A volta para a Espanha, desde o Chipre, teve todos componentes de uma inominada roubada. Ao chegar no aeroporto de Barcelona, fui obrigado a descolar um táxi para não perder o último ônibus que me levaria a Tossa de Mar (Catalunha).

Mesmo assim, não havia mais bilhetes. Tinha reserva de hotel nesta cidade e jogar dinheiro fora não é comigo. Felizmente, a funcionária da estação estava naquele dia dedicada a fazer amigos e conquistar as pessoas.

Imagem icônica da cidade Foto Marcio Fernandes 2026
Imagem icônica da cidade | Foto: Marcio Fernandes/2026

Após relatar minha peleja e fazer cara de cachorro abandonado, ela se compadeceu da minha situação e conseguiu um lugar no setor destinado a idosos, gestantes e outros incapacitados. Deu certo, mas foi um dia perdido com quatro horas de voo e 1h20 de ônibus.

Situada na Costa Brava, a cidade catalã é o que se pode chamar de reserva incondicional da beleza. Mesmo cheia de turistas japoneses, de longe o povo mais sem noção do planeta, nada foi capaz de atrapalhar meu fim de viagem.

As águas são de singular beleza com matizes do verde esmeralda ao azul profundo. Há zero de poluição, as ruas são de impecável limpeza.

Tossa de Mar foi fundada pelos romanos com o nome de Turissa e teve a economia sustentada por importante centro de produção agrícola. Por aqui, eles permaneceram entre os séculos I a.C. ao VI d.C.

Única povoação costeira da Catalunha fortificada, em 1186 teve início a construção do castelo e das muralhas que se impõem sobre uma colina com extraordinária vista do Mar Mediterrâneo. O objetivo era de proteger a cidade de bucaneiros de todo gênero.

As águas são de singular beleza com matizes do verde esmeralda ao azul profundo. Há zero de poluição, as ruas são de impecável limpeza e não há ambulantes a perturbar os banhistas.

A turistada na alegria do banho de mar Foto Marcio Fernandes 2026
A turistada na alegria do banho de mar | Foto: Marcio Fernandes/2026

O balneário é o mais familiar possível. Por volta das 11 horas da noite reina absoluto silêncio. Aqui não é lugar para quem faz uso de droga e vira a madrugada ouvindo música eletrônica. Esse pessoal esculhambado fica em Lloret de Mar, a quinze quilômetros daqui.

Desde o século XVI, o povoado de casario branco guarda a tradição de vila pesqueira. O sol da primavera está com muita cara de verão, no entanto brisa fria deixa o calorão longe da minha pele machucada. Para celebrar tanta beleza, bebi a primeira cerveja da viagem em homenagem à monotonia do mar.

Nada me irrita mais do que me sentar em mesa isolada e alguém, que poderia estar bem longe mim, tomar assento ao lado, conversar alto e comer batata frita. No Brasil, acontece sempre e isso me motiva a não sair de casa.

O violonista celestre de Marc Chagall
O violonista celeste, quadro de Marc Chagall | Foto: Divulgação

A Costa Brava tem um componente artístico natural. Foi em Tossa de Mar que o artista plástico judeu, nascido na Bielorrússia, Marc Chagall, pintou “O Violonista Celeste”, obra-prima que se encontra no museu da cidade.

A atriz americana Ava Gardner foi imortalizada em escultura exposta ao ar livre dentro das muralhas em tamanho real. Gardner foi consagrada com a obra de arte em decorrência de o filme “Pandora e o Holandês Errante” ter sido produzido em Tossa de Mar em 1950.

Falésia banhada pelo Mar Mediterrâneo Foto Marcio Fernandes 2026
Falésia banhada pelo Mar Mediterrâneo Foto Marcio Fernandes 2026

Um pouco mais ao norte, em Cadaqués, se encontra a Casa-Museu Portlligat dedicado ao artista plástico catalão Salvador Dalí. O maior nome do surrealismo morou por muito tempo na antiga vila de pescadores, hoje também convertida em balneário.

Na Costa Brava, Truman Capote escreveu parte substancial de seu romance de não-ficção “A Sangue Frio”. Ele viveu três anos na região.

Estátua de Ava Gardner em Tossa de Mar
Estátua da atriz americana Ava Gardner em Tossa de Mar | Foto: Divulgação

O mar é lindo, no entanto uma excelente pedida é sair sem GPS pelas ruelas sinuosas de Tossa de Mar. Nelas se encontra um casario que valoriza as portas de madeira com arcos de granito e muita arborização para acalmar o sol nas vias estreitas.

Nas falésias de até 500 metros em relação ao nível do mar, os bosques naturais de pinheiros endêmicos do Mediterrâneo são entremeados por oliveiras começando a produzir, pés de nespereira e de limão siciliano à espera de virar um suco de fundamental importância no calor.

Janela do castelo no alto da colina Foto Marcio Fernandes 2026
Janela do castelo no alto da colina | Foto: Marcio Fernandes/2026

Não posso afirmar que estou com saudade do Brasil. Sinto falta apenas da minha casa e de falar português. Quando voltar, terei de aguentar o ambiente da disputa eleitoral dos dois candidatos à frente das pesquisas que não terão meu voto.

Eu deveria lavar roupa, pois estou a perigo, na prática de reuso de camisetas banhadas no chuveiro. Não vai dar. Enquanto isso, espero cair a noite para ir fotografar a muralha. Ela me faz sentir cada vez mais medieval à medida em que a idade avança na incomensurável beleza da Catalunha.

Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.