Prokofiev: quando o século XX aprendeu a cantar
30 abril 2026 às 11h15

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Celebramos nesse mês de abril o nascimento de Sergei Prokofiev, um dos nomes decisivos da música moderna. Nascido em 1891, em Sontsovka, então parte do Império Russo, viveu entre terremotos históricos: a Revolução de 1917, duas guerras mundiais, o exílio, o retorno à União Soviética e os duros controles ideológicos do regime stalinista. Sua trajetória foi atravessada por instabilidade e conflito. Sua obra, no entanto, jamais se rendeu às circunstâncias.
Há compositores que pertencem a uma época. Outros parecem condensá-la. Sergei Prokofiev pertence a esta segunda categoria. Em sua música, o século XX não apenas se deixa ouvir, ele se revela. Ali estão a velocidade e a vertigem, a ironia e a esperança, a máquina e a delicadeza, a guerra e o sonho. Poucos criadores traduziram com tanta força as contradições de seu tempo sem perder aquilo que a arte tem de mais essencial, a capacidade de emocionar.

Compositor, pianista e regente, Prokofiev deixou um catálogo admirável pela extensão e pela variedade. São óperas, sinfonias, balés, concertos, sonatas, trilhas sonoras e peças voltadas ao público infantil. Entre suas criações mais célebres estão Romeu e Julieta, Pedro e o Lobo, a suíte Tenente Kijé e O Amor das Três Laranjas. Não se trata apenas de quantidade. Em cada gênero que compôs, imprimiu personalidade inconfundível.

Seu talento extraordinário chamou atenção desde muito jovem. No Conservatório de São Petersburgo ganhou fama de brilhante, irreverente e ousado. Ao piano, apresentava obras de virtuosismo agressivo, ritmos incisivos e harmonias inesperadas. Era moderno sem pedir licença. Havia em sua linguagem algo de provocação estética, um convite, um desafio para que o ouvido se expandisse.
Mas sua verdadeira singularidade está no equilíbrio raro entre invenção e comunicação. Sabia ser áspero sem perder a elegância. Sabia surpreender sem abandonar a forma. Sabia, sobretudo, criar melodias memoráveis em meio às tensões da modernidade. Em suas mãos, a inteligência musical não se afastava do prazer da escuta.
Após deixar a Rússia em 1918, viveu nos Estados Unidos, na Alemanha e em Paris. Nesse período, consolidou carreira internacional e dialogou com alguns dos grandes nomes da cena artística europeia. Mais tarde, regressou definitivamente à União Soviética. O retorno, porém, veio acompanhado de exigências políticas, censuras e acusações de “formalismo”, termo usado para condenar obras consideradas excessivamente complexas ou pouco alinhadas ao ideal oficial de arte.
Mesmo sob pressão, Prokofiev produziu obras memoráveis. As chamadas “Sonatas de Guerra”. Um conjunto de três sonatas para piano (nº 6, 7 e 8, Op. 82-84) compostas entre 1939 e 1944 durante a Segunda Guerra Mundial. Conhecidas por sua intensidade emocional, complexidade técnica e atmosfera dramática, refletem o caos e o sofrimento do conflito, sendo a 7ª sonata (“Stalingrado”) a mais famosa, concentrando energia dramática e tensão emocional.

Em Romeu e Julieta, alterna brutalidade rítmica e lirismo comovente. Em Pedro e o Lobo, realiza um prodígio de clareza: apresenta às crianças o universo da orquestra sem subestimar sua inteligência. Fala ao público jovem com humor, imaginação e absoluto rigor artístico.
Talvez aí resida uma das razões de sua permanência. Prokofiev não é um compositor fechado em códigos para iniciados. Sua música possui desenho, gesto, cor, narrativa. Mesmo o ouvinte sem formação técnica percebe quando algo avança, ameaça, dança, sorri ou se recolhe. Há em sua escrita uma eloquência direta, sem simplificação. A sofisticação está presente, mas nunca como barreira.
Sua morte, em 5 de março de 1953, carrega uma ironia histórica. Ocorreu no mesmo dia da morte de Stálin. Em meio à comoção oficial que tomou Moscou, sua despedida foi ofuscada. A notícia apareceu discretamente, e o funeral teve alcance reduzido. Como tantas vezes em vida, a política lançou sombra sobre o artista. A posteridade, porém, recompôs a cena. Hoje, Prokofiev permanece entre as vozes mais originais e necessárias do repertório do século XX.
Celebrá-lo é mais do que recordar um aniversário. É reconhecer um criador que soube transformar inquietação em forma, conflito em beleza e tempo histórico em experiência estética. Sua música continua atual porque não tenta esconder as contradições humanas, antes, lhes dá som, ritmo e permanência.
Ouviremos a Sinfonia nº 1 em Ré maior, “Clássica”, de Sergei Prokofiev, obra em que o compositor homenageia o espírito de Joseph Haydn com linguagem moderna, brilho rítmico e fina ironia. Nesta interpretação, a regência é de Alondra de la Parra à frente da Frankfurt Radio Symphony.
Fique atento à leveza transparente da escrita orquestral, ao humor elegante dos temas, às surpresas rítmicas típicas de Prokofiev e à energia contagiante do finale, onde o espírito clássico ganha brilho do século XX. Ouça com atenção o diálogo espirituoso entre tradição e modernidade. Prokofiev nos ensina que a música pode ser sofisticada sem deixar de falar diretamente ao coração.

