A Copa do Mundo sempre foi vendida como o maior símbolo da universalidade do esporte. Durante um mês, rivalidades políticas, diferenças culturais e disputas diplomáticas deveriam dar lugar ao futebol. Em teoria, todos entram em campo em igualdade de condições. Na prática, porém, a edição de 2026, sediada pelos Estados Unidos, Canadá e México, vem demonstrando que a geopolítica continua influenciando quem pode participar, como participa e sob quais condições.

Os problemas enfrentados por integrantes da delegação do Irã são um exemplo claro dessa contradição. Em meio às tensões entre Washington e Teerã, jogadores e dirigentes tiveram dificuldades para obter autorização de entrada nos Estados Unidos, criando incertezas sobre a preparação da equipe para o torneio. O esporte, que deveria servir como ponte entre povos, acaba condicionado às disputas diplomáticas do momento.

A situação não se limita ao Irã. Relatos envolvendo cidadãos de outros países, como o Uzbequistão, também apontam para controles migratórios mais rigorosos e dificuldades burocráticas que não parecem afetar todas as delegações da mesma maneira. O resultado é uma percepção inevitável de tratamento desigual, incompatível com um evento que pretende representar o mundo inteiro.

Talvez o caso mais emblemático tenha sido o do árbitro somali Omar Artan. Escolhido pela FIFA para atuar na competição, ele acabou impedido de entrar nos Estados Unidos por questões migratórias e ficou impossibilitado de exercer a função para a qual havia sido designado. Independentemente das razões formais apresentadas pelas autoridades americanas, o episódio expôs uma contradição difícil de ignorar: um profissional selecionado pela própria entidade organizadora do torneio não conseguiu acessar o país que se comprometeu a sediá-lo.

É evidente que qualquer Estado possui soberania para definir suas políticas de imigração e segurança. O problema surge quando essas políticas passam a interferir diretamente na realização de uma competição internacional cuja premissa básica é a igualdade entre os participantes.

Se determinadas seleções ou profissionais enfrentam barreiras adicionais por causa da nacionalidade ou do contexto político de seus países, a Copa deixa de ser um espaço neutro e se transforma em extensão das disputas geopolíticas.

Essa situação também lança dúvidas sobre os critérios utilizados para escolher sedes de grandes eventos esportivos. Organizar uma Copa do Mundo não significa apenas oferecer estádios modernos e infraestrutura adequada. Significa assumir o compromisso de garantir que atletas, árbitros, dirigentes, jornalistas e torcedores de todas as nacionalidades possam participar sem obstáculos discriminatórios.

Há ainda uma responsabilidade da própria FIFA. Ao conceder a organização do torneio, a entidade deveria assegurar que questões políticas não comprometessem o princípio da universalidade do futebol. Caso contrário, aceita-se que o país anfitrião imponha suas próprias disputas diplomáticas sobre uma competição que deveria transcendê-las.

O paradoxo é evidente. Enquanto campanhas publicitárias exaltam inclusão, diversidade e união entre os povos, a realidade mostra que alguns participantes precisam enfrentar barreiras que outros sequer conhecem. O uniforme é igual dentro do gramado, mas o tratamento fora dele pode variar conforme o passaporte.

Quando isso acontece, o futebol perde parte de sua força simbólica. A Copa do Mundo deixa de representar um encontro global baseado na igualdade de oportunidades e passa a refletir as assimetrias do cenário internacional.

A história do esporte está repleta de exemplos em que competições aproximaram países inimigos, criaram pontes diplomáticas e abriram espaço para diálogo em momentos de crise. É justamente por isso que episódios de tratamento desigual preocupam tanto. Eles transformam um patrimônio coletivo da humanidade em mais uma arena de exclusão.

No fim das contas, o maior risco não é apenas prejudicar uma seleção específica ou impedir a participação de um árbitro. É enfraquecer a própria ideia de que o futebol pode servir como espaço onde fronteiras políticas ficam, ao menos temporariamente, do lado de fora do estádio. Quando até esse princípio é colocado em dúvida, a Copa do Mundo perde uma parte importante daquilo que sempre a tornou única.

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