A trajetória política da família Bolsonaro tem uma qualidade instintiva, familiar aos eleitores brasileiros: quando enfrentam acusações, revelações ou questões de legitimidade, a resposta raramente vem através de esclarecimentos consistentes. Em vez disso, há ataques à imprensa, a formação de narrativas paralelas e os esforços incessantes para transformar fatos inconvenientes em supostas perseguições políticas.

E não é por acaso que o jornalismo investigativo, como bem faz o Intercept, é agora um dos maiores desafios para o bolsonarismo. Relatos de contradição, obscuridade de acordos ou de discordância entre discurso e prática complicam uma forma de fazer escolhas construída principalmente na disputa de narrativas. E quando você tem documentos, gravações, vídeos ou registros confirmáveis que mostram que os fatos são verdadeiros, torna-se ainda mais difícil manter essas narrativas que não se sustentam na realidade.

Episódios recentes de Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro demonstram esse dilema. Qualquer informação desconfortável tende a provocar uma resposta previsível: negação e vitimização seguidas de um esforço para desacreditar jornalistas e a mídia. Em vez de compartilhar os fatos, a narrativa se inverte e se concentra em torno de uma suposta conspiração contra a família. Essa posição vai além de uma resposta típica.

As mentiras não apenas deixaram de ser um instrumento raro, mas agora desempenham um papel de destaque na construção política do bolsonarismo. Várias narrativas falsas, exageradas ou distorcidas têm sido empregadas para mobilizar apoio, incitar fúria e reforçar percepções de que a família Bolsonaro está sob ameaça crônica de inimigos imaginários, ao longo dos anos. O problema, no entanto, é que a realidade tende a colapsar narrativas. A credibilidade dos envolvidos é posta em questão quando surgem evidências que contradizem declarações públicas.

No entanto, a autocrítica ou a admissão de erro raramente são evidentes. O que ocorre com mais frequência é a produção contínua de novas versões para substituir as antigas, com um esforço constante para manter a base mobilizada e escapar da responsabilidade. Nessas circunstâncias, o papel do jornalismo torna-se inevitável. Não porque seja infalível, mas porque o ato é, de fato, desafiar o poder com fatos que podem ser medidos.

Quando jornalistas analisam bens, conexões políticas, fontes de financiamento ou potenciais conflitos de interesse, estão cumprindo um dever democrático. Mas o desconforto causado por essas investigações não é perseguição — é a consequência do escrutínio público. Nesse sentido, a família Bolsonaro construiu grande parte de sua identidade política desafiando diretamente a velha imprensa e rotulando relatos negativos como fake news.

Mas uma vez que a cadeia de revelações — através de documentos, áudios, vídeos e testemunhos — é confirmada uma após a outra, torna-se quase impossível manter a narrativa de que tudo isso é simplesmente uma grande conspiração.

Em uma democracia, quando há políticos poderosos, eles devem estar sob vigilância pública. E quanto mais poder houver, maior deve ser a demanda por transparência. O verdadeiro problema da família Bolsonaro não são os jornalistas investigativos, mas o jornalismo investigativo. Mas o jornalismo sério exige que confrontemos discursos com os fatos. Quando isso acontece, muitas narrativas simplesmente não sobrevivem.