Muito Além de Amadeus: O Verdadeiro Salieri
10 junho 2026 às 18h46

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Durante grande parte do século XX, Antonio Salieri permaneceu conhecido do grande público muito mais pelo cinema do que propriamente por sua música. O premiado filme Amadeus (1984), dirigido por Miloš Forman e baseado na peça de Peter Shaffer, consolidou mundialmente a imagem de Salieri como o grande opositor de Mozart, um compositor tomado pela inveja diante do talento quase sobrenatural do jovem austríaco. A narrativa cinematográfica, brilhante do ponto de vista dramático, ajudou a perpetuar uma lenda construída desde o século XIX: a de que Salieri teria sido rival, perseguidor ou até responsável pela morte de Mozart.

A história, contudo, é bem diferente da ficção. Antonio Salieri foi uma das figuras mais importantes da vida musical vienense de sua época. Compositor celebrado, diretor da ópera italiana de Viena e posteriormente Kapellmeister imperial da corte austríaca, exerceu enorme influência na formação musical europeia. Entre seus alunos estiveram nomes como Ludwig van Beethoven, Franz Schubert e Franz Xaver Mozart, filho de Wolfgang Amadeus Mozart. Historicamente, não há evidências de uma rivalidade destrutiva entre Mozart e Salieri. Pelo contrário: documentos indicam convivência profissional, respeito mútuo e até colaborações artísticas.

Agora, quase duzentos anos após sua morte, Salieri volta ao centro das atenções por um motivo profundamente musical e humano. O musicólogo alemão Timo Jouko Herrmann anunciou recentemente a redescoberta de quatro volumes originais mencionados no testamento de Salieri de 1823. Considerados desaparecidos desde 1825, os cadernos encadernados em couro vermelho continham uma coleção organizada pelo próprio compositor e destinada ao príncipe Joseph von Dietrichstein como gesto de amizade e gratidão. O material permaneceu preservado durante gerações quase como uma relíquia familiar.
A descoberta impressiona não apenas pelo estado de conservação dos manuscritos, mas principalmente pelo conteúdo: 149 composições, algumas delas completamente desconhecidas pelos pesquisadores até hoje. Em um tempo em que imaginamos já conhecer quase tudo sobre os grandes nomes da música europeia, a reaparição de uma coleção dessa dimensão soa quase como um reencontro com a obra oculta pela circunstancia da história.
Entre as obras encontradas, uma em especial possui força simbólica devastadora.Herrmann destaca um cânone escrito por Salieri e datado de 11 de maio de 1809, às sete horas da manhã. Ao investigar o contexto histórico, o pesquisador descobriu que exatamente naquele momento Viena sofria um dos mais violentos bombardeios promovidos pelas tropas de Napoleão. No mesmo dia, Salieri concluiu o Dona nobis pacem de sua Missa em si bemol maior, uma súplica por paz escrita enquanto a cidade mergulhava no medo, na fumaça e na destruição.
Há algo profundamente comovente nesse detalhe. Por trás do compositor eternizado pela caricatura do “invejoso de Mozart”, surge um homem real, atravessado pelas mesmas angústias humanas que ainda hoje reconhecemos. Um músico escrevendo pedidos de paz enquanto ouvia o som da guerra do lado de fora. Um artista tentando preservar algum sentido de humanidade em meio ao colapso da civilização.
E talvez seja impossível ler essa história sem pensar no nosso próprio tempo. Vivemos em pleno século XXI, cercados de avanços tecnológicos inimagináveis, inteligência artificial, comunicação instantânea e conquistas científicas extraordinárias. Ainda assim, a humanidade continua insistindo nas guerras. Continuamos vendo cidades destruídas, populações deslocadas, crianças vivendo sob bombardeios e sociedades inteiras marcadas pelo medo. Mudam-se os séculos, mudam-se os armamentos, mas permanece a mesma incapacidade humana de aprender com a própria dor.
Talvez por isso a descoberta dessas páginas de Salieri seja tão importante. Não se trata apenas de recuperar obras perdidas. Trata-se de recuperar sensibilidades esquecidas. A música nos lembra continuamente que a história não é feita apenas de batalhas, tratados e impérios. Ela também é feita de seres humanos tentando sobreviver emocionalmente ao horror do mundo.
Ao escrever Dai-nos a paz enquanto Viena era atacada, Salieri não falava apenas ao seu tempo. Falava também ao nosso.
Como sugestão de escuta, sugerimos o Agnus Dei da Missa em Si Bemol Maior (1809), de Antonio Salieri, com a Soprano: Constanze Albrecht; Alto: Ulrike Zech; Tenor: Sebastian Reim Bass: Friedemann Klos Universitätschor Dresden Sinfonietta Dresden sob a regência da Maestra Maja Sequeira.
Vale ouvir atentamente o momento final do Dona nobis pacem “Dai-nos a paz”. Saber que Salieri concluiu essa obra enquanto Viena sofria os bombardeios das tropas napoleônicas torna a música ainda mais comovente. Mais de dois séculos depois, a pergunta permanece atual: por que o ser humano ainda insiste tanto na guerra?



