revisão descuidada. O sumário cita o “prefácio” e o texto “Convite a ‘Paradiso’”, mas seus autores não são mencionados, exceto no final deles. A apresentação, bem feita, é de autoria de Cintio Vitier, coordenador da edição crítica do romance. Uma reclamação tem a ver mais com o fato de que como manuseio muito certos livros, como “Paradiso” — a leitura é mais lenta, para não perder as filigranas —, as capas que não têm orelhas acabam por ter as pontas dobradas. Livros grossos, com mais de 600 páginas, exigem orelhas protetoras. De resto, até agora, não há muito do que reclamar.

Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro

[caption id="attachment_18917" align="alignleft" width="300"]Nativo da Natividade: o importante sindicalista rural foi assassinado  a mando de um político de Carmo do Rio Verde, em Goiás, em 1985 / Foto: Reprodução Nativo da Natividade: o importante sindicalista rural foi assassinado a mando de um político de Carmo do Rio Verde, em Goiás, em 1985 / Foto: Reprodução[/caption] No caderno de Júlio Santana está (ou estava) escrito: “Matar Na­ti­vo da Natividade (presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais) em Carmo do Rio Verde, Goiás. Man­dante, prefeito Roberto Pas­coal. Contato na cidade, Genésio. Pa­gamento, 2 milhões de cruzeiros”. Em 1985, Júlio morava em Por­to Franco, com sua mulher, quando foi procurado pelo tio Cícero Santana para fazer um serviço: matar o sindicalista goiano Nativo da Natividade. “A mulher de Júlio odiava Cícero. Dizia que o tio era o culpado por ele levar aquela vida desgraçada de matador. Júlio sempre rebatia. Dizia que entrou para a pistolagem por vontade própria. Queria ganhar dinheiro e viver grandes aventuras. O tio havia apenas o ajudado a fazer o que desejava.” O relato de Klester Cavalcanti: “Numa conversa que não demorou mais de 10 minutos, Cícero passou todo o serviço ao sobrinho. Ele teria de matar Nativo da Natividade, presidente do Sindicato dos Trabalha­dores Rurais de Carmo do Rio Verde, no interior de Goiás. O mandante do crime era o prefeito da cidade, Roberto Pascoal, que se dizia incomodado com a influência política de Nativo na região e, principalmente, com os boatos de que o sindicalista seria candidato a prefeito nas eleições municipais de 1988. Quando contatou Cícero, Roberto Pascoal disse que queria eliminar Nativo antes que ele ganhasse ainda mais força e projeção”. A mando de Roberto Pascoal, Genésio buscou Júlio em Brasília e o levou para Carmo do Rio Verde. “Pelo trabalho, receberia 2 milhões de cruzeiros — pouco mais do que três salários mínimos da época, que era de 600 mil cruzeiros.” Júlio tinha 31 anos. Genésio disse ao pistoleiro que ele mesmo poderia fazer o trabalho. “E por que não fez?”, perguntou Júlio. “O prefeito disse que era mais seguro trazer um matador de fora, para não levantar suspeitas sobre ele”, explicou Genésio. Nativo, informou-se Júlio, era casado e pai de dois filhos pequenos. Tinha 33 anos. “Muito pacato, só saía de casa para ir ao sindicato ou a alguma reunião de agricultores.” O motorista Pelé, num Fusca azul, levou Júlio para conhecer o sindicato onde Nativo atuava. Informado dos hábitos de Nativo, Júlio decidiu matá-lo quando estivesse voltando para casa. “Eram quase 7 horas da noite quando o carro do sindicalista apareceu na esquina. Júlio ajeitou o chapéu de palha para esconder o rosto e ficou de pé. Caminhava lentamente, no lado oposto da rua, na direção da casa de Nativo. Tirou o revólver da cintura no mesmo instante em que o carro parou. Estava a uns 20 metros do homem. Mas queria chegar mais perto, para acertar o tiro na cabeça. O sindicalista estava tranquilo. Nem desconfiava que estava prestes a morrer”, escreve Klester. “Nativo andava devagar, a caminho da porta”, relata Klester. “Do outro lado da rua, a uns 10 metros de distância, Júlio o tinha na mira de seu revólver. Estava puxando o gatilho quando viu uma menina de uns 5 ou 6 anos abrir a porta e correr, sorrindo, na direção do pai. Não teria coragem de matar um homem diante dos olhos da própria filha. Imediata­mente, apontou a arma para o chão. O sindicalista agachou-se e pegou a menina nos braços. Júlio ainda viu quando os dois se beijaram pouco antes de entrarem em casa.” No dia seguinte, Júlio saiu à caça de Nativo. Este voltou para o sindicato à noite e foi seguido pelo pistoleiro. [Júlio] “Chegou na porta do carro de Nativo antes que ele saísse. Apontou a arma para a cabeça do sindicalista. O homem reagiu, segurando o braço direito de Júlio com as duas mãos. Durante o embate, ele puxou o gatilho quatro vezes — os exames feitos no cadáver encontraram três perfurações no tórax e uma no pescoço. Só parou de atirar quando teve certeza de que Nativo estava morto (em 1996, 11 anos após o episódio, o prefeito Roberto Pascoal foi julgado como mandante do crime, e absolvido).” Promo­tores, juízes e advogados que atuaram no caso têm o dever de ler as informações do livro de Klester. Trata-se do próprio pistoleiro revelando quem encomendou o crime e mostra como este foi feito. Crime cometido, Júlio foi levado para Brasília numa ambulância. Genésio disse: “Acho que, agora, concordo com o prefeito. Você fez por merecer os 6 milhões de cruzeiros pelo serviço”. Cícero havia passado o sobrinho para trás. Para matar Nativo, Júlio recebeu “apenas” 2 milhões de cruzeiros. Em Imperatriz, ao se encontrar com o tio, Júlio ameaçou matá-lo. Cí­cero disse: “Já parou para pensar que você deve tudo o que tem a mim? Se não fosse por mim, você não teria nada, Julão! Você não seria ninguém”. Júlio replicou, gritando: “Grande vida de merda essa que o senhor me deu. Eu sou um assassino, tio. Ganho a vida matando gente. E o senhor tem coragem de dizer que isso é bom”. Cícero morreu em 1993, aos 53 anos, e o sobrinho descobriu que, ao contrário do que todos na sua família acreditavam, não era policial militar. Júlio também se passava por policial militar. Detalhe: o maior assassino do Bra­sil agiu livremente em Goiás no mandato dos governadores Iris Re­zende e Onofre Quinan — matando pessoas no Estado — e os peemedebistas-chefes não conseguiram, nem tentaram, prendê-lo. (E. F. B.) Leia Mais: O pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas e não foi preso pela polícia e condenado pela Justiça Jovem matou guerrilheira do PC do B e atirou em José Genoino No garimpo de Serra Pelada, Júlio Santana matou quatro homens Livros fundamentais para entender a Guerrilha do Araguaia