Um estudo da plataforma De Mãe em Mãe, coordenado pela nutricionista e pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Giliane Belarmino, revela que 66% das mães entrevistadas classificam sua saúde mental como péssima, ruim ou regular. Apenas 34% consideram o quadro bom ou ótimo.

Entre os principais fatores apontados estão a sobrecarga materna e o esgotamento emocional. Os dados indicam que a sensação de sobrecarga esteve presente entre cinco dias e todos os dias do mês em 97% dos casos. O esgotamento seguiu padrão semelhante, com recorrência em 94% das entrevistas.

O levantamento também demonstra que 91% das mães relataram insatisfação com a própria saúde mental, mesmo percentual das que afirmaram sentir tristeza em algum momento do mês. Já o sentimento de culpa após episódios de irritação ou explosão emocional foi relatado por 75% das entrevistadas.

A psicóloga clínica Caroline Dias (CRP 09/7173), em entrevista ao Jornal Opção afirma que o cenário é resultado de fatores sociais, culturais, individuais e biológicos, muitos deles estruturados desde a juventude. “A formação da mulher, de alguma forma, ainda carrega uma tendência à autocobrança e à necessidade de desempenhar múltiplos papéis simultaneamente”, explica.

Psicóloga Caroline Dias | Foto: Arquivo pessoal

Como exemplo, ela cita pesquisa da Think Olga que aponta que sete em cada dez pessoas com depressão são mulheres. Segundo a especialista, isso está ligado à idealização da maternidade e da vida adulta, frequentemente associadas a padrões de perfeição.

Esse contexto leva ao acúmulo de responsabilidades e à intensificação da autocobrança, inclusive em aspectos fora do controle individual. O fenômeno, segundo Caroline, tem se acentuado entre mulheres mais jovens, influenciadas pela comparação constante nas redes sociais.

Vejo que adolescentes e jovens adultas enfrentam mais dificuldades para lidar com essas pressões, justamente por estarem mais expostas a padrões irreais e comparações contínuas

O impacto vai além das mães. A psicóloga alerta que o convívio com crianças em ambientes marcados por sofrimento emocional pode afetar diretamente o desenvolvimento infantil. “O aprendizado emocional ocorre pela observação. Quando a mãe está em sofrimento, isso pode gerar insegurança e dificuldades emocionais nos filhos”, diz.

Para ela, o cuidado com a saúde mental materna é também um investimento no futuro das crianças. “Ao investir na sua saúde mental, você está reescrevendo o futuro emocional dos seus filhos”, afirma.

A mudança, segundo a especialista, passa pelo reconhecimento do próprio estado emocional e pela busca ativa por apoio. Entre as estratégias, ela destaca o autoconhecimento, leituras especializadas e, principalmente, a psicoterapia. “A terapia permite revisitar padrões, compreender a própria história e construir novas formas de lidar com as emoções”, defende.

“Não é possível formar filhos emocionalmente fortes a partir de uma base fragilizada. O pensamento é primeiro eu, e depois o outro. E isso não é egoísmo, é uma das formas mais bonitas de cuidar com os nossos filhos”, conclui.

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