Dos penhascos deslumbrantes ao encontro com fidalgo catalão que não entendia portunhol
01 junho 2026 às 19h55

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Toda despedida me leva à lona por nocaute sentimental. Sempre foi assim desde que me separei de dois dos meus três filhos. Essa mágoa está completamente debitada em minha conta.
Mesmo tendo perdido tantos amigos pelas despedidas eternas, qualquer adeus é para mim um machucado dolorido no pâncreas.
No meu último dia em Tossa de Mar (Catalunha), decidi fazer uma caminhada de longa distância nos penhascos banhados pelo Mar Mediterrâneo.

Precisava ficar sozinho no meio do nada para não me esquecer da Costa Brava. Na minha idade, cada lugar conhecido tem um sabor de última vez e alguma certeza do nunca mais voltar.
Trata-se do Cami de Ronda, trilha exclusiva para pedestres que exige alguma técnica de trekking. O terreno granítico é cheio de sobe e desce sobre pedras soltas, com muitas áreas expostas nas colinas de floresta de coníferas (pinheiros).
Uma queda significa resgate de helicóptero, com direito a maca no departamento funerário da aeronave. O começo da caminhada é bem puxado por se tratar de uma subida íngreme de 2,5 quilômetros.

A recompensa são os vários mirantes que expõem o Mediterrâneo do alto das falésias. A sinalização da rota é eficiente e contei ainda com auxílio luxuoso do Wikiloc (aplicativo de trilhas) para não me perder no caminho.
O Cami de Ronda integra a Rede Europeia de Trilhas (E-paths), iniciativa que padroniza o sistema de demarcação do terreno por todo o Velho Continente.
No Brasil existe um programa semelhante e tem tudo para ser um sucesso, independente da interferência de qualquer governo. Quando há menos participação de políticos, o resultado tende a ser mais satisfatório.

As formações rochosas de Cala Pola, esculpidas por erosão dos ventos e das ondas, são de tal magnitude que os barcos se tornam um detalhe minúsculo no meio do mar.
Águas de colorido azul intenso
Já as águas de colorido azul intenso te fazem sentir ainda menor diante do espetáculo do ambiente natural. Bem ao longe, na linha costeira, há a formação geológica de covas marinhas no maciço granítico.
As câmaras são tão grandes e profundas que os barcos nelas penetram em franca navegação. Desta programação, me excluo por não entrar em qualquer embarcação mesmo se for bem-remunerado em euro.
O máximo que me permiti de contato com as águas do mar foi molhar a cabeça para aliviar o sol escaldante na enseada de Cala Bona. Não trouxe traje de banho e não fez falta. Minha praia são as montanhas.

Em Tossa de Mar tive uma palestra relativamente pouco instrutiva com o senhor Jordi Puig. O resultado do diálogo de baixo aproveitamento foi o fato de o portunhol (mistura de português com espanhol) não fazer o menor sentido para quem fala o catalão, idioma local.
Separatista, Puig se recusa terminantemente a “hablar” em castelhano. Fiel aos seus caros princípios, acredita que a Catalunha não declarou a independência da Espanha justamente por estar “infestada de gente” da Andaluzia.
Trata-se de Comunidade Autônoma localizada ao sul da Península Ibérica, pejorativamente famosa por gostar mais das “fiestas” do que de trabalhar. O andaluz é alguma coisa próxima de um baiano preguiçoso por atavismo.
Ainda bem que não há na Catalunha qualquer entidade com o nome de iemanjá e nem a assombração da Clara Nunes. A cantora brasileira não é a mais abominável figura da MPB, pois são insuperáveis o Zé Ramalho e o Djavan.
Jordi tem razão neste aspecto demográfico. Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), os últimos combatentes republicanos no sul da Espanha fincaram raiz na Catalunha após o cerco implacável das tropas nacionalistas de Francisco Franco.
Jordi governava o tempo de acordo com as baforadas de um charuto cubano aromático e com gesto pleno de fleuma e satisfação para aquela hora da manhã. Ele é anticomunista e tem antipatia dobrada pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

