A maternidade sempre ocupou um lugar especial na sociedade. Mais do que uma condição biológica, ser mãe representa uma experiência humana profunda, carregada de afeto, responsabilidades, expectativas e vínculos que atravessam gerações. Talvez por isso a nova Caderneta da Gestante, distribuída pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tenha provocado tanta reação popular.

Retirar da cartilha a palavra “mãe” e substituí-la pela expressão “pessoas que gestam” é, para muitos, uma tentativa de impor à população uma visão ideológica que desvaloriza a identidade feminina. Afinal, somente as mulheres possuem a capacidade biológica de engravidar e gerar uma nova vida. Nesse sentido, a retirada da palavra “mãe” é vista por seus críticos como um desrespeito à própria mulher. Afinal, mãe é uma das primeiras palavras que um bebê começa a falar, e não ‘pessoas que gestam.

O documento, que deveria servir principalmente como instrumento de orientação e acompanhamento da gravidez, acabou se tornando alvo de um intenso debate público. Além disso, na avaliação dos críticos da cartilha, o material, que deveria priorizar orientações voltadas à preservação da vida do bebê e aos cuidados com a gestação, também apresenta informações sobre a interrupção da gravidez nos casos previstos em lei. Para esses setores, a inclusão desse conteúdo contrasta com o propósito principal de acompanhamento da gestação e da maternidade.

Grande parte da controvérsia surgiu em razão da adoção da expressão “pessoas que gestam” pelo governo Lula (PT) em alguns trechos da publicação e das orientações relacionadas aos chamados direitos sexuais e reprodutivos. Para muitos brasileiros, especialmente aqueles que enxergam a maternidade como uma realidade inseparável da figura feminina, a substituição do termo “mãe” por uma linguagem considerada mais neutra soou como um afastamento daquilo que entendem ser a realidade da imensa maioria das gestantes.

A reação não ficou restrita às redes sociais. Médicos, especialistas e entidades ligadas à área da saúde também manifestaram críticas a pontos da caderneta. Houve questionamentos sobre orientações presentes no material e sobre a abordagem de determinados temas relacionados ao parto, ao atendimento obstétrico e aos direitos reprodutivos. As divergências mostraram que a publicação está longe de representar um consenso entre profissionais da própria área da saúde.

Nas redes sociais, a repercussão foi imediata. Milhares de usuários passaram a questionar por que um documento voltado para gestantes deixaria de utilizar, em destaque, palavras tão presentes no cotidiano das famílias brasileiras. A impressão foi a de que discussões ideológicas ocuparam um espaço que deveria ser destinado prioritariamente à promoção da saúde materna e infantil. Independentemente da posição de cada um nesse debate, é inegável que o tema despertou forte indignação em parcela significativa da população.

Outro aspecto que merece reflexão é a distância que muitas vezes existe entre a linguagem adotada por formuladores de políticas públicas e a percepção da sociedade. Quando um documento oficial utiliza termos que a maioria das pessoas não reconhece como naturais ou necessários, abre-se espaço para desconfiança e rejeição. A comunicação pública precisa ser clara, acessível e capaz de dialogar com quem está do outro lado. Caso contrário, corre-se o risco de transformar uma ferramenta de orientação em motivo de conflito.

Nada disso significa ignorar a importância do respeito às diferentes realidades existentes na sociedade. O poder público deve acolher todos os cidadãos. Porém, também é legítimo que mães, famílias e profissionais de saúde questionem escolhas de linguagem e conteúdos presentes em materiais oficiais. O debate democrático existe justamente para isso: permitir que políticas públicas sejam discutidas, aperfeiçoadas e submetidas ao escrutínio da população.

A polêmica envolvendo a caderneta da gestante deixa uma lição importante. Quando se trata de saúde pública, o foco principal deve permanecer na proteção da vida, no cuidado com a gestante, no desenvolvimento saudável do bebê e na oferta de informações claras e confiáveis. Qualquer iniciativa que desvie a atenção desses objetivos corre o risco de perder aquilo que deveria ser sua missão fundamental: servir às famílias brasileiras com eficiência, respeito e sensibilidade.

Leia também:

75% das mães sentem culpa após explosões; especialista faz alerta sobre autocuidado