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O “filósofo” Millôr Fernandes escreveu que livro não enguiça. Tem razão. E dura mais do que automóveis, roupas, sapatos. Livros, como diamantes, são eternos — daí o título, conectando livros e diamantes a cérebro. A maioria dos livros citados na lista a seguir pode ser encontrada nas livrarias brasileiras, como Nobel (shopping Bougainville), Leitura (Goiânia Shopping) e Saraiva (shopping Flamboyant). Alguns podem ser encomendados nas livrarias Cultura (www.cultura.com.br) e Amazon (www.amazon.com.br). Outros (usados) podem ser adquiridos no Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br) e no Livronauta (www.livronauta.com.br). Para comprar livros usados no exterior, em várias línguas, consulte o Bookfinder (www.bookfinder.com). No período de Natal e Ano Novo, vale, e muito, presentear (com) livros.
Outras listas:
https://jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/25-dos-melhores-livros-sobre-o-golpe-de-1964-e-a-ditadura-civil-militar-que-acabou-em-1985
https://jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/25-livros-que-sao-diamantes-para-o-cerebro
“Vladimir Nabokov — Los Años Americanos”, de Brian Boyd
A prosa de Vladimir Nabokov tem sido traduzida de maneira competente por Jorio Dauster, entre outros. Falta publicar a excelente biografia “Vladimir Nabokov — Os Anos Russos” e “Vladimir Nabokov — Os Anos Americanos”, de Brian Boyd. O segundo volume é mais importante, pois conta a história da melhor fase literária do russo que se considerava americano. Como nas melhores biografias, não se trata tão-somente de um estudo da vida do criador do romance “Lolita”, mas também um exame exaustivo de sua obra. (Anagrama, 966 páginas, tradução de Daniel Najmías.)
“Max Perkins — Um Editor de Gênios”, de A. Scott Berg
Se você quer saber como foram editados livros de Thomas Wolfe, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, para citar apenas três, precisa ler “Max Perkins — Um Editor de Gênios”, de A. Scott Berg, que ganhou o Pulitzer. Como era editar o autor de “O Grande Gatsby”? “Scott foi sempre o cavalheiro. Às vezes precisava de apoio extra, e de estímulo para ficar sóbrio, mas escrevia de forma tão rica que valia a pena.” Era perfeccionista. Quanto a Hemingway, mentia um pouco. Sobre seu papel: “Um editor não acrescenta coisa alguma a um livro. A melhor obra de um escritor deriva integralmente dele mesmo.” Ele disse também: “Não há nada tão importante quanto um livro”. (Intrínseca, 541 páginas, tradução de Regina Lyra)
“Lealtad y Traición — Jorge Semprún y su siglo”, de Franziska Augstein
O comunista espanhol Jorge Semprún (1923-2011) tem uma história das mais interessante. Participou das lutas políticas na Espanha, foi perseguido pelo governo de Francisco Franco e foi aprisionado num campo de concentração dos nazistas. Sobreviveu e escreveu vários livros — romances, relatos. É uma das grandes personalidades do século 20. A biografia escrita pela jornalista alemã não tem o objetivo de diminuir sua rica história, porém, ao nuançá-la, exibe um Semprún mais complexo e nem sempre ético. Em 1949, a escritora Marguerite Duras e Robert Antelme foram denunciados à direção do Partido Comunista Francês por “desvios políticos”. Semprún passou a vida negando que tenha sido ele o autor da denúncia. Augstein prova que foi o escritor espanhol. (Tusquets Editores, 455 páginas, tradução de Rosa Pilar Blanco)
“Cheever — Una Vida”, de Blake Bailey
O contista e romancista americano John Cheever (1912-1982) deixou uma prosa de alta qualidade, às vezes escondida pela fama de Saul Bellow, John Updike e Philip Roth. No Brasil, além dos romances, saiu a coletânea “28 Contos de John Cheever” (Companhia das Letras, 360 páginas, tradução de Jorio Dauster e Daniel Galera). Blake Bailey enfrentou sua vida complexa e escreveu uma biografia monumental, enfrentando inclusive a história de sua homossexualidade (era crítico ferrenho dos homossexuais, mas mantinha relações sexuais com homens). “Uma página de boa prosa sempre será invencível”, disse. Updike e Malcolm Cowley estavam entre seus admiradores. (Duomo Ediciones, 885 páginas, tradução de Ramón de España.)
“Paradiso”, de José Lezama Lima
Pense no Guimarães Rosa de Cuba. Pois o País do Caribe talvez seja lembrado, daqui a 100 anos, menos pela ditadura de Fidel Castro e Raul Castro e mais pela prosa e poesia de Lezama Lima. Trata-se do maior escritor da terra de José Martí. Saiu no Brasil este ano a nova tradução do romance (de formação, barroco) “Paradiso”. É uma obra-prima universal. A tradução de Josely Vianna Baptista é esmerada e fluente. Parece que se está lendo o livro em espanhol, tal a proximidade com o original. (Estação Liberdade, 612 páginas)
“Odisseia”, de Homero
O Brasil é um país de sorte: há várias traduções do livro “Odisseia” (640 páginas), do grego Homero. E traduções de qualidade, como as de Carlos Alberto Nunes, Donaldo Schüler e Trajano Vieira. Agora, Christian Werner traduz o longo poema numa linguagem coloquial, mas sem pedanteria. O posfácio é do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, com apresentação de Richard Martin, com textos de Franz Kafka e do poeta Konstantinos Kaváfis. A edição da Cosac Naify é primorosa. Há duas versões — uma popular e uma de luxo (mais cara). Mesmo a popular é de excelente qualidade.
“Luís Carlos Prestes — Um Revolucionário Entre Dois Mundos”, de Daniel Aarão Reis
O doutor em história Daniel Aarão Reis entra, com esta excelente biografia sobre o líder comunista Luís Carlos Prestes, para o seleto círculo dos grandes biógrafos, como Francisco de Assis Barbosa, Fernando Morais, Ruy Castro e Lira Neto. Prestes sai com a estatura adequada da pesquisa exaustiva do professor da Universidade Federal Fluminense. Nem menor, nem maior. O livro é nuançado e sólido. É uma radiografia do século 20, notadamente da história brasileira. (Companhia das Letras, 536 páginas)
“Adolf Eichmann — Historia de un Asesino de Masas”, de Bettina Stangneth
A filósofa alemã Hannah Arendt escreveu um livro, “Eichmann em Jerusalém — Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”, e praticamente definiu a história do nazista que chefiava o transporte de judeus para os campos de concentração e extermínio. O que a filósofa Bettina Stangneth mostra, em “Adolf Eichmann — Historia de un Asesino de Masas”, é que a história do nazista precisa ser nuançada. Na verdade, não era apenas um funcionário administrativo, cumpridor de ordens do Estado. Ele estava no topo do segundo escalão, por assim dizer, e, mesmo na Argentina, continuava articulando com nazistas que se escondiam no País. Lia Kant e escrevia muito. (Edhasa, 642 páginas, tradução de Silvia Villegas)
“Edna St. Vincent Millay — Belleza Selvaje”, de Nancy Milford
A poeta norte-americana Edna St. Vincent Millay (1892-1950) encantou de seu conterrâneo Edmund Wilson aos vates brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. No entanto, fora poesias publicadas em coletâneas, não há nenhum livro de sua autoria editado em português. Sua história lembra a de Pagu, guardadas as diferenças, lógico. Sua poesia é importante e influenciou gerações. Em termos comportamentais, era uma revolucionária. Nancy Milford nota, na excelente biografia, que “foi precursora da nova mulher. Fumou em público quando era ilegal que as mulheres o fizessem”; saiu com homens e mulheres, era independente e muito bonita. Acima de tudo, poeta relevante. (Circe, 635 páginas, tradução de Beatriz López-Buisán)
“O Paraíso Reconquistado”, de John Milton
O poeta britânico John Milton é sempre apresentado assim: “segundo maior poeta inglês, abaixo apenas de Shakespeare”. Harold Bloom, que “acha” que Shakespeare “inventou” Homero e o homem moderno, nem se fala. Os críticos podem até ter razão, mas Milton é um grande poeta, como prova “Paraíso Perdido”. Agora os brasileiros ganham “Paraído Reconquistado”. É a segunda parte do primeiro livro. (Cultura, traduzido por Guilherme Gontijo Flores e quatro profissionais, ilustrado por William Blake, 304 páginas)
“O Difícil Exercício das Cinzas”, de Ronaldo Costa Fernandes
Poeta que dialoga com a tradição, sem considerá-la como superada ou montanha intransponível, Ronaldo Costa Fernandes é dotado de rara sofisticação. No caso, isto não tem a ver com pomposidade ou grandiloquência. Aqui e ali, há discurso, no que não há mal algum, pois o poeta vive no mundo, sob as agruras do real. Mas sua arte cresce quando põe as palavras para bailar, criando elos entre elas como se fossem braços entrelaçados. (7 Letras, 91 páginas)
“História Concisa da Língua Portuguesa”, de Renato Miguel Basso e Rodrigo Tadeu Gonçalves
O livro “História Concisa da Língua Portuguesa” tende a passar batido fora do mundo acadêmico, embora seja destinado a um público mais amplo. É um verdadeiro tesouro produzido por dois acadêmicos que escrevem com o máximo de clareza. Os autores contam a história do latim e, em seguida, indicam como o português “surgiu”. O “concisa” do título não significa que se trata de uma obra simplista. É densa e simples. (Vozes, 325 páginas)
“O Português Brasileiro — Formação e Contrastes”, de Volker Noll
O livro “O Português Brasileiro” resulta da tese de livre docência do alemão Volker Noll, apresentada na Universidade de Göttingen. Trata-se de um livro extraordinário, que nós, brasileiros, devemos (e precisamos) ler. Não deixa de ser interessante que um scholar alemão seja o responsável por um livro que examina a especificidade, se há, da língua que se usa no Brasil. A pesquisa é detalhada e é quase uma história do Brasil contada por intermédio da língua. (Globo, 399 páginas, tradução de Mário Eduardo Viaro)
“O Irmão Alemão”, de Chico Buarque
O compositor Chico Buarque é menos questionado do que o escritor Chico Buarque. É fato que tem sido estudado de maneira empática por Roberto Schwarz, mas parte dos críticos acadêmicos torce o nariz. O romance “O Irmão Alemão” relata a história de um irmão do artista-prosador, nascido na Alemanha, na década de 1930. Era uma história nebulosa e o historiador Sérgio Buarque de Holanda não conheceu o filho. Chico escarafunchou a vida de Sérgio Günther e, finalmente, o revela para o leitor. (Companhia das Letras, 239 páginas)
“Vida e Destino”, de Vassili Grossman
O romance “Vida e Destino”, de Vassili Grossman (1905-1964), é simplesmente o maior romance russo do século 20 (muito acima de “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak), ombreando, em densidade narrativa, com o romance “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, sua clara inspiração. Perseguido pelo stalinismo, que censurou o livro, Grossman não pôde ver a sua publicação, anos depois de sua morte. O livro trata da Segunda Guerra Mundial e, claro, da vida sob o stalinismo (daí a censura e apreensão dos originais). O leitor brasileiro tem sorte: Irineu Franco Perpetuo traduziu a obra diretamente do russo, e muito bem, e a edição da Alfaguara (915 páginas) é caprichada. Franco Perpetuo é autor de um prefácio curto mas instrutivo. “Vassili Grossman é o Tolstói da URSS”, disse o inglês Martin Amis. É um dos grandes lançamentos do ano.
