Inteligência artificial e criação musical: dilemas contemporâneos
19 maio 2026 às 19h06

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A inteligência artificial já entrou definitivamente no universo da música. E talvez a pergunta mais honesta neste momento não seja mais “se” ela fará parte da criação artística, mas “como” aprenderemos a conviver com ela. Entre o entusiasmo tecnológico e o temor legítimo da substituição do humano, a música de concerto, tantas vezes associada à tradição, à memória e à experiência sensível, começa também a ser atravessada por esse debate inevitável.
Recentemente, a Revista Concerto publicou uma matéria instigante assinada pela jornalista Ana Cursino Guariglia, intitulada “Quando a IA não imita, mas recria”, na qual discute o uso da inteligência artificial em processos ligados à música contemporânea e à reconstrução de repertórios eletroacústicos. O texto parte de um tema delicado, os riscos éticos e autorais provocados pela IA, mas encontra um caminho particularmente interessante ao apresentar o trabalho do violoncelista e pesquisador William Teixeira.
A reportagem chama atenção para um dado perturbador: plataformas de streaming já convivem com músicas geradas artificialmente e publicadas em nome de artistas reais, muitas vezes sem qualquer controle efetivo. Ao mesmo tempo, softwares como Suno e Udio tornam possível criar canções inteiras em poucos segundos, imitando estilos, timbres e estruturas composicionais. Segundo pesquisas citadas na matéria, grande parte do público sequer consegue distinguir uma música produzida por IA de uma criação humana.
Diante disso, surgem perguntas inevitáveis. O que acontecerá com a autoria? Como proteger artistas e intérpretes? E talvez a questão mais profunda: o que ainda torna uma obra musical humana?
Mas seria simplista enxergar a inteligência artificial apenas como ameaça. A própria história da música mostra que toda inovação tecnológica provocou desconforto. O piano já foi considerado excessivamente mecânico. A gravação sonora transformou radicalmente a escuta. A música eletrônica foi vista, por muitos, como o possível “fim” da performance instrumental. Nenhuma dessas previsões se concretizou. Ao contrário, a arte encontrou novas formas de existir.

É justamente nesse ponto que a matéria da revista Concerto se torna particularmente relevante. O trabalho desenvolvido por William Teixeira utiliza sistemas de IA não para substituir compositores ou performers, mas para recuperar repertórios perdidos da música eletroacústica brasileira. Em vez de uma inteligência artificial meramente “geradora”, o pesquisador trabalha com uma ferramenta co-criativa, capaz de reconstruir relações sonoras, improvisações e estruturas eletrônicas desaparecidas ao longo do tempo.
Há algo profundamente simbólico nisso: usar tecnologia de ponta não para apagar a memória artística, mas para preservá-la.
Talvez esteja aí uma chave importante para compreendermos o fenômeno. A inteligência artificial não possui consciência estética, memória afetiva ou experiência humana. Ela opera a partir de padrões, estatísticas e probabilidades. Quem ainda escolhe os caminhos, formula as perguntas e atribui sentido ao resultado é o ser humano. A IA pode sugerir harmonias, gerar imagens, simular vozes ou reorganizar arquivos sonoros. Mas continua incapaz de viver aquilo que dá origem à arte como o espanto, a dor, o silêncio, a nostalgia, a experiência do tempo.
Na música de concerto, isso se torna ainda mais evidente. Um concerto não é apenas a reprodução correta de notas escritas em uma partitura. Existe algo no gesto do intérprete, na respiração coletiva da plateia, na tensão daquele instante irrepetível, que nenhuma máquina consegue reproduzir integralmente. A performance continua sendo um acontecimento humano.
Ao mesmo tempo, ignorar a existência da inteligência artificial seria ingenuidade. Ela já faz parte das universidades, das pesquisas, das gravações, das plataformas digitais e até do cotidiano de vidas dos estudantes e professores. Talvez o verdadeiro desafio não seja impedir sua presença, mas desenvolver maturidade ética para utilizá-la com responsabilidade, transparência e integridade.
Porque a questão central talvez nunca tenha sido a tecnologia em si, mas o uso que fazemos dela.
A IA pode servir à superficialidade, à fraude e à massificação vazia. Mas também pode auxiliar pesquisadores, recuperar patrimônios sonoros, democratizar acessos e abrir novas possibilidades criativas. Como tantas outras ferramentas ao longo da história, ela não elimina automaticamente a arte. Apenas nos obriga a repensar o que entendemos por criação, autoria e sensibilidade.
No fundo, talvez a música continue nos ensinando aquilo que sempre soubemos: nenhuma inovação tecnológica substitui completamente a necessidade humana de emoção, presença e escuta.
E talvez seja justamente por isso que, em tempos de algoritmos cada vez mais sofisticados, ouvir música ao vivo se torne uma experiência ainda mais necessária.
Curiosamente, quanto mais avançam as inteligências artificiais, mais precioso parece se tornar o concerto ao vivo. Porque a arte não acontece apenas no som produzido, mas na presença. Nenhum algoritmo conhece o silêncio de uma sala antes da entrada da orquestra, o pequeno erro que humaniza uma interpretação ou a emoção compartilhada entre intérprete e público. A máquina pode reproduzir padrões. O palco continua produzindo experiência.
Talvez seja justamente diante de interpretações como a do Concerto para Piano em Lá menor, de Robert Schumann, interpretado por Martha Argerich ao lado da Gewandhausorchester Leipzig, sob regência de Riccardo Chailly, que compreendemos os limites da inteligência artificial.

O concerto carrega em sua própria estrutura uma espécie de declaração de amor de Schumann para Clara Schumann. Motivos musicais ligados ao nome da pianista atravessam a obra de maneira quase secreta, íntima e profundamente humana. Não se trata apenas de uma sucessão de notas organizadas matematicamente, mas da transformação de uma experiência afetiva em som.

Ao assistir a Martha Argerich interpretando essa obra, percebe-se imediatamente que a música não nasce apenas da precisão técnica. Ela nasce da respiração, do risco, do gesto, da tensão emocional construída em tempo real entre intérprete, orquestra e plateia. Há pequenos rubatos, olhares, impulsos e silêncios impossíveis de serem integralmente previstos por um algoritmo.
Talvez a inteligência artificial consiga reproduzir estilos. Mas ainda parece distante daquilo que faz a grande arte permanecer, a capacidade humana de transformar memória, amor, fragilidade e experiência em presença sonora.
Ouça e observe a histórica interpretação de Martha Argerich do Concerto para Piano de Schumann, com regência de Riccardo Chailly. Talvez ali esteja uma das respostas mais sensíveis para o debate contemporâneo sobre arte e inteligência artificial.



