Nas várias viagens que fiz pela Espanha, passei por cidades muito próximas de Vitoria-Gasteiz, capital do País Basco, a exemplo de Pamplona, Bilbao e Logroño, sem incluí-la no roteiro. Nada contra, simplesmente não fui.

Deliciosos pintzos com suco de laranja foto Marcio Fernandes 2026
Deliciosos pintxos com suco de laranja | Foto: Marcio Fernandes/2026

Desta vez, a cidade foi relacionada cuidadosamente no planejamento devido seu valor histórico e por ser um destino que ainda está fora do alcance da turistada. Como é bom poder visitar museus, contemplar torre de catedrais e andar por parques sem esbarrar em japoneses, russos e brasileiros fazendo autorretrato no celular, entre outros abusos digitais.

Vitoria foi oficialmente fundada em 1181 pelo rei Sancho VI, o sábio, sobre a colina de uma aldeia chamada Gasteiz, surgida no século 8. Moderna, radiante e com extraordinário equipamento urbano voltado para o bem-estar dos seus habitantes, a capital do País Basco guarda um casco antigo (cidade medieval) de 232 mil metros quadrados de uma conservação e beleza sem igual em toda a Península Ibérica.

Centro histórico de Vitoria Gasteiz Foto Marcio Fernandes 2026
Centro histórico de Vitoria-Gasteiz | Foto: Marcio Fernandes/2026

É nesta parte da cidade que residem as melhores tabernas com os balcões de pintxos (aperitivos sobre fatia de pão) enfileirados em dezenas de iguarias confitadas para acompanhar um copo de caña (cerveja) ou uma taça de vinho. Como não bebo de dia e não tenho costume de sair à noite, fui à caça da variedade de pintxos acompanhada de espetacular suco de laranja.

A capital do País Basco é uma estância urbana cultural por essência. Em nenhum outro lugar da Europa, nem mesmo Lisboa, existe um conjunto de arte de rua tão belo e complexo. Não estou falando de pichações de maloqueiros libertinos, mas de painéis gigantescos assinados por gente que sabe desenhar, combinar cores e elaborar mensagens de conteúdo universal.

Passeata de aposentados por melhores salários foto de Marcio Fernandes 2026
Passeata de aposentados (jubilados) por melhores salários | Foto: Marcio Fernandes/2026

Até mesmo um simples albergue da juventude ou uma loja de bicicleta tem a sua porta ou vitrine com pinturas que poderiam ser gravadas em óleo sobre tela. Outra coisa que destaca Vitoria-Gasteiz é o equipamento verde no interior e no perímetro da cidade.

São 46 metros quadrados de vegetação urbana por habitante, compreendendo 833 hectares em um total de 115 mil árvores plantadas. Para se ter uma ideia, a capital do País Basco possui um anel de vegetação de 33 km de extensão. O cinturão verde liga cinco parques ambientais e guarda uma rede de ciclovia e trilha exclusiva para pedestre de 90 km.

Exemplo de arte urbana na capital do País Basco Foto Marcio Fernandes 2026
Exemplo de arte urbana na capital do País Basco | Foto: Marcio Fernandes/2026

Se o espanhol já é um povo que ama protestos e grandes manifestações políticas públicas, o basco é professor catedrático na matéria. No dia 8 de maio, ao sair do local bem simples e qualificado no qual me instalei por dois dias, fui surpreendido por longa, ruidosa e bem-organizada passeata de aposentados por um salário-mínimo devidamente protegidos pela polícia municipal. Gostaria muito de agradecer ao proprietário da hospedaria, Javier Martín Martín, pelo acolhimento espetacular das “Habitaciones Javier.”

Só não entendi a razão de, entre os velhinhos manifestantes, constar a presença de gaiatos a reivindicar a Palestina livre. Esquerdopatas não perdem a oportunidade de culpar Israel por todos os problemas do mundo para, no fundo, manifestar o antissemitismo. Aliás, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, tem em comum com o presidente Lula da Silva profunda afinidade com a corrupção e sentimentos antissemitas.

É algo absolutamente incoerente a disposição de um primeiro-ministro espanhol prestar reverência ao terrorismo islâmico. Primeiro, por ser uma iniquidade em si. Depois, em razão de a Espanha ter sido palco de atentados jihadistas em 11 de março de 2004 em Madrid e em 17 de agosto de 2017 em Barcelona. Por acaso, eu estava na capital da Catalunha quando o ato terrorista ocorreu.