“Primo Levi”, de Ian Thomson
Ao lado de Italo Calvino e Carlo Emilio Gadda, Primo Levi é um dos grandes escritores italianos do século 20. Judeu, foi enviado para o campo de extermínio de Auschwitz, mas sobreviveu. Trabalhou como químico e escreveu vários livros, os mais candentes, como “É Isto um Homem?”, sobre a vida no campo nazista. Seu testemunho é acatado inclusive por historiadores profissionais. Era um homem reservado e avaliava que devia contar sua própria história. Mas o jornalista inglês Ian Thomson decidiu escavar mais fundo e publicou um livro (exemplar) que resgata um Primo Levi que, apesar de seus depoimentos, não conhecíamos ou conhecíamos pouco. (Belacqva, 743 páginas, tradução de Julio Paredes)
“O Museu da Inocência”, de Orhan Pamuk
“O Museu da Inocência”, do Nobel de Literatura turco Orhan Pamuk, é um belo e trágico romance. O núcleo do livro é a história de um homem, jovem, que se apaixona por uma mulher e luta para ficar perto dela, mas sempre há algo impedindo. Durante o relacionamento, numa paixão obrigatoriamente platônica, vai colecionando (subtraindo) objetos que pertencem à amada. Pequenas coisas sem importância. Quando tudo parece que vai bem, e se dará o desfecho romântico, ocorre uma tragédia. Ao contar a história do jovem casal, Pamuk (ele próprio personagem) vai exibindo a Turquia, como se fosse um grande museu, ainda que não da inocência. (Companhia das Letras, 567 páginas, tradução de Sergio Flaksman)
“A Cortina de Ferro — O Fim da Europa de Leste”, de Anne Applebaum
Autora de um livro impressionante sobre o Gullag soviético, a historiadora Anne Applebaum publicou outra obra excepcional, “A Cortina de Ferro — O Fim da Europa de Leste”. De quebra, mostra a insuficiência de Hannah Arendt para interpretar a vigência do totalitarismo no Leste Europeu. A pesquisadora anota: “As políticas mais duras impostas no bloco soviético em 1947 e 1948 não foram (...) meramente, e seguramente não só, uma reação à Guerra Fria. Foram também uma reação ao fracasso. A União Soviética e os seus aliados locais não tinham conseguido conquistar o poder pacificamente”. A autora mostra que, apesar do quadro semelhante, havia nuances no stalinismo de cada país, como Hungria, Polônia e Alemanha Oriental. (Civilização Editora, 697 páginas, tradução de Miguel Freitas da Costa)
“A Primeira Guerra Mundial”, de Margaret MacMillan
As editoras publicaram livros densos sobre a Primeira Guerra Mundial. Saíram obras de Max Hastings, Peter Englund, Christopher Clark e Niall Ferguson (o mais polêmico). A leitura dos quatro autores dará ao leitor um painel amplo do que foi a Grande Guerra, como era conhecida em seu tempo. Mas vale a pena ler “A Primeira Guerra Mundial”, da historiadora inglesa Margaret MacMillan. A pesquisa é exaustiva e o texto é fluente. É o complemento ideal para os demais livros mencionados. (Globo Livros, 724 páginas, tradução de Gleuber Vieira)
“A Festa da Insignificância”, de Milan Kundera
O pequeno romance “A Festa da Insignificância”, de Milan Kundera, recebeu uma resenha próxima da mendicância num jornal de São Paulo, que não percebeu a ironia, o humor e a sutileza da história (leituras rápidas às vezes são empobrecedoras). O autor tcheco cometeu o “erro” de sua vida ao obter sucesso com o belo (“mas” popular) “A Insustentável Leveza do Ser”. Comparável a Saul Bellow, Philip Roth, Ian McEwan, John Updike e Joyce Carol Oates, em termos de qualidade literária, Kundera é lido, às vezes, como se fosse um Sydney Sheldon sofisticado. Uma comparação esdrúxula. Outra coisa que choca alguns acadêmicos é o fato de Kundera ser um ensaísta de primeira linha, com textos do balacobaco sobre, por exemplo, Cervantes. (Companhia das Letras, 236 páginas, tradução de Teresa Bulhões)
“O Pintassilgo”, de Donna Tartt
O romance “O Pintassilgo”, de Donna Tartt, é Fiódor Dostoiévski e Charles Dickens transplantados para os tempos atuais. Porém, ao adaptar a história noutra época, e não no século 19, a escritora americana recria seus influenciadores, mudando-os. Assim, ela é e não é a Dostoiévski e a Dickens de saia. Há uma certa ironia, talvez uma certa brutalidade feminina (rara de se ver, exceto em Joyce Carol Oates), que a diferencia, definindo uma persona literária específica. De resto, o livro é muito bem escrito e a história é muito boa. Donna Tartt transforma a história policial em grande literatura, poderiam dizer P. D. James e Ruth Rendell (admiradora da prosa de Donna Tartt). Uma crítica negativa de James Wood, num raro momento infeliz, “produziu” parte da crítica patropi, quase sempre colonizada. (Companhia das Letras, 728 páginas, tradução de Sara Grünhagen)
“A Balada de Adam Henry”, de Ian McEwan
O escritor britânico Ian McEwan consagrou-se com a obra-prima “Reparação”, um dos grandes romances do século 21. Mas não deixou de publicar boa literatura. Agora, lança mais um livro apontado como racionalista, ou melhor, contra a suposta irracionalidade das pessoas. No romance que saiu este ano no Brasil, o jovem Adam Henry tem leucemia e precisa fazer uma transfusão de sangue, mas sua família, composta de Testemunhas de Jeová, é contrária. A juíza Fiona Maye, séria e competente, enfrenta a parada, mas, no meio do caminho, surpreende-se com novos fatos e angulações. Espécie de “Reparação” menor, mas de idêntica qualidade. (Companhia das Letras, 200 páginas, tradução de Jorio Dauster)
“Armênio Guedes — Sereno Guerreiro da Liberdade”, de Sandro Vaia
Se Luís Carlos Prestes era autoritário e stalinista, o jornalista Armênio Guedes, nos seus anos de militância, tinha um comportamento completamente diferente. Era heterodoxo, porque, mesmo comunista, desconfiava do voluntarismo e do esquerdismo doentio de alguns companheiros de jornada. Mantinha uma relação aberta com integrantes de outros partidos. Talvez seja uma contradição dizer que uma pessoa é comunista e democrata, porque os comunistas em geral veem, ou viam, a democracia como uma etapa para algo “melhor”, o paraíso comunista, e não como um valor universal e ponto de chegada. Ainda assim, Armênio Guedes talvez possa ser considerado como um socialista democrático. Era contra a luta armada e apontou, com clareza, as razões de seu fracasso. (Barcarolla, 254 páginas)
“Sócrates”, de Tom Cardoso
Sócrates era um craque nos gramados e o mais politizado dos jogadores de futebol fora deles. No Corinthians e na Seleção Brasileira fez partidas memoráveis, dando passes magistrais. Era um jogador inteligente. Ao lado de Casagrande, comandou a democracia corintiana. Era médico e atuou como comentarista esportivo, sempre crítico. Devido ao alcoolismo, morreu cedo. Tom Cardoso diz que era o mais original dos jogadores. A biografia mostra o homem, o cidadão e o jogador de maneira integral, sem proteções e salamaleques. (Objetiva, 264 páginas)
“Pizzolato — Não Existe Plano Infalível”, de Fernanda Odilla
O livro de Fernando Odilla resulta de um acompanhamento meticuloso da história de Henrique Pizzolato, um dos formuladores do mensalão, ao lado de Marcos Valério, Delúbio Soares e José Dirceu. Um formulador menor, é possível, mas ainda assim um partícipe do grupo que criou um meio para financiar (comprar) apoio político. No caso de Pizzolato, há indícios de enriquecimento pessoal. Repórter do primeiro time, Fernanda Odilla mostra, detalhadamente, como Pizzolato saiu do Brasil, escapando para a Argentina e, daí, para a Espanha e, em seguida, para a Itália. (Leya, 320 páginas)
“Tudo ou Nada — Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X”, de Malu Gaspar
O livro da repórter Malu Gaspar poderia ter outro título: “Radiografia do Capitalismo Aloprado no Brasil”. Para não dizer, no lugar de “aloprado”, “irresponsável”. A jornalista, ao buscar entender e mostrar como um empresário chegou tão longe, com uma estrutura praticamente de papel, acaba por dissecar um tipo de capitalismo, não inteiramente brasileiro, mas com certa especificidade patropi. É possível que Eike Batista tinha certa consciência dos riscos, mas fica-se com a impressão de que os governantes do PT, como Lula da Silva e Dilma Rousseff, não conseguiram entender o significado das jogadas financeiras do dom Juan. É provável que ele tenha usado as relações com os governantes nacionais para se tornar crível no exterior. (Record, 546 páginas)
