No acervo dos arquivos do Museu da Imagem e do Som, no Centro Cultural Marieta Telles Machado, na Praça Cívica, está devidamente armazenado e catalogado um tesouro em forma de vídeos que contam a história dos primórdios de Goiânia.

A capital de Goiás foi a primeira cidade brasileira planejada no século XX e seu projeto marcou um momento importante da história do país: a derrubada da Velha República pela Revolução de 1930.

O sentimento político inovador era tão forte que havia necessidade de que o plano de Goiânia fosse audacioso e simbólico.

Goiânia chegou ao mundo como a representação expressiva de um novo Brasil que marchava para o Oeste, sendo o primeiro passo em direção à integração da nação que, até 24 de outubro de 1933, era conhecida apenas pelo suntuoso litoral. Já parou pra pensar por que a fundação da cidade aconteceu naquele 24/10? Porque esse é dia marcado pelo Estado Novo como a data da vitória da Revolução — com Getúlio Vargas e Pedro Ludovico na comissão de frente — que mudou a cara do Brasil.

Um desses filmes (chamados “cine-jornais” e exibidos antes das sessões de cinema em todo país) é este raro achado (trabalho de garimpo mesmo) que mostra a Goiânia de 1947.

A capital de Goiás tinha apenas 14 anos desde a sua fundação e, pela quantidade de mulheres filmadas, já dava os primeiros sinais de um fenômeno que, aparentemente, faz parte do DNA goianiense: a urbe é essencialmente feminina, segundo dados do IBGE. Por aqui são nove mulheres por um homem. Um descompasso desmedido da natureza que não tem explicação científica, simplesmente é assim, e pronto.

O vídeo tem dois minutos e 16 segundos, o suficiente para voltar no tempo e poder observar de perto uma Goiânia que já não existe mais. A topografia da cidade é plana, um estímulo para o uso da bicicleta que, dado o grande número das “magrelas” que se observa, era o meio de transporte favorito da cidade. E de lazer.

A Praça do Bandeirante, uma homenagem a Bartolomeu Bueno da Silva, fundador do Arraial de Santana que, futuramente viria a ser Vila Boa de Goiás, capital do Estado por 200 anos até a fundação de Goiânia, aparece no vídeo ainda intacta com seus jardins impecáveis.

O apresentador chama a atenção para o trânsito de bicicletas e revela que a planificação urbanística da cidade facilita a vida de todos, até mesmo do leiteiro. Sim, no final dos anos 1940, era a mercearia que ia até as casas, e produtos como leite e pão eram entregues por esses trabalhadores. Observe que o leite que ele carrega à frente da bicicleta era envasado em garrafas de vidro que eram sempre devolvidas após o uso.

A trilha sonora, a narração e o texto exibidos nesse “cine jornal” marca o período em que foi produzido e exibido. Agora, preste atenção na arquitetura da cidade, toda em art déco e o verde presente a cada esquina. Era o embrião do que faria de Goiânia a cidade mais arborizada do mundo, superando Paris.

O arquiteto Attilio Corrêa Lima e o urbanista Armando de Godoy, os dois homens que pensaram Goiânia, tinham em comum o desejo de erguer no Cerrado brasileiro uma Cidade Jardim. É daí que surge a ideia das pracinhas do Setor Sul (mas isso é assunto pra um outro contexto. O fato é que dois visionários conseguiram o queriam: criar no meio do sertão brasileiro uma cidade verde, hoje a mais verde do planeta. O atributo de cidade jardim consagrada em tantos estudos é só mais um predicado que se pode acrescentar ao plano, porque a capital de Goiás é de fato a expressão real das novas visões de cidade mundo afora. Goiânia representa a semente que daria origem ao urbanismo moderno no Brasil. E é mãe de Brasília.

O vídeo termina num passeio de bicicletas com adolescentes ao pedal. É possível ver a Praça Cívica, onde tudo começou, em seu estado original. Até mesmo o gigantesco Obelisco que ficava bem no meio do espaço público, marcando a importância do lugar, ainda está presente num cenário um tanto bucólico. 21 anos depois, em 1968 ele iria desaparecer para dar espaço ao monumento das três raças de Neusa Borges. Uma obra icônica de Goiânia que homenageia a miscigenação entre brancos, pretos e indígenas, simbolizando a formação cultural do povo goiano.

Bolha reconhece a importância da obra da artista Neusa Moraes, mas acredita que o Obelisco que tinha as mesmas cores do Palácio das Esmeraldas, sede do governo de Goiás, deveria ser recolocado em seu lugar de origem como símbolo da restauração e revitalização que o centro de Goiânia vai passar nos próximos anos.

O filme se encerra com um passeio de bicicletas pela Avenida Goiás, a via mais importante da cidade. Além das imagens de um passado não tão distante, mas ao mesmo tempo inalcançável, vê-se o Palácio das Esmeraldas ao fundo, ficando pra trás, enquanto as adolescentes descem felizes pela avenida cujas árvores ainda eram de meio porte e os jardins impecáveis.
As prerrogativas e atributos do plano original de Goiânia são evidenciadas por esse “cine jornal” — que registrou (pra nossa sorte) um fragmento da cidade que, 80 anos depois da produção desse filme, se tornaria a capital mais incrível do Brasil.

Houve aqui, desde o início, a valorização dos espaços destinados a parques públicos, extensas áreas de absorção das águas das chuvas, as construções com todas as fachadas liberadas para a luz do sol e ainda a função intrínseca de cidade jardim. Goiânia nasceu com os perímetros fixados e extensão em cidades satélites para a expansão urbana. Circulação básica em largas avenidas, córregos preservados para o pleno abastecimento das águas, distribuição organizadas em zonas de uso, explicação para os bairros da cidade receberem o nome de “setores” e as ruas nomeadas por números, além do grande número de parques.

A criação de Goiânia na região central do Brasil conglomerou variedades de movimentos artísticos e filosóficos, incluindo simbolismo, futurismo, surrealismo, expressionismo e outros que influenciaram as artes, literatura e a música que eram produzidos na cidade nos seus primeiros anos.

O filme que Bolha apresentou hoje é para marcar seu aniversário de um mês. Trinta dias de um projeto que está começando e, assim como Goiânia, chegou para ser vanguarda. Sem se explicar, apenas ser. Dentro desse conceito Goiânia se caracteriza e se diferencia de outras cidades porque nasceu chancelada e com a missão de dar novos saltos, estabelecendo-se como marco civilizador e ambiental do Brasil.