Todos os dias somos expostos a histórias de pessoas que enfrentam situações extremas. Famílias que fogem da fome, refugiados que abandonam tudo para sobreviver, moradores de rua que lutam contra o abandono e trabalhadores que não sabem se terão o que comer no dia seguinte. Apesar disso, grande parte dessas realidades permanece distante dos nossos olhos e, principalmente, das nossas preocupações.

Existe uma tendência humana de se sensibilizar apenas com aquilo que vê. Enquanto o sofrimento permanece longe, ele se transforma em estatística, notícia ou comentário passageiro. O problema é que essa distância emocional transforma sofrimento desnecessário em uma punição eterna. Quando ignoramos a dor alheia, permitimos que ela continue existindo sem questionamento.

Muitas pessoas defendem que não têm responsabilidade sobre os problemas dos outros. De fato, ninguém é capaz de resolver sozinho todas as dificuldades do mundo. No entanto, isso não significa que a sociedade deva se eximir de qualquer compromisso com aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade. A solidariedade não exige soluções grandiosas; exige, antes de tudo, disposição para reconhecer a humanidade do outro.

A indiferença costuma ser apresentada como neutralidade, mas ela não é neutra. Quando alguém sofre e escolhemos não agir, ainda estamos fazendo uma escolha. Quando uma pessoa pede ajuda e desviamos o olhar, estamos tomando uma decisão. Em muitos casos, a omissão contribui para que problemas sociais se agravem e para que indivíduos continuem abandonados à própria sorte.

Por isso, a questão mais importante não é saber quantas pessoas vivem em situação de necessidade, mas como reagimos quando nos deparamos com elas. É fácil defender valores como empatia e solidariedade em discursos abstratos. O verdadeiro teste ocorre quando o sofrimento deixa de ser uma informação distante e passa a ter rosto, nome e presença diante de nós.

Uma sociedade mais justa não se constrói apenas por meio de leis ou políticas públicas, embora elas sejam fundamentais. Ela também depende da capacidade de seus cidadãos de se importarem uns com os outros. Afinal, o valor da solidariedade não é medido pelas palavras que pronunciamos, mas pelas atitudes que adotamos quando alguém precisa de ajuda.

No fim, a pergunta que cada pessoa deve responder não é se existem indivíduos sofrendo ao redor do mundo. Eles existem. A pergunta é outra: o que faremos quando o sofrimento deixar de estar distante e aparecer diante da nossa própria porta?

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