“Operação Banqueiro”, de Rubens Valente
O repórter Rubens Valente escreveu um livro de rara excelência, sem denuncismo e sensacionalismo. É óbvio que aqueles que foram desnudados, como o banqueiro Daniel Dantas, não apreciam a pesquisa, sugerindo que não há provas cabais. Mas o leitor perceberá que o que há de sobra neste livro — uma reportagem sobre rapinagem no capitalismo patropi — são provas bem documentadas. “Operação Banqueiro” não é um panfleto. É trabalho de repórter que checa exaustivamente aquilo que investiga e publica. (Geração Editorial, 464 páginas)
“A Rua das Lojas Escuras”, de Patrick Modiano
Em Portugal, o romance o Nobel de Literatura Patrick Modiano saiu com o título de “A Rua das Lojas Escuras”. No Brasil, pela Editora Rocco, será publicado, em dezembro, com o título de “Uma Rua de Roma”. O livro é, como sempre nas histórias do autor francês, sobre a memória. Um homem, que trabalhava para uma agência de detetives, perde a memória e tenta se reencontrar. Conversa com várias pessoas, juntando cacos e, aos poucos, vai tentando recompor seu ser. Tem a ver com a história do nazismo, durante a ocupação francesa. Com frases, períodos e capítulos curtos, o livro não faz concessões ao leitor. Não lhe dá nada de bandeja. Patrick Modiano é avaro em esclarecimentos. (Relógio d’Água, 185 páginas, tradução de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira)
“Vale Tudo — O Som e a Fúria de Tim Maia”, de Nelson Motta
Morto aos 55 anos, em 1998, Tim Maia era compositor, cantor, músico e, vá lá, “empresário”. Costumava dizer que, embora intelectualizados, Caetano Veloso e Chico Buarque eram passados para trás pelas gravadoras. Ele, pelo contrário, jogava pesado com as múltis. Usuário de drogas — cocaína, maconha e o que aparecesse — e bebum quase profissional, faltava a shows, dava cheques sem fundos e não comparecia às muitas audiências judiciais. Mas era um gênio musical. A biografia de Nelson Motta conta tudo, sem deixar de mostrar o pior do artista, mas o faz com delicadeza. (Objetiva, 389 páginas)
“As Pequenas Mortes”, de Wesley Peres
Se você quer ler um autor que vai surpreendê-lo, pela qualidade da escrita, pela economia de recursos para contar uma história e pela densidade ao examinar a vida, não perca tempo: busque a prosa precisa de “As Pequenas Mortes”, de Wesley Peres. O autor começa a despertar interesse no exterior, notadamente na terra do bardo Shakespeare. (Rocco, 120 páginas)
“Reprodução”, de Bernardo Carvalho
Nos nossos tempos de violência física nas ruas e brutalidade verbal nas redes sociais e blogs — nas quais adversários políticos se tratam como inimigos em guerra aberta, com brigas homéricas sendo apresentadas como debates —, nada como ler o excelente romance “Reprodução”, de Bernardo Carvalho. Trata-se de uma ficção que captura, às vezes, com precisão o espírito dos tempos atuais — bárbaros, selvagens, anti-civilização. (Companhia das Letras, 168 páginas)
"Homem invisível", de Ralph Ellison
“Homem Invisível” deve ser incluído entre os 10 melhores romances americanos do século 20 (ao lado de “O Grande Gatsby”, “O Som e a Fúria”, “Adeus às Armas”, “O Arco-Íris da Gravidade”, “Coelho Corre”, “A Filha do Coveiro”, “O Teatro de Sabbath”, “Henderson, o Rei da Chuva” e “O Sal da Terra”). Ralph Ellison, um autor requintado, capturou, com rara mestria, a vida complexa dos negros americanos. O registro da brutalização das ruas, como se os personagens estivessem vivendo numa espécie de transe, impressiona. A nova tradução é bem-vinda. (José Olympio, 574 páginas, tradução Mauro Gama)
“Quem Samba Tem Alegria — A Vida e o Tempo de Assis Valente”, de Gonçalo Junior
Assis Valente compôs “Boas festas” (“Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel”), “Alegria”, “Cai cai balão”, “Camisa listrada”, “Boneca de pano” e “Brasil pandeiro”, clássicos da música popular brasileira. Alguns cantores que gravaram suas músicas: Francisco Alves, Aracy de Almeida, Elza Soares, Isaura Garcia, Márcia, Maria Alcina, Simone, Olívia Byington, Wanderléa, Nara Leão, Maria Bethânia, Zezé Motta, Clara Nunes, Vanusa, Eliete Negreiros, Ney Matogrosso, Paula Toller, Adriana Calcanhotto. O biógrafo contesta sua homossexualidade. Assis Valente matou-se em 1958. (Civilização Brasileira, 644 páginas)
“Pensando o Século XX”, de Tony Judt
O britânico Tony Judt era uma espécie rara de historiador-filósofo. Ao mesmo tempo que escreveu livros fundamentados de história, publicou obras de reflexão sobre a história e grandes personalidades, como Jean-Paul Sartre e Raymond Aron. “Pensando o Século XX”, escrito com o apoio do historiador Timothy Snyder — Tony Judt estava muito doente —, é importante para se compreender o mundo contemporâneo. “Barack Obama (...) está se mostrando muito hábil no que alguns de nós temiam que fosse sua qualidade saliente — o desejo de ser julgado razoável. Não necessariamente fazer concessões, mas o desejo de ser visto como alguém que faz concessões. O que torna muito difícil liderar.”
“Getúlio” (1945-1954), de Lira Neto
A história do Brasil no século 20 ficou mais precisa e lúcida com a publicação da biografia de Getúlio Vargas, em três volumes, pelo jornalista Lira Neto. A trilogia, mais do que um estudo do presidente que fortaleceu o Estado e expandiu a industrialização do País, é um grande mergulho na história do Brasil, dos fins do século 19 até meados da década de 1950. Era o livro que faltava nas bibliotecas. (Companhia das Letras, 448 páginas)
Thiago Albernaz (PSDB) assegura que vereadores se articulam em favor de uma Câmara menos subserviente. Promessa de "independência" cativa e Blocão teria 23 votos
Em nota enviada à imprensa, procurador-geral da República diz que “não permitirá que prosperem tentativas de desacreditar as investigações e os membros desta instituição”
De acordo com informações da Polícia Militar de São Paulo, 800 pessoas participaram do protesto
Segundo a SSP-GO, 2,2 mil pessoas foram abordadas; cinco armas, 58 munições, 12 carros e centenas de mercadorias sem notas fiscais foram apreendidas
Segundo a promotora, Teresinha de Jesus, o prefeito Argemiro Rodrigues (PMDB) contratou empresa envolvida na Operação Curto-Circuito e que estava impedida de participar de licitações
Mesmo tendo lançado álbum neste ano, cantora colombiana não concorre a nenhuma categoria. No mesmo dia em que foi divulgada a lista, ela publicou a "imagem-resposta"
Defesa alegou que condenados que cumprem pena em regime semiaberto, mais severo que o do ex-tesoureiro do PT, obtêm a autorização para passar o feriado com a família
Até o último dia 3, haviam sido notificados 26.743 casos de dengue e 18 mortes pela doença
Deputado eleito e já lançado pré-candidato pela oposição à sucessão em sua cidade,
o jovem empresário — que pode integrar o supersecretariado de Marconi — contesta a gestão petista no município e diz que muito do que foi feito deve-se ao governo estadual
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Foto: Renan Accioly[/caption]
Em uma eleição, não importa o quanto alguém seja conhecido, ou quanto tenha de dinheiro, se seja ou não uma celebridade: o que importa é ser bom de voto. E isso só o teste da urna poderá determinar. O ex-secretário estadual de Indústria e Comércio Alexandre Baldy (PSDB) passou com louvor pela prova de fogo: chegou à casa dos seis dígitos, “com exatos 107.544 votação” para deputado federal, como ele gosta de frisar. Ao mesmo tempo, ele confidencia: “Nunca havia participado de nada em minha vida que me consumisse tanto como uma campanha eleitoral.” Foram mais de cem municípios visitados em 90 dias de campanha.
