Dona Fifia, Nossa Memória Viva
26 maio 2026 às 17h15

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Há pessoas que ajudam a construir uma universidade. Outras, mais raras, ajudam a construir um imaginário. Ao completar cem anos neste 26 de maio, Maria Lucy Veiga Teixeira pertence à segunda categoria. Dona Fífia, como é carinhosamente chamada por gerações de alunos, colegas e admiradores, não fundou apenas uma escola de música. Ajudou a criar, em Goiás, uma ideia de sensibilidade, de permanência e de beleza compartilhada.
Em tempos em que a memória parece cada vez mais acelerada e descartável, alcançar um centenário com lucidez, afeto e presença é quase um gesto artístico. E talvez seja impossível falar da história da música em Goiás sem ouvir, ao fundo, a voz de Dona Fífia conduzindo um coro, corrigindo uma frase musical ao piano ou lembrando, com simplicidade, que o Conservatório Goiano de Música nasceu “da decisão de um homem e cinco mulheres”.

A frase, dita por ela durante uma entrevista em 2020, guarda algo de épico e cotidiano ao mesmo tempo. Em 1956, ao lado do maestro belga Jean Douliez e das professoras Belkiss Carneiro de Mendonça, Maria Luiza Póvoa Cruz, Dalva Maria Pires Machado Bragança e Maria das Dores Ferreira de Aquino, Dona Fífia participou da criação do Conservatório Goiano de Música, instituição que mais tarde se tornaria a atual Escola de Música da Universidade Federal de Goiás.

Mas talvez o mais bonito dessa história não esteja apenas nos grandes atos institucionais, e sim nas imagens delicadas que atravessam o tempo. As aulas funcionando à tarde e à noite na antiga Faculdade de Direito. Os professores dividindo disciplinas para manter o sonho vivo. E, sobretudo, as aulas ministradas até mesmo sob uma mangueira no quintal da casa de Dona Fífia, cena tão poética que inspirou a crônica “Aprendendo música à sombra de um quintal”, do jornalista Hélio Rocha.
Existe algo profundamente simbólico nessa imagem. A música, antes de ocupar edifícios monumentais, nasce quase sempre em espaços íntimos: uma sala, um quintal, um piano antigo, uma voz insistindo contra as dificuldades. Talvez por isso certas instituições sobrevivam. Porque foram construídas não apenas com verbas ou decretos, mas com obstinação afetiva.
Dona Fífia pertence a uma geração de mulheres pioneiras que precisaram inventar caminhos onde não havia estrutura pronta. Formada em Piano pela Universidade de Música de São Paulo e em Canto Orfeônico no Rio de Janeiro, sob orientação de Heitor Villa-Lobos, ela carregou para Goiás uma concepção humanista da educação musical: a música como formação estética, coletiva e também moral.
Seu trabalho à frente do Coral da UFG marcou profundamente a vida cultural goiana. Em uma época em que a circulação artística era muito mais difícil, o coro se apresentou em diversas cidades brasileiras, recebendo críticas elogiosas e reconhecimento nacional. Não era apenas um grupo musical. Era também um símbolo de que Goiás podia dialogar artisticamente com o país em alto nível.
Talvez por isso Dona Fífia desperte algo raro: unanimidade afetiva. Há figuras importantes na história cultural. E há figuras queridas. Nem sempre as duas coisas coincidem. Com ela, se fundem. Sua presença ao piano em solenidades, missas, reuniões acadêmicas ou encontros familiares sempre pareceu lembrar que a música não existe apenas nos palcos, mas também nos vínculos humanos.
A atual Escola de Música da UFG, hoje plural, contemporânea, aberta à musicoterapia, à música popular, nasceu daquele pequeno conservatório sonhado por seis idealistas em 1956. E talvez essa seja uma das maiores lições do centenário de Dona Fífia: instituições culturais não surgem prontas. Elas são construídas lentamente por pessoas que acreditam na arte mesmo quando tudo parece improvável.
Num país frequentemente marcado pelo esquecimento, celebrar cem anos de Maria Lucy Veiga Teixeira é também celebrar a persistência da cultura, da educação pública e da música como experiência transformadora.
Vida longa à memória de Dona Fífia. E, sobretudo, vida longa à capacidade de ainda formar pessoas capazes de sonhar à sombra de um quintal.
Para celebrar os 100 anos de Dona Fifia, vale ouvir o emocionante “Aleluia”, de Georg Friedrich Händel, em interpretação do Coro de Câmara da EM-UFG, durante concerto da Orquestra Filarmônica de Goiás, sob regência de Angelo Dias, com participação de solistas convidados.



