Geraldinho na cidade dos fios poluidores
15 abril 2026 às 18h53

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Eu busquei o Geraldinho Nogueira (1913-1993) no alto da face oeste do Edifício Dona Chafia, no Centro de Goiânia. O levei para dar uma conferida a pé na situação da cidade desde a Rua 3, com foco nos setores de higiene e limpeza. Foi uma decepção especialmente para o personagem criado pelo publicitário Hamilton Carneiro em 1984 no programa “Frutos da Terra”.
Antes, fotografei o painel gigantesco e qualificado dos artistas Renato Reno e Douglas de Castro com a fiação aérea da cidade a dividir em fatias a face do capiau mais legítimo de Goiás. Linhas diagonais da perfeita desordem de fios feios e poluentes, como é próprio do terceiro mundo urbano do Brasil.

A obra tem 20 metros de altura por 10 metros de largura e consagra dois grandes artistas de rua com exposição em Londres, Berlim, Montreal, Jerusalém, entre outras. Goianos universais, como Geraldinho. Ele foi um roceiro originário que virou símbolo pop da goianidade pelo pioneirismo de mostrar o valor da cultura caipira feita no Brasil Central. Muito por causa dele minha geração deixou de ter vergonha de ser roceira. Piorou em alguns aspectos, mas foi positivo.
Dos lugares em que eu já fui, só na Bolívia há um sistema aéreo de distribuição de energia (e telefonia) e dados tão esculhambado como por aqui. Até o Marrocos é mais arrumado do que essa bagunça nas ruas da cidade, comentei com o Geraldinho. Mostrei para ele que, de poste em poste, a maçaroca resulta em um serviço público e da iniciativa privada oferecido com uma infraestrutura pobre, ineficiente, atrasada, muito feia e de alto custo.
E ainda te chamam de contribuinte ou cliente para criar uma relação de cumplicidade com a fiação confusa dos postes que lembram os parentes problemáticos. Ao mostrar ao Geraldinho essa barafunda na Avenida Goiás, confessei que vou morrer convicto de que o país tem uma patologia grave de fiação trocada. Para piorar, centenas de usuários de drogas roubam os fios de cobre nos postes caóticos para comprar entorpecentes com apurada técnica para não serem eletrocutados.
Falar em revitalização do Centro de Goiânia sem um projeto urbanístico de conversão subterrânea da rede de distribuição de energia e informação é fugir do principal. Seria muito interessante estabelecer como perímetro da obra os limites geográficos do projeto de Attílio Corrêa Lima. Foi feito na Cidade de Goiás e Pirenópolis em relação ao centro histórico e deu certo. A iniciativa daria oportunidade de criar mais áreas exclusivas de pedestre e excluir definitivamente das fachadas dos imóveis art déco, sobretudo da Avenida Anhanguera, as placas dos anúncios das lojas. Há uma lei que obriga o governo fazer isso.
Esse patrimônio arquitetônico precisa ser revelado para ter reconhecimento social de política pública importante. Naturalmente que o novo modelo sofisticado de iluminação vai criar um padrão urbano de centro de cidade qualificado, que por sua vez traz um ambiente de negócios de alto padrão de investimento, inclusive com o ressurgimento da antiga hotelaria do Centro de Goiânia.
Geraldinho me disse que parou de fumar, mas pediu para ir ao Mercado Central só para respirar o aroma do fumo de rolo de Piracanjuba. Ele não ficou muito satisfeito com determinado serviço público. Era para tapar um buraco. Foi feito corretamente um recorte retangular para o remendo novo em asfalto velho. No entanto, não houve a pavimentação e os primeiros automóveis que passaram pela Rua 3, depois da Avenida Araguaia, conheceram a lama em dia de sol quente.
Na Rua 55, nós encontramos uma fábrica de hóstia chamada Mesa Santa, gerenciada por um evangélico de 21 anos. Ele pediu para não ser identificado, mas mostrou entender de cálculo e me falou de números expressivos de produtividade da empresa na Páscoa que passou. A hóstia era hóstia mesmo. Já o vinho, embalado em copo de plástico de cafezinho, era representado por suco de uva. Concordo com o protestante e acho que não deve haver bebida alcóolica na missa. Com exceção do padre, se ele não for dirigir.

A gente sobe a Avenida Goiás na direção sul e encontra antes da Rua 4 uma livraria de livro usado, de enorme reputação, vendendo abacate. Geraldinho ficou impressionado com a falta de asseio e procedimento de uma manequim de lingerie em uma loja, praticamente em frente ao Anhanguera em pessoa, se vendendo por 40 reais. Eu sempre ia atrás do capiau em busca de uma esquina de fiação ainda mais caótica do que a outra. Até a sombra das maçarocas virou imagem digna de uma fotografia feia da cidade.
No caminho, descobrimos uma banda chamada Farofa do Forró, um gaiato que se anuncia na profissão de antenista, marido de aluguel, e vimos a marcação do domínio territorial do comando vermelho praticamente na porta de uma casa de tolerância na baixa Avenida Goiás. Comando vermelho pichado em negro? Só em Goiânia! Eu e o Geraldinho achamos que era fake news.

Mostrei para ele no Mercado Central um vendedor de panelas. O cara as expõe em forma piramidal na porta da empresa rigorosamente de segunda a sábado. O fim da escala de trabalho de 6×1 seria um desastre para seus negócios e com consequência desastrosa para o emprego. Outro empresário oferece café muito bom e chope em duas máquinas gêmeas entre generosas réstias de alho e cebola. Não bebo nenhum dos dois e vou lá por causa da vitamina com aveia. Ela me traz lembrança da comida farta e boa da minha mãe que acabou.
Eu falei para o Geraldinho que na próxima vez vou apresentar a melhor garapa de Goiânia. Seu Jovenildo, dono do estabelecimento ambulante, com investimento novo e grande na capacidade instalada, é patriota o ano inteiro, não tem nada a ver com copa do mundo. Ele é apaixonado pelo Bolsonaro e faz os 300 ml mais baratos da cidade. Cinco reais sem limão e gelo. Garapa pura de cana vinda de um lugar que deve ser muito bacana, pois se chama Campestre.

“A onda de lacração que ninguém aguenta mais.” A mensagem de contracultura de direita foi encontrada em um poste solitário no ambiente do grafismo woke da cidade e finalizou a minha palestra com o Geraldinho. Ele ficou muito cismado com essa história de misoginia virar crime, mas voltou para a própria grandiosidade artística na face oeste do Edifício Dona Chafia, dividido em fatias de fios poluidores.
Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.