Isso prova que Baldy, um jovem empresário de sucesso, está aprovado como político. Tanto é que, como alguém já experiente na área, já observa cenários distantes e tem uma correlação especial com o tempo da política. Não esconde, por exemplo, seu desejo de participar, “direta ou indiretamente”, do processo eleitoral de Anápolis. Mesmo que não dissesse isso, ele é o pré-candidato incensado por toda base oposicionista e já passa a adotar um discurso de contestação da administração petista de João Gomes, mas centrando ataques para desconstruir o mito — como assim considera — de boa gestão que Antônio Gomide (PT) deixou.
Em curto prazo, o parlamentar eleito deve ter de decidir entre dois caminhos: ir para o Congresso e fazer um bom papel na defesa de Goiás — salienta principalmente a luta por uma reforma tributária justa para o Estado — ou ocupar o seleto secretariado de Marconi Perillo (PSDB), provavelmente na recém-criada Secretaria de Desenvolvimento Econômico, uma superestrutura que abrigará três pastas (a de Indústria e Comércio, a da Agricultura e a de Ciência e Tecnologia). Como bom político, apresenta discurso consistente para ambas as posições, mas deixa em aberto qual será a escolha.
Euler de França Belém — O sr. pretende ser candidato a prefeito de Anápolis?
Acredito que, depois do processo eleitoral, de ter sido eleito deputado federal por Goiás com 107.544 votos — e gosto sempre de agradecer a todos os eleitores que em mim votaram — e 30 mil desses votos recebidos em Anápolis, estou cacifado para participar do processo eleitoral, direta ou indiretamente. Temos agora um prazo grande para refletir e debater, mas, de toda forma, vou participar do processo eleitoral de Anápolis em 2016.
Euler de França Belém — Mas a tendência é de que o sr. seja candidato. Basta observar que, sempre que alguém de sua base concede uma entrevista, sempre lembra que o candidato em Anápolis tem de ser Alexandre Baldy.
A gente vê que isso é uma visão natural, não só da base, mas que vem do fato de o eleitorado acreditar em mim. Eu represento a renovação na política e tive uma expressiva votação na cidade, lutando contra a Prefeitura e contra o principal candidato do PT. Toda a máquina em Anápolis estava contra mim. Além dessa questão, tive um candidato local de nossa base — Frei Valdair (PTB), que teve 14 mil votos para deputado federal. Isso, querendo não, é algo que acaba influenciando, a ponto de muitos na cidade apostarem que eu teria menos votos do que ele. Tudo isso mexe no jogo político municipal a meu favor e, obviamente, me credencia. Ou seja, foi uma vitória muito importante para mim.
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Foto: Divulgação[/caption]
Euler de França Belém — Entre ser candidato a prefeito de Anápolis em 2016 ou ser candidato a governador em 2018, qual é o cenário mais viável, a partir de hoje?
Ainda é muito precipitado discutir o cenário de sucessão estadual, que vai passar também pelo resultado das eleições municipais. O governador Marconi é o maior líder político da história de Goiás, isso é inquestionável. Mas um processo de sucessão com 20 anos de poder é algo desafiador, que poderá exigir uma imagem nova, de renovação, leve para ser carregada. Obviamente, as prefeituras que poderão ser conquistadas em 2016 terão papéis estratégicos em 2018. Para a base do governador Marconi Perillo, eleger os prefeitos de Goiânia, de Aparecida e de Anápolis, além de manter as prefeituras de Rio Verde, de Itumbiara, de Luziânia e de Catalão, entre outras, é algo muito estratégico.
Para quem entra na política, o sonho é sempre ser presidente da República. Todos querem chegar o mais alto e o mais longe possível do caminho. Todo ser humano é movido a sonhos e com certeza isso não é diferente comigo. Se me perguntarem o que eu sonho, vou dizer que é ser presidente do Brasil, de ter em mãos as condições de transformar, de melhorar meu País.
Se eu tivesse a percepção de que haverá uma oportunidade de participar do processo de sucessão estadual, com certeza eu diria sim. Não vou desmerecer nenhuma outra situação, mas são 6 milhões e meio de goianos e eu sou um deles.
Euler de França Belém — O sr. sempre diz que a gestão de Antônio Gomide (PT) foi um mito, que precisa ser desnudado. O que exatamente quer dizer com isso?
Se observarmos como tem sido este ano da administração do prefeito João Gomes, os detalhes internos da gestão, as mazelas repassadas, a exemplo do que ocorreu em Goiânia, veremos que é algo muito difícil, para não dizer uma herança maldita. São contas complicadíssimas, com elevado índice de custeio com servidores, para não dizer que estão ultrapassando limites fiscais, que agora tentam corrigir para que tenham as contas aprovadas em 2014. Houve dificuldade na coleta de lixo, assim como houve em Goiânia; houve atrasos em pagamentos, como comprovam fatos mencionados no início do ano.
Andando pela cidade mais frequentemente durante a campanha, nos mais diversos bairros, a gente pôde perceber um descuido que é percebido e que é reclamado pela população anapolina. Quando falamos da gestão de Gomide, podemos dizer que foi um bom prefeito em relação a outros gestores, mas apenas mediano. Anápolis teve infelicidades nas administrações anteriores, que deixaram a cidade a desejar em termos de gestão, com falta de investimentos e dificuldades financeiras. Antônio Gomide pegou o município em trajetória ascendente em termos de arrecadação, com uma gestão feita pelo ex-prefeito Pedro Sahium para, em minha opinião, corrigir os desafios financeiros e econômicos. Sahium não investiu, mas fez uma administração visando melhorar a máquina, para que se pudesse crescer e, então, investir.
Gomide teve, portanto, condições muito melhores que seus antecessores, com arrecadação absurdamente crescente. Mas o que ele deixou pela cidade, em termos proporcionais, comparadas as arrecadações de cada período? Ele fez muito? Pode até ter feito, mas poderia fazer muito mais. O que deixou de resultado para a saúde, para a educação, para a segurança pública? O que foi feito pelos bairros mais carentes? As casas construídas no programa Minha Casa Minha Vida foram pagas pelo povo ou o povo as ganhou? De quem é esse mérito? Dar a casa é uma coisa; agora, construir a viabilidade para que o sujeito compre a casa, nessa situação o mérito é de quem a compra, com o salário suado, mês a mês. Faltou a Gomide demonstrar o que fez, dia a dia, e agora essa cortina está caindo.
Cezar Santos — Assim que João Gomes assumiu a administração, logo foi levantada a questão do problema financeiro da prefeitura. Mas, durante a gestão de Gomide, ninguém falou nada, nem mesmo a oposição, que parece ter ficado deitada em berço esplêndido, só batendo palmas.
Eu não chego a dizer que a oposição tenha ficado deitada ou batendo palmas, mas que tenha lhe dado uma carta de crédito confiando que ele faria uma boa gestão. Creio que o primeiro mandato dele indiscutivelmente foi melhor do que o segundo. Ou seja, os vereadores acreditavam que, de fato, Gomide estava fazendo uma boa gestão. Obviamente, eles, por serem da oposição, também não têm acesso às contas da Prefeitura. Isso também os impede de agir de forma mais incisiva.
Marcos Nunes Carreiro — O sr. falou que Gomide poderia ter feito muito mais. O que é esse “muito mais” que poderia ter sido feito?
A cidade cresceu muito em função dos investimentos que o governo do Estado fez e construiu. A arrecadação aumentou porque mais empresas se instalaram em Anápolis e empregou-se muito mais. Houve um círculo econômico virtuoso. Veja o que era o Daia [Distrito Agroindustrial de Anápolis] antes do governo Marconi e o que é o Daia hoje, depois da era Marconi. Isso fez uma diferença absurda na vida da cidade. O Huana [Hospital de Urgências de Anápolis], hospital referência da cidade hoje, foi construído pelo governo do Estado.
A prefeitura nunca promoveu, nesta gestão de Antônio Gomide, absolutamente nada em termos de investimento e desenvolvimento. O Estado fez esse papel para que ela colhesse os frutos.
Euler de França Belém — No caso o Daia, sem esse incentivo fiscal do Produzir, seria muito menor?
