Chipre: quando determinada observação de flamingos te leva à grande roubada
19 maio 2026 às 18h35

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Larnaca, como porta de entrada de Chipre, com muita bondade, tem lá os seus encantos. Situada na margem sul do Mar Mediterrâneo, é uma das poucas povoações da ilha continuamente habitada na história por ter privilegiado porto.
Acredita-se que o primeiro assentamento humano foi fundado pelo neto de Noé, o cara que salvou a bicharada em uma arca, aproximadamente seis mil anos atrás.

Chipre é um país relativamente independente, integra a União Europeia, tem o euro como moeda, possui uma área de 9.251 km² e guarda uma população de 1,2 milhão de habitantes.
A ilha faz parte do Oriente Médio e já esteve sob o domínio de fenícios, assírios, egípcios, persas, gregos, romanos e venezianos. Ou seja, é uma terra de ninguém.
Durante 300 anos, fez parte do Império Otomano, em 1878 foi apropriado pela Grã-Bretanha, mas em 1960 se tornou uma república autônoma. Em 1974, a Grécia decidiu tomar conta da ilha, o que provocou um conflito com os turcos.

Como resultado da ação dos dois países, tradicionalmente inimigos, desde 1974 os turcos estabeleceram a República Turca do Chipre do Norte, só reconhecida por eles mesmos.
A ocupação turca abrange 37% do território de Chipre, divide a capital, Nicósia, em duas partes, com uma zona de exclusão comandada por tropas da Organização das Nações Unidas (ONU).
Ainda irei lá conferir essa situação e talvez anexar toda a ilha ao meu Principado Imaginário para acabar com a confusão entre gregos e turcos.

Aliás, o Ministério da Comunicação dos meus domínios está a cargo de Rachel Azeredo, grande amiga desde o século passado. Ela já pode começar a trabalhar.
Larnaca é um balneário marinho turístico tradicional. Deve ser insuportável no verão. Do centro histórico, restam poucas edificações, com destaque para a igreja de São Lázaro, o castelo medieval, a mesquita Hala Sultão Tekke e o aqueduto de Kamares.
Algumas casas e antigos palácios remanescem de pé em péssimo estado de conservação. Por outro lado, as ruas são muito limpas e o trânsito é lento para o bem dos pedestres.

Só tem de ter cuidado com a orientação ao atravessá-las, pois no Chipre se observa a mão inglesa. O segredo para não ser atropelado é olhar para a direção contrária.
Nesta primavera de sol garantido, as aeronaves aterrissam e decolam o tempo com a turistada a bordo. Por ser um local super concorrido e localizado no Oriente Médio, é razoável supor que o lugar é pleno de pequenos golpes.
Na verdade, o povo não é malandro como na Turquia. Há alguns hotéis sofisticados, com vista para o Mar Mediterrâneo, mas Larnaca é meio fubazenta, característica de todo balneário frequentado por russos.
Eles estão em todos os lugares como se o resto da humanidade não existisse. Certamente, irão invadir a sua praia a qualquer momento como legítimos farofeiros.

Você pode achar que isso é preconceito. Não vou discutir contigo, pois não sou de discriminar ninguém. No final das contas, gostando ou não da constatação, Larnaca continuará sendo fubazenta e frequentada por russos maloqueiros.
Aqui tem um problema sério para quem odeia cigarro. Os cipriotas, gentílico de quem nasce no Chipre, fumam mais do que rapariga presa por desacato à autoridade.
Para se ter uma ideia, nos restaurantes é permitido fumar em qualquer mesa e os hotéis oferecem quartos para tabagistas. Inacreditável para o padrão da Europa Ocidental e mesmo para o do Brasil.
Estou muito parecido com o Buck Jones, um cachorro fila que meu pai criou. Ele se revirava de gastura ao ver um prato de macarrão, conforme ironizava a avó Carlota de Melo.
Meu problema é com o espetinho de frango. Ao ver o bicho nas fotografias dos pratos, meu estômago embrulha igual ao de mulher no terceiro mês de gravidez.
Em Larnaca, a dica de restaurante é evitar estabelecimentos manjados que têm dezenas de opções no cardápio, música ao vivo e dança do ventre. Estamos falando de 100% de serem uma roubada clássica.
Como todo cidadão de lugar litorâneo, o cipriota é meio “quarta-feira”, ou seja, não tem muita iniciativa. Na verdade, o povo é de uma inominável preguiça e não há para quem reclamar.
Hoje o dia parecia ser perfeito. O café da manhã foi bom e depois houve régio almoço em restaurante italiano. Linguini ao atum, com alcaparra, azeitona, cebola e azeite de oliva. Tinha muito atum e não era de lata. Atum mesmo, pescado no Mar Mediterrâneo pelos locais.
Já se aproximava das 16h30 quando decidi atravessar o Parque Florestal Pattihio e alcançar o lago de sal na periferia de Larnaca.
A finalidade da caminhada de longa distância era fotografar os flamingos e aproveitar a lâmina d’água de um dia lindo para colher a imagem do pôr do sol. Deu tudo errado.
Em primeiro lugar, o tempo virou, armou uma chuva no céu com vento frio e eu tinha deixado o casaco apropriado no apartamento.
Segundo erro: levei apenas uma garrafa de água de 500 ml, sem calcular que a brisa salina iria promover o rápido esgotamento do recurso disponível por exigência natural do ambiente.
Por fim, depois de andar bem além da minha capacidade de cardiopata, cheguei no ponto marcado no mapa como “observatório natural dos flamingos” e não vi uma pena vermelha dos bichos. A roubada só não foi maior porque eu tinha um passe de ônibus.
Voltei com relativo conforto para casa, mas moído, e desarrumado como um bacalhau de porta de venda. Está excluída da viagem qualquer outra iniciativa que envolva bicho na natureza selvagem e não sou obrigado a salvar um passarinho na Amazônia.
Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.