Puig confessou não ver a hora de o político esquerdista e antissemita ir conhecer a carceragem por dentro. Sánchez é acusado de vários casos de corrupção. Inclusive, mancomunado com o presidiário Nicolas Maduro, ditador deposto da Venezuela.
No último 23 de maio, cerca de 40 mil pessoas — 120 mil, de acordo com os organizadores da Marcha pela Dignidade — foram às ruas de Madrid, capital da Espanha, pedir a renúncia do primeiro-ministro.
Bizarrice brasileiro no trato do espanhol
Na Catalunha, o homem de charuto cubano à boca em ritual admirável não é o único a estranhar as bizarrices dos brasileiros no trato da língua espanhola.
Os idiomas português e espanhol são plenos de falsos cognatos e podem gerar desavenças bilaterais, por mais amigáveis que sejam as intenções de interatividade espontânea.
“Embarazada” significa uma mulher em gestação. “Burracho” não tem nada a ver com pneu do carro. Trata-se do estado de embriaguez.
“Exquisito” não é alguma coisa estranha. Ao contrário, a tradução é de um produto delicioso. Já “muy rico” não se refere aos políticos bandidos de Brasília, mas à designação, por exemplo, de queijo espetacular de Castilla la Mancha (Comunidade Autônoma da Espanha).

Em uma ocasião, na casa do generalíssimo Demóstenes de la Cuesta y Colina del Gran Valle de la Meseta Inovidable, certo culto desembargador, super gente fina, aproveitou a noite de vinhos da Rioja para declamar em tradução simultânea um poema de Pablo Neruda.
Tão logo iniciou o procedimento com “Las Montañas e El Mar”, alguém pediu, com a devida bondade, que seria desnecessário a declamação na língua de Miguel de Cervantes. O pessoal da mesa entendeu bem o conteúdo em portunhol.
Ontem mesmo, observei uma coroa dos seus 47 anos, espigada e com cara de falsa rica paulistana, mandar um “puesso” em loja de souvenir. Pelo o que entendi, o tal “puesso” é uma variação do “puedo”, para finalmente significar um simples “posso.”
O brasileiro é muito criativo e manda sem medo de errar um “es pierto” para perguntar se determinada localidade é próxima (cerca, em espanhol).
No final do ano, em frio de rachar nas ruas da monumental Gran Via madrilenha, chamam a celebração do nascimento do menino Jesus de “natales” (navidad, em espanhol).
Quando quer um bolo (pastel ou tarta, em espanhol) o pessoal segue a mesma linha e solta um “buelo.”
No restaurante, os brasucas não perdem a viagem ao perguntar um “quanto sale” para solicitar a conta ao garçom.
“Jabotiqueba, socuerro e pipueca”
O que mais funciona, devido ao apelo internacional da marca do refrigerante, é o “Cueca-Cuela.” Trata-se um clássico do portunhol falado desde a Argentina até um bar de tapas no culto bairro Madrid de Las Letras.
As coisas complicam quando o camarada se mune de sentimentos ultranativistas. Já vi gente perguntar se havia sorvete de “jabotiqueba” em mercado de alimentos de Valladolid.
Ué, estou falando daquela fruta que singulariza o Brasil por apelidar as manobras malandras de deputados e senadores no exercício da atividade parlamentar. A jabuticaba adquire saborosa vida nova quando dita em portunhol.
Até na hora do apuro, a galera não se faz de rogada e lança mão de um “socuerro”. Depois, sai do desconforto atrás de um saquinho de “pipueca.”
Aqui vale muito a pena ouvir o samba “Bolinho de Bacalhais”, na voz de Walter Alfaiate, grande músico brasileiro: “Esse cara é uma peça, esse cara é demais, pediu no Bar da Maria, bolinho de bacalhais…”
O Principado Imaginário acabou de ser integrado pela minha eterna professora de história do Brasil, Maria Amélia Alencar. Desde 1980, somos amigos e ela já está empossada no Ministério do Conhecimento. Maria Amélia é fluente em portunhol.
Se há uma coisa que você pode fazer na Espanha – sem ter de recorrer ao “duela em quem duela” – é pedir chocolate vegano em loja de produtos alternativos. É exatamente assim que a vendedora, de cabelo azul e de axilas peludas, denomina o produto.
Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.