Eu arrisco a dizer que ele nem existiria mais.
Euler de França Belém — Então, mais uma vez, o governo do Estado foi decisivo nestes 16 anos.
Sim, foi fundamental.
Euler de França Belém — É verdade que fisicamente o Daia não comporta mais unidades e, por isso, há pelo menos 70 novas empresas que precisariam de espaço e procurando outros municípios ou até outros Estados. Como está realmente essa situação?
Vou lhe dar um exemplo: se você é dono de um jornal e procura uma casa para ser a sede dele, vai esperar um ano até aparecer uma casa para alugar? Claro que não. Sou empresário e abri minha empresa com dois colaboradores e comecei do nada. Aluguei um prédio no centro de Anápolis e então dei início a ela. Sei da dificuldade que é montar uma empresa e meu sonho era ir para o Daia, que era uma referência de se tornar um grande empresário, independentemente do tamanho da empresa.
Hoje, em nenhum lugar do Brasil, o empresário vai esperar por área. Acho, sim, que o Daia precisa de expansão, e o governo fez uma desapropriação para isso, em torno de 15 alqueires. Mas precisamos mesmo é repensar uma estratégia para assentar as empresas. Hoje, a concessão de área é importante, mas não é mais como era há dez anos. A concorrência é muito grande e o porte das empresas vai diminuindo. Isso faz diferença, ainda mais que o centro de consumo é a região Sudeste. Se a empresa vem para Goiás é porque há o incentivo fiscal. Dessa forma, se não temos uma reforma tributária ou algo que dê essa garantia, nem adianta ter área.
Vivemos no Brasil, desde 2012, um processo de estagnação por parte do investidor produtivo em termos de diversificação do contexto. Conversei com diversos empresários de várias partes do Brasil e do mundo e eles me falam que não vão investir agora porque não têm certeza se vão contar com o benefício do tributo. Vou dar o exemplo do polo farmoquímico, que eu conheço bem: o insumo vem da Ásia, em grande parte, e da Europa, por via marítima. Antigamente o produto era desembaraçado no porto seco, que tinha um incentivo para importações. Hoje, com o fim da guerra dos portos, o porto de Santos (SP), que já era ineficiente, aumentou ainda mais a centralização das importações, um porto. Então, eu trago o produto para Anápolis, para transformar o insumo em medicamento e revendê-lo novamente em grande parte onde? Em São Paulo.
Ora, que viabilidade financeira existe nisso? Todo mundo aqui percebe que não há conta para se fazer, que o ideal seria deixar a empresa o mais próximo possível de Santos, que fica em São Paulo, porque é de onde vem a matéria- prima e onde se vende o produto resultante. O princípio ativo vem do exterior, o material de embalagem tem cartucho, plástico e papel produzido em São Paulo e no Nordeste e alumínio vindo de São Paulo. Ou seja, nós não temos nada aqui de matéria-prima. Não há viabilidade. O mesmo ocorre com o carro. A Hyundai só está em Anápolis por causa da ousadia do governador Marconi Perillo com os incentivos para a montadora. Ora, as peças de automóveis são produzidas em São Paulo, onde estão mais de 60% das autopeças do País. Não se faz carro em Goiás sem incentivo fiscal.
Então, como pensar que a área para instalação faça diferença para uma Hyundai? Quando a Mitsubishi investiu R$ 1,2 bilhão em Catalão não houve área do Estado para expansão, a empresa comprou o terreno para isso. Se avaliarmos o mercado capitalista competitivo que vivemos hoje, veremos que não há empresa esperando área. Uma empresa não espera um cliente bater à porta dela para dizer que quer comprar um produto. Uma empresa não espera nada.
Em Anápolis há oportunidades para o município continuar crescendo, mas existem também outros gargalos que são tão ou mais importantes do que a área. A mão de obra é um deles. Se você for hoje à Praça Bom Jesus, no centro da cidade, verá que tem carro de som para chamar as pessoas para trabalhar.
Marcos Nunes Carreiro — A prefeitura, há cerca de um ano, lançou números falando sobre a qualificação profissional na cidade. O programa chama-se Qualificar e tem parcerias com entidades como Senai e Senac, entre outras. Em termos de qualificação mesmo, o que isso interfere para as empresas do Daia, que são o carro-chefe da economia local?
O gargalo principal, não só de Anápolis, mas de todos os municípios do Brasil, é a qualificação de mão de obra. Para uma empresa séria, correta, que queira de fato investir e não especular, a mão de obra é o principal, aliada ao incentivo fiscal. Qual indústria do Daia que hoje não está com placa ou faixa de “contrata-se”? Cite-me uma. Não há, todas elas estão contratando. O “turnover” — essa entrada e saída de empregados em uma empresa — é muito alto. Há empresas que mandam ônibus para Goianápolis, Gameleira e outros municípios próximos. Ou seja, o Daia reflete não só em Anápolis. E, se está vindo gente de outros municípios, é porque não estão sendo encontradas pessoas suficientes na cidade de Anápolis. Ou é mais barato uma empresa no Daia enviar um ônibus para Goianápolis ou para a Vila Jaiara [bairro de Anápolis], buscando colaboradores? Por isso tudo, digo que não vi um trabalho forte da Prefeitura em termos de qualificação de mão de obra. O que vejo é o Senai trabalhando muito bem, o sistema da Federação do Comércio, da mesma forma. Se houve parceria, a Prefeitura se beneficiou da estrutura do sistema para aprimorar a mão de obra. Mas, para mim, o gargalo principal é a falta de qualificação, associada à insegurança jurídica do incentivo fiscal.
Anápolis tem a plataforma logística multimodal, quase 4 milhões de metros quadrados, que poderia ser área bruta locável ou edificável. Estamos falando de quase 100 alqueires, quase um outro Daia que existe na plataforma, para se edificar com novas empresas. Vejo que o governo tem as ferramentas para que a expansão do Daia possa se dar sem que isso afete a vinda de novos empreendimentos. E falo como empresário: se você quer investir e fazer a cidade funcionar, o governo estadual nunca atrapalhou o crescimento produtivo de Anápolis — pelo contrário, ele só promoveu.
Precisamos agora aprimorar a forma de gestão e acredito que o governador Marconi Perillo fará isso neste quarto mandato. Os condomínios industriais têm de evoluir. Anápolis é um problema. A Prefeitura cobra o IPTU, mas o que faz dentro do polo industrial? Troca uma lâmpada? Ela roça sequer um palmo de mato? Corrige o asfalto? Constrói calçadas?
Marcos Nunes Carreiro — A manutenção do polo, então, ocorre por conta do Estado?
Tudo pelo governo do Estado, mas a Prefeitura cobra o IPTU.
Frederico Vitor — Alguns empresários do Daia se queixam do fornecimento de energia elétrica. Isso existe de fato?
A questão do problema com a energia existiu por um período, porque algumas empresas se comprometeram com a Celg a investir em subestações próprias. Esses acordos não foram cumpridos. E a Celg tinha feito um planejamento para, à medida que essas empresas investissem como estava acertado, liberariam a carga para o restante do distrito, o que tranquilamente atenderia a todo o polo. Com esses compromissos não sendo atendidos dentro do cronograma, evidentemente houve uma sobrecarga do sistema. Isso agora está sendo contornado. Existem dificuldades ainda, não vou negar, mas a Celg havia feito uma programação em cima de subestações que não foram construídas por parte de algumas empresas.
Euler de França Belém — Há queixas da população anapolina de que o IPTU do município é um dos maiores do Estado. E falam em aumento de 53% no imposto. Isso procede?
Pelo que ouvi falar, os aumentos serão ainda maiores do que isso, que seria um aumento linear. Mas alguns bairros podem sofrer aumento de 400%, 600%, até 800%. Na minha visão, como cidadão, acredito que o povo não suporta mais aumento de carga tributária. Pelo contrário, temos de tornar a máquina mais eficiente. Está aí o exemplo que Marconi dá agora, reformando a máquina administrativa para enxugar. Assim ele conseguirá diminuir custos e investir em serviços públicos. Se a opção é por aumentar impostos, daríamos o recado claro a população vai pagar o preço pelo fato de a máquina ser inoperante ou ineficiente, seja esse aumento de 1% ou 1.000%. É justo que haja a correção anual, de acordo com a inflação, mas, se deixaram de aumentar por um, dois ou dez anos, isso não é culpa do povo. Não dá para colocar tudo na conta da população de uma só vez.
Euler de França Belém — Por que o prefeito João Gomes diz que não apoiou Iris Rezende (PMDB) no segundo turno, mas o pessoal da Prefeitura demonstrou esse apoio? Por que houve isso? Gomide esteve com Iris, assim como o deputado Rubens Otoni (PT), mas o prefeito se escondeu.
Qualquer cidadão anapolino político, ou que pretenda participar de um processo eleitoral no futuro, tem de pensar duas vezes em andar com Iris na cidade. O desgaste de Iris e a percepção negativa que se tem acerca de sua imagem em Anápolis são muito grandes.
Euler de França Belém — Mas, afinal, o prefeito apoiou Iris ou não?