Sistema de transporte público impecável no País Basco Foto Marcio Fernandes 2026
Sistema de transporte público impecável no País Basco | Foto: Marcio Fernandes/2026

Por indicação espontânea de uma canadense, Alice Storm, que conheci nas ruas da cidade medieval, fui visitar o Centro Memorial das Vítimas do Terrorismo, um dos museus mais interessantes da Europa.

Após percorrer os dois andares do edifício muito bem organizado em setores que registram as ações desde o grupo separatista ETA (Euskadi Ta Askatasuna, País Basco e Liberdade) aos bandidos sanguinários islâmicos, você deixa o museu chocado e com muita vontade de encontrar um canto solitário para chorar.

O ETA foi uma organização terrorista que preconizava a separação do País Basco do território espanhol. Fundada em 1958, infernizou a Espanha por 60 anos na prática de ataques com bombas, assassinatos e extorsão mediante sequestro.

Apesar de ter sido extinto em 2018, por toda Vitoria-Gasteiz se encontram cartazes nas paredes e bandeiras nas varandas das casas com mensagens reivindicatórias da liberdade de terroristas da organização criminosa que cumprem pena de prisão em penitenciárias fora do País Basco.

Eu expliquei à Alice que no Brasil houve atividades de terrorismo urbano durante o regime militar (1964-1985), realizadas por grupos foquistas de esquerda, mas hoje essas organizações bandidas são lideradas por narcotraficantes. Mencionei que o país registra anualmente mais de 40 mil homicídios, a maioria acobertada pela impunidade.

Também, para o espanto da canadense, mencionei a escala bilionária em dólares da corrupção política brasileira. Fiz breve explicação sobre a maravilha de o bananal desalmado ter escolas de samba que proporcionam o maior espetáculo de entretenimento da terra. Por outro lado, possui uma rede de ensino básico que funciona como indústria monumental de analfabetismo funcional.

Eu moraria em Vitoria-Gasteiz numa boa por conta da simplicidade e gentileza do povo basco, sempre muito solícito em te socorrer, mesmo se for o caso de apelar para o portunhol. O idioma local original (euskara) precede a influência romana, não tem raiz indo-europeia e é incompreensível até para os próprios espanhóis. Por exemplo, um cartaz feminista que diz “ENFRENTE A VIOLÊNCIA MACHISTA!, em basco é  escrito assim: “INDARKERIA MATXISTARI AURRE EGIN!”.

Outra coisa que me deixou muito feliz na cidade foi a quantidade e qualidade excepcionais de confeitarias, com uma variedade de bolos sensacional, assim como sofisticadas livrarias e sistema de transporte público de dar inveja a Amsterdam.

Há o veículo leve sobre trilhos (VLT) e os ônibus elétricos de pneus, lindos de chorar, com pintura verde e laterais cobertas de vidro. Como sou usuário do lastimável sistema de transporte coletivo no Brasil, me senti um visconde ao trafegar em veículo articulado.

Homem lendo na rua no País Basco
Homem lendo numa rua de Vitoria-Gasteiz, capital do País Basco | Foto: Marcio Fernandes/2026

Inclusive, fiquei particularmente encantado ao assistir um senhor a caminhar na rua compenetrado na leitura de um livro. Coisa raríssima de se ver nestes tempos retardados de gente que não se desgruda do WhatsApp nem durante as refeições.

Há algo de nacional em Vitoria-Gasteiz que consegui notar no bate-pernas pela cidade: certa rede de cafés chamada La Brasileña, famosa por servir o produto da Colômbia e da Costa Rica.

E um “centro cultural” nominado em homenagem ao educador Paulo Freire. Se você quiser se encontrar com todo tipo de gente desqualificada do terceiro mundo fumando haxixe é só dar uma passada por lá.

Vamos aos fatos. Após oito dias de viagem estava desesperado para comer arroz. Coisa de goiano da gema. A decisão foi procurar um restaurante tailandês, cuja gastronomia é famosa por certo “arroz frito.”

Ao chegar ao estabelecimento, o garçom-proprietário era na verdade chinês e estava a fazer uma limpeza grande do salão nasal com o dedo indicador esquerdo, sinal de que o porco era canhoto e tinha narinas francas.

Mesmo com toda falta evidente de modos e higiene do camarada, enfrentei o problema e comi regiamente um arroz três delícias, em realidade duas, pois um dos ingredientes era milho de lata, algo que não entra em meu cardápio nem para eu ganhar dinheiro. Estou a caminho da Romênia sem planos para restaurante chinês.

Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.