Acredito que não. O prefeito João Gomes sabe que participará do próximo processo eleitoral em Anápolis e sabe que andar ao lado de Iris é perder capital político.
Euler de França Belém — Qual a avaliação que o sr. faz da administração do prefeito João Gomes até o momento?
Ele tem lutado contra essas dificuldades da herança desafiadora que o ex-prefeito deixou. Creio que ele deva imprimir ritmo e identidade para sua administração a partir do ano que vem. João Gomes recebeu a Prefeitura já no começo do processo eleitoral, com todas as parcerias sendo suspensas.
“Trabalhar com Marconi foi um aprendizado”
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Fotos: Renan Accioly[/caption]
Marcos Nunes Carreiro — Em relação à tal herança “maldita”, quem teria mais dificuldades para administrar, Paulo Garcia (PT), em Goiânia, ou João Gomes, em Anápolis?
Tudo é proporcional. As dificuldades talvez sejam as mesmas, mas, quando temos ciência dos detalhes é que podemos dizer, em termos comparativos. Se tivéssemos conhecimento profundo para saber dos gastos de cada prefeitura, aí sim, teria como lhe dar uma resposta sobre qual delas seria a pior, em termos da falta de uma boa gestão. Sem esses dados, fica difícil responder.
Euler de França Belém — Sua vitória para deputado federal foi significativa e importante para a renovação do PSDB. Agora, o sr. está em um dilema, entre ir para Brasília ou aceitar o convite do governador Marconi para a Secretaria de Desenvolvimento. Como pretende resolver esse dilema?
É natural. O governador tem intenção de trazer alguns deputados federais para poder dar oportunidade para companheiros de campanha assumirem mandato em Brasília. Creio que vários outros deputados eleitos também receberam esse tipo de sondagem. Como já fui secretário da Indústria e Comércio e presidente do Conselho Nacional de Secretarias de Desenvolvimento Econômico, como tenho experiência no setor produtivo e fui também presidente de sindicato, talvez eu tenha condições de bagagem para entrar no perfil dessa nova secretaria. É uma reflexão, mas não recebi um convite oficial. São sondagens, conversas, para que a gente possa entender o que é mais importante para o que pretendemos em relação ao povo de Goiás, a nosso futuro em termos políticos e importante também para o trabalho que pretendemos desempenhar. É um desafio muito grande receber esse convite para compor a equipe de governo, porque às vezes o eleitor pode interpretar de forma errônea o deputado em quem votou assumir um cargo assim.
Marcos Nunes Carreiro — Mas o sr., apesar de eleito em uma campanha que foi árdua e teve uma vitória saborosa, teria vontade de ir para uma secretaria?
Os dois caminhos nos deixam muito honrados. Ser lembrado para uma secretaria tão importante e tão estratégica de um governo com um líder que é exemplo em termos de arrojo e de ousadia. Trabalhar com Marconi Perillo foi uma lição, um aprendizado, uma grande bagagem para minha vida profissional. Voltar para a secretaria e trabalhar novamente ao lado de Marconi é um ganho para minha vida profissional. E não deixa de ser um grande desafio gerir toda essa estrutura que será incorporada à atual SIC, com Agricultura e Pecuária, Ciência e Tecnologia.
É uma reforma muito coerente, englobando todo o setor produtivo para pensarmos na cadeia como um todo. Investimento na agricultura e na pecuária é o mesmo que na indústria e no comércio. Agroindústria é a convergência dos dois. Se pensarmos em uma política de desenvolvimento macro, a reforma é inteligente para ambos os setores. E o que precisamos para evoluir nesse investimento? Ciência e tecnologia. Temos então o Bolsa Futuro, que é o programa mais fantástico do Brasil em termos de qualificação profissional. Em segundo lugar, a inovação tecnológica para que se tornem mais competitivos nossos produtos, nossas indústrias, nossas atividades, seja no campo, na indústria, no comércio e nos serviços.
Por outro lado, assumir uma cadeira na Câmara dos Deputados também me fascina, pela experiência que isso pode representar, por participar de uma legislação por um Brasil melhor, levantar temas e debates em um momento no qual a oposição pode ser diferente, com toda essa crise que vivemos hoje, com o escândalo Petrobrás. Estar no Congresso neste momento pode ser a possibilidade de viver um momento ímpar.
Cezar Santos — O sr. passou pelo teste da urna se saindo muito bem. O que foi mais interessante na campanha, como percebeu esse período?
O teste da urna não é humano. Eleição não é algo humano. É algo de um período muito curto, que, com a Copa do Mundo no Brasil ficou ainda mais reduzido. A população em geral não quis falar de política antes de agosto e tudo se afunilou mesmo em setembro. Tivemos de nos apresentar, nos dedicar, trabalhar, de uma forma muito concentrada. Isso é anormal. Nunca havia participado de nada em minha vida que me consumisse tanto, que fosse tão forte, como uma campanha eleitoral. É preciso andar por um número de municípios muito grande em um prazo muito curto. O povo o espera e o abraça para ouvir sua proposta. Se você vai antes, em julho, as pessoas não queriam saber de eleição, às vezes sequer o receberiam. Ali você perdia tempo, energia e poderia até ser malvisto, porque as pessoas chegavam a dizer “volta aqui na época da eleição”. Ouvi isso várias vezes em julho, não adiantava falar que já era período de campanha. Quando voltávamos em setembro, era outra coisa, estavam totalmente receptivos.
Cezar Santos — O sr. se lembra de quantas cidades visitou?
Arrisco-me a dizer que tenha visitado mais de cem cidades em três meses, sendo que eu ainda tinha de concentrar ações em Anápolis. Fui um dos poucos deputados que foram votados em todos os 246 municípios de Goiás. Isso é um dado de muito simbolismo.
Euler de França Belém — Anápolis está querendo uma Secretaria de Indústria e Comércio também, autônoma. Como o sr. vê essa situação?
Primeiramente, fico satisfeito por ter um governador anapolino de coração. Não poderíamos almejar nada melhor do que ter reeleito Marconi Perillo e então ficarmos com a tranquilidade de ver benefícios assegurados para a cidade por ter o líder do Executivo sempre a seu lado. Isso me tranquiliza em todas as demandas que o município tenha. Essa visão dos últimos tempos, de que o governador prestigiaria um anapolino como ocupante de uma secretaria, nesta reforma foi alterada. A SIC passa a não existir mais, foi fundida com a da Agricultura e a de Ciência e Tecnologia.
Precisamos agora ultrapassar essa imagem de que estamos preocupados com cargo. Não, nós estamos preocupados com benefícios, com que a vida das pessoas possam melhorar. Queremos que as indústrias vão para o Daia, que invistam no polo, que lá tenha mais empregos, que mais hospitais sejam construídos e ampliados, o presidio seja inaugurado, que o Centro de Convenções e o aeroporto de cargas sejam inaugurados, que a plataforma logística seja concedida e definitivamente consolidada. Temos de manter nosso espaço com os benefícios e ultrapassar a preocupação de que vamos perder espaços. Como anapolino, tenho de lutar pelo espaço que a cidade merece. Marconi teve 76% dos votos na eleição em uma cidade como Anápolis, com seu tamanho e seu peso político. Por isso, com certeza ela é respeitada pelo governador e isso vai implicar muitos benefícios, como já aconteceu neste terceiro governo dele, em que o município recebeu R$ 700 milhões em investimentos do Estado.
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Deputado federal eleito Alexandre Baldy: “O PSDB nacional saiu forte dessas eleições, saltando de 44 para 54 deputados federais; o PT caiu de 90 para 72. A oposição está fortalecida” / Foto: Renan Accioly[/caption]
Euler de França Belém — Para fazer um paralelo, quanto Anápolis recebeu do governo federal?
Não tenho ideia, mas foi bem menos. Hoje até brinquei, ao encontrar um jornalista e ele veio comentar sobre o viaduto do Daia. Eu lhe disse que, em minha passagem pela SIC, em conjunto com o governador, fizemos uma obra de porte muito maior, que é o Centro de Convenções, que fica bem em frente. Essa é uma referência por nós. O Centro de Convenções está praticamente pronto e deve ser inaugurado nos próximos meses. Há alguns requisitos técnicos a serem respeitados e por isso leva mais tempo.
Marcos Nunes Carreiro — Qual será o real benefício do Centro de Convenções? As pessoas falam muito sobre a rede hoteleira, por conta dos eventos, mas em que mais essa obra vai ajudar a cidade em termos de desenvolvimento?
Se nos compararmos a países que são muito mais desenvolvidos do que o nosso, vamos entrar naquela discussão: o que veio primeiro, o ovo ou a galinha? A China investe muito em infraestrutura para que, então, os investimentos sejam realizados. Ou seja, nós vamos esperar a cidade pedir o Centro de Convenções ou vamos construir o Centro de Convenções para promover o desenvolvimento? Acreditamos que é o equipamento público que promoverá o crescimento econômico, ele está dentro do segundo maior eixo econômico do Brasil, em um Estado que carece de obras assim, dentro do maior polo industrial do Centro-Oeste, com grandes empresas instaladas e uma população que cresce a cada dia e é carente de espaços para a cultura, para eventos e para a promoção do turismo de negócios. Como falar que uma obra dessas não é importante para Anápolis?
Cezar Santos — E a própria cidade já pleiteia essa obra há décadas.
Além disso, percebo que é algo que vai ajudar a cidade a se desenvolver econômica e socialmente. Não vamos discutir quem vem primeiro: não é o ovo, é a galinha, porque, se ela não para em pé, ela não bota o ovo. Então, se o governo, nas esferas federal, estadual e municipal, não fizer os investimentos necessários em infraestrutura, o crescimento e o desenvolvimento não ocorrem. Se não construir porto, a exportação não aumenta; se não constrói ferrovia, nosso produto fica menos competitivo e vende menos; se não há centro de convenções, o turismo de negócios não é promovido, os eventos não vão para Anápolis, a rede hoteleira não será incrementada. Com ele, empresas que não iriam para a cidade podem decidir escolher a cidade por contar com um dos maiores centros de convenções do Brasil, com um teatro fantástico para realizar grandes eventos. É uma obra estratégica, importantíssima e que, no futuro, quando olharmos para trás, vamos dizer o quanto Marconi foi um governador vanguardista ao decidir fazer uma obra dessa magnitude.
Marcos Nunes Carreiro — Desde sua passagem, a SIC tem um perfil de buscar o desenvolvimento pela industrialização, o que foi seguido depois pelo interino Rafael Lousa e por Bill O’Dwyer, atual titular, com o papel de vender o Estado fora do País, um trabalho que tem feito de modo satisfatório por causa de seus vastos contatos. Agora, com essa fusão, o que será exigido do novo secretário?
Acredito que demos uma entidade diferenciada para a SIC. Promovemos não só a indústria, mas o comércio, o comércio exterior, as cadeias produtivas que existem em Goiás, tanto as de vocação natural como aquelas que enxergávamos como de oportunidade. Isso demonstra que é preciso um currículo muito qualificado para assumir essa nova pasta unificada. Como eu expliquei antes, ela vai englobar quase todo o setor produtivo. Se fizermos uma política forte de comércio exterior, cobrando do Ministério das Relações Exteriores para que abra o mercado, como não vou dizer que dentro dessa nova Secretaria de Desenvolvimento Econômico tudo ficou alinhado? Ficou tudo totalmente alinhado. Tenho uma política macro para desenvolvimento econômico, em que vou alinhar o setor produtivo do campo — a agricultura e a pecuária —, que hoje representa uma parcela fundamental da balança comercial goiana e brasileira. Há uma indústria que é a extensão da produção do campo, que é a agroindústria. Temos o comércio e os serviços, que são a continuidade desse ciclo econômico. Precisamos de uma política uniforme para que isso tenha sucesso. Se colocarmos as pastas juntas, para pensá-las de uma forma unificada, para chegarmos a uma política econômica robusta, para que o Estado possa crescer, mostramos inteligência.
Mas isso tudo vai exigir do titular da nova secretaria um currículo muito qualificado, porque precisará ter relacionamento com o setor produtivo — seja pecuária, seja agricultura, seja indústria, comércio e serviços; ele tem de ter relacionamento no meio empresarial brasileiro e mundial; tem de ter relacionamento com países e suas embaixadas; tem de ter conhecimento econômico aprofundado, para discutirmos a importância, por exemplo, do incentivo fiscal e defender uma reforma tributária que não nos prejudique em Goiás; vai ter de ter conhecimento da qualificação profissional de acordo com cada região, para que tenhamos minimizado esse gargalo da mão de obra; conhecimento também para que a inovação tecnológica possa ser aprimorada e cada vez mais inserida no setor produtivo, gerando mais competitividade; e, por fim, conhecimento para que promovamos o desenvolvimento regional, sabendo que regiões como o Nordeste de Goiás têm carências maiores para receber investimento industrial. É preciso ter políticas mais arrojadas para que investimentos possam ser promovidos ou então respeitar mais as vocações locais. A tarefa e o desafio serão muito maiores, mas também poderemos produzir um “case”, mostrar que, mais uma vez, Goiás saiu na frente dos outros Estados.
Marcos Nunes Carreiro — O sr. falou sobre a reforma tributária mais de uma vez nesta entrevista. Este será um ponto chave de seu mandato, caso fique no Congresso?
Com certeza. Por acreditar que Goiás cresceu e se desenvolveu, recebendo, por exemplo, investimentos do setor automotivo que não receberia se não houvesse os incentivos, a reforma tributária tem de ser uma bandeira minha, como deputado federal eleito, como de todos os demais parlamentares goianos, todos os trabalhadores do Estado e, enfim, todos os cidadãos. Temos de mobilizar todos para que entendam o quanto é importante o aspecto do incentivo fiscal para que o arranjo produtivo possa ser cada dia mais eficiente e mais desenvolvimentista em Goiás.
Cezar Santos — Como o sr. analisa a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda de Dilma Rousseff? Ele é ortodoxo, aluno do tucano Armínio Fraga e totalmente contrário ao que a candidata Dilma pregou durante a campanha.
Dilma está fazendo exatamente o contrário do que falou durante o período eleitoral. Está tomando o caminho correto, adequado, sinal de que teremos profundos ajustes na máquina pública federal. O Brasil passará em 2015 por muitos desafios. Precisamos desses ajustes, de um governo enxuto, eficiente, prestando um bom serviço público e dando condições para o mercado confiar e investir. Se a presidente Dilma permitir que seus escolhidos atuem de forma independente, teremos um tempo promissor.
Cezar Santos — O que é difícil, porque ela se julga a própria ministra da Economia.
A presidente é centralizadora. Mas ela terá de abrir mão dessa característica para que a equipe econômica possa trabalhar de forma independente e faça o que é necessário para o Brasil trilhar o bom caminho. Teremos, então, dois desafios. O primeiro, fazer o que seja necessário fazer, ou seja, o ajuste fiscal, já que neste ano estamos fora da meta em todos os índices econômicos — nos gastos públicos, na inflação, no superávit, em termos de crescimento de dívida, concessão de crédito, inadimplência, emprego na indústria. No que é ruim estamos acima e no que é bom estamos abaixo.
O Bolsa Família é um programa fenomenal, mas temos de dar ao cidadão as condições para se promover no mercado de trabalho, para não ser um escravo do benefício. O programa, hoje, praticamente pune quem encontra um trabalho, então é necessário trabalhar sem carteira assinada. Isso só faz aumentar o rombo da Previdência.
Frederico Vitor — Considerando o desempenho do senador Aécio Neves, o sr. considera que a oposição saiu nacionalmente fortalecida dessas eleições?
Não tenho dúvida. O PSDB, por exemplo, saiu de 44 para 54 deputados federais eleitos. Enquanto isso, o PT caiu de 90 para 72. Vejo que a oposição se fortaleceu muito no Legislativo e na própria votação de Aécio, que expressou a vontade de mudança da população e um projeto que foi apresentado pelo candidato ao povo.
Frederico Vitor — O sr. vê espaço para que Marconi Perillo se lance em um projeto nacional em 2018?
Em três meses de eleição nós passamos por muitos episódios. Aprendi que três meses parecem três décadas. Falarmos em quatro anos, no cenário político, é algo muito distante. Não consigo projetar que, daqui a quatro anos, Aécio se manterá com todo esse capital político que obteve nesta eleição. E nem dá para saber quanto desse capital é dele mesmo e quanto veio pela vontade popular de mudança.
Portanto, há espaço para que outras lideranças — como aquele que eu considero o maior líder do Brasil, em termos de governadores, que é Marconi Perillo — se projetem nacionalmente. Se exercer o mandato de forma eficiente, com medidas eficazes, é possível. Essa reforma administrativa que ele implanta agora é exemplo para todo o País. Enquanto o governo federal tem 39 ministérios, o próximo governo de Goiás terá 10 secretarias. Isso é exemplo para as prefeituras, para os outros governadores e exemplo para o governo federal. A presidente deveria nomear a equipe econômica e, ao mesmo tempo, cortar a metade de seus ministérios. Precisamos de eficiência, o que não quer dizer somente quantidade, mas também em termos de estratégia, de abrangência.
A fórmula que foi aplicada em Goiás deu certo, porque crescemos muito acima da média nacional. Na revista “Exame” publicada nesta semana, Goiânia é a capital do Brasil que é referência em termos de eficiência para abrir uma empresa. Somos exemplo nacional hoje e isso é ação do governo do Estado. Foi implantado pelo governador Marconi, por mim, na SIC e pela Juceg [Junta Comercial do Estado de Goiás]. Nós inauguramos o Vapt Vupt Empresarial, que hoje é referência nacional. Quando eu disse isso em uma reunião de secretários de Desenvolvimento Econômico em Minas Gerais, todos riram de mim, mas demos exemplo para a burocracia, para a falta de ação.
O crescimento se dará por vários fatores, mas inchar a máquina, manter esse sistema tributário e outras questões, vão ser sempre empecilhos. Hoje uma empresa grande como a Gerdau tem 150 pessoas para entender e fazer a execução tributária. O Brasil é complicado tributariamente. Então, antes de falar em reduzir ICMS, o que vai complicar a vida dos Estados para atrair novos investimentos e prejudicar sua saúde financeira, o governo federal deveria dar exemplo, como nós fizemos aqui, e enxugar a máquina, porque os tempos serão difíceis em 2015. Não é a desburocratização por si só: temos de facilitar a vida do cidadão para que o País possa crescer. Temos de simplificar o processo.O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, condenou o "assassinato" de Luke Somers e do professor sul-africano Pierre Korkie
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O romance “Oblómov”, de Ivan Gontchárov, mostra o parasitismo da vida da nobreza da Rússia no século 19 / Foto: The Guardian[/caption]
O que é a boa literatura? Impossível dizer. A sensação literária, aquela que nos atinge o espírito quando lemos, é por demais subjetiva para admitir uma classificação. O leitor pode gostar de “Harry Potter”, da autora inglesa J. K. Rowling, e eu posso preferir “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”, de Monteiro Lobato. Muitos (a vendagem comprova) acham Paulo Coelho um grande escritor, enquanto outros tantos não conseguem sequer lê-lo. Para cada um, boa literatura é a que lhe deixa na consciência uma impressão mais profunda, que lhe transmite as imagens que o autor tentou deixar claras no papel. É aquela que dá uma sacudidela de satisfação quando uma cena bem descrita lhe toca num ponto sensível; é aquela que volta à lembrança tempos após terminada a leitura e fechado o livro.
Se é fácil definir o que é a boa literatura para um indivíduo, difícil, senão impossível, é defini-la de uma maneira geral. Poder-se-ia dizer, o que seria até certo ponto aceitável, que boa literatura é aquela que persistiu através dos tempos e varou a barreira de seu idioma de origem. Se afirmamos que “Guerra e Paz”, de Liev Tólstoi, “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, ou “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, são bons livros, provavelmente não seremos desmentidos. A produção de Shakespeare é considerada boa literatura, quase que por unanimidade.
A busca dessa boa literatura, objeto da crítica literária e das premiações, é um exercício de boa vontade, mas não muito mais que isso. Muitos livros e autores, elogiados e premiados, não resistem a poucos anos e a uma ou duas tiragens, enquanto alguns outros, menosprezados a princípio, acabam por se impor e persistir. A maior dessas premiações, o Prêmio Nobel não deixa de ser uma busca por boa literatura, não por ação de um crítico, mas por ação de um conjunto deles, todos de alto nível: os membros da Academia Sueca.
O Nobel busca destacar os autores (não os livros) cujas obras já têm uma aceitação e permanência no tempo passado, e que no seu entender, poderão continuar a tê-las no tempo futuro. O Nobel comete erros, humano que é, mas faz também seus acertos. Desde que instituído, em 1900, para ser outorgado a partir de 1901, premiou pouco mais de uma centena de autores pelo mundo, na esmagadora maioria (cerca de 80%) europeus. Os franceses são campeões, com 14 premiações, seguidos dos alemães com 9, ingleses e americanos com 8 prêmios cada.
Interessante é que os americanos só conquistaram seu primeiro Nobel em 1930, 30 anos após sua criação, com Sinclair Lewis. E William Faulkner, que desde os anos 1920 já o merecia (escreveu “Paga de Soldado” em 1926), só foi contemplado em 1949. Em língua portuguesa, apenas José Saramago foi lembrado pelos suecos, e poucos poderão discordar de que melhor seria ter buscado Fernando Pessoa. A América do Sul é um deserto de prêmios Nobel. Espanha ou Polônia (cinco vezes cada uma) foram mais premiadas que todo o subcontinente em conjunto: dois prêmios para o Chile (Gabriela Mistral e Pablo Neruda), um para a Colômbia (Gabriel García Márquez) e um para o Peru (Mario Vargas Llosa). Os russos acumularam apenas cinco prêmios Nobel, o que é pouco, para a literatura mais pujante de todo o século XIX e começo do século XX.
Como o Nobel só contempla escritores vivos, russos como Gógol, Puchkin, Dostoiévski e Turguêniev, todos expoentes literários reconhecidos, cada um merecedor de seu Nobel, ficaram de fora, pois já eram falecidos quando o prêmio começou a ser conferido. Mas Tchekhov (que faleceu em 1904) e Tolstói (que morreu em 1910) seriam indiscutíveis, tivessem sido escolhidos pela Academia Sueca, que os preteriu. A ignorância totalitária soviética, principalmente sob Stálin, sufocou a melhor literatura do mundo. Como hoje se sabe, Stálin pretendia dirigir pessoalmente o trabalho dos escritores soviéticos. Só conseguiu anulá-los, ou fisicamente, mandando fuzilá-los se não obedeciam, ou intelectualmente, fazendo com que obedecessem suas diretrizes literárias.
O primeiro Nobel russo, Ivan Bunin (1933), era um exilado em Paris. O vigor da literatura russa vai muito além dos superautores que citamos acima. Menos lido, embora traduzido no Brasil, Ivan Gontcharóv (1812-1891) é autor, entre outras obras, de um magnífico clássico que marcou a literatura russa na época, e teve influência considerável no pensamento de então. O romance “Oblómov”, publicado em 1859, atravessou as fronteiras e foi traduzido nas línguas mais faladas do Globo. Conta a história de um aristocrata russo, cujo nome dá o título do livro, íntegro mas apático, honesto mas displicente e desestimulado com a própria existência, que vê vazia e sem sentido. É enganado pelos comerciantes, pelos empregados e pelos amigos inescrupulosos, vendo se esvaírem as rendas de sua propriedade rural, que nunca visita.
Em oposição a ele, há seu amigo Stolz, plebeu de origem alemã, homem de caráter, dinâmico, empreendedor, que faz fortuna com seu trabalho. Stolz tenta tirar Oblómov do marasmo e do descuido em que vive, cuida de suas finanças, tenta enfim salvá-lo de si mesmo. Oblómov tem uma centelha de reação ao conhecer a bela Olga Sergueiévna, por quem se apaixona, mas isso dura pouco, e ele volta à letargia displicente de sempre, enquanto Stolz acaba por se casar com Olga, sob a total indiferença de Oblómov, que ao fim, suprema indolência, casa-se com a criada, que dele cuida com desvelo, e segue até a morte abominando a vida.
Se “Oblómov” é um romance atraente, de fácil leitura, é também uma crítica ao parasitismo da nobreza russa e ao sistema econômico dos czares. Ao confrontar a letargia de Oblómov com o dinamismo de Stolz, Ivan Gontcharóv não fez mais que tecer sua crítica a um sistema econômico burocrático e semifeudal. Compara, contrastando personagens, a apatia da nobreza russa e a vontade empreendedora da sociedade industrial alemã, em franco desenvolvimento à época em que Oblómov era escrito. Dá uma mensagem de esperança no amor, que pode operar regeneração, se correspondido.
O romance de Gontcharóv penetrou fundo na sociedade russa, já quase madura para contestar o czarismo. O substantivo oblomovismo foi criado para significar displicência ou apatia, e incorporou-se à língua russa.
Reflexos de Oblómov chegaram até Goiás. O livro foi traduzido em 1966 pelo mineiro Francisco Inácio Peixoto, já falecido (Edições O Cruzeiro). Em 2001 surgiu outra tradução, agora assinada por Juliana Borges (Germinal). Só que, ao que parece, a segunda tradução era um plágio da primeira, conforme alerta lançado pelo professor Anselmo Pessoa, da Universidade Federal de Goiás ao jornalista Euler de França Belém. Euler, cotejando as duas traduções, concordou com o mestre Anselmo: haviam coincidências demais, e até nos erros das duas traduções. Tradutores da primeira estão nos tribunais contra os tradutores da segunda edição.
Perguntas para o senhor ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, diante do assalto em Goiás a três carros fortes e da morte de três vigilantes, trabalhadores e arrimos de família: 1) De que vale o Estatuto do Desarmamento que V. Excia. defende? Os bandidos portavam armas do mais grosso calibre militar. 2) O governo de V. Excia. é contra o encarceramento. Se forem presos, verá V.Excia, os bandidos são reincidentes ou foragidos. Se estivessem devidamente presos, teria ocorrido a carnificina? 3) O governo de V. Excia. premiou famílias de terroristas, assaltantes de bancos, assalariados de ditaduras, com indenizações milionárias. As famílias desses trabalhadores ficam no desamparo. É justo isso? 4) Não pensa V. Excia. que a política de direitos humanos do governo, muito voltada para os marginais, de alguma forma estimula essas ações ousadas?
A pantomima do (im)possível assassinato de Jango não acaba, mesmo após a comissão de exumação ter atestado que não encontrou traços de veneno. “Não encontrou, mas pode ter sido envenenado mesmo assim”, bradam a esquerda hidrófoba e a família do ex-presidente que não deixou marcas positivas na história. Houvesse algum indício, Jango teria sido envenenado. Como não há, ainda assim pode tê-lo sido. Para que, então, a exumação? Jango, cardiopata, fumante, beberrão, sedentário e de maus hábitos alimentares, durou muito, até que seu coração falhasse de vez, como os que com ele conviviam sabem muito bem.
“Todo Filme É Sobre Cinema”, é a seleta do trabalho autoral de Nei Duclós sobre obras e protagonistas de uma arte voltada para si mesma

