A definição do palácio do meu principado e uma importante questão de gênero
06 maio 2026 às 18h23

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No domingo, 3 de maio, acordei pleno de entusiasmo até que percebi ter deixado minha balaclava preferida no hotel. Já estava na estação de trem de Avilés, Principado das Astúrias (Espanha) e não fazia sentido voltar ao quarto e perder o único meio de transporte disponível. Bateu uma tristeza grande. Foi como se tivesse morrido meu cachorro preferido que nunca tive. Tenho antipatia de cachorro, gato, tartaruga etc. e acho que todo castigo para retardado é pouco.
Na verdade, fiz uma conferência minuciosa do dinheiro, dos cartões de crédito, do passaporte, do equipamento fotográfico, mas me esqueci deste detalhe fundamental que cobra um preço alto adiante, especialmente quando o sol brilhar mais uma vez nesta chuvosa primavera europeia.

Não quero inventar desculpas para tamanha displicência. “Sorry, but you have to pay the freight” (sinto muito, mas você tem de arcar com as consequências), me disse uma mochileira gordinha holandesa na estação de trem. Ela sentiu que eu estava abatido e europeu não dá ombro para você chorar.
O fato é que houve nas primeiras horas da manhã um desentendimento expressivo entre mim e La Madrasta II, minha mochila, por conta de uma arrumação imprevista. Para facilitar a mobilidade nesta nova fase da viagem, decidi colocar a mochila de ataque (pequena) dentro de La Madrasta II. Ela se revoltou, disse muitos desaforos e eu não deixei barato. De fato, ela ficou parecendo um colchão amarrado de mudança.

No final, acabou que prevaleceu minha vontade, embora ela tenha me acusado de misoginia e prometido levar o caso ao conhecimento da temida Guarda Civil espanhola, acostumada a lidar com terroristas. Para piorar, afirmou que enviaria cópia da queixa ao gabinete da deputada Sônia Guajajara, ex-ministra dos povos originários.
Diante de risco de ter uma palestra com uma assombração de cocar, decidi recolher as armas e fazer importantes ponderações. Em primeiro lugar, não chamei La Madrasta II em nenhum momento de rapariga ou sapatão.

Depois, tentei explicar que ela é uma mochila Lowe Alpine, inglesa puro sangue, e que não havia nenhuma relação com nossos queridos e laboriosos ameríndios. Veio a compreensão e consegui debelar a revolta dos despossuídos.
Desci do trem 7,5 km antes de Soto del Barco, (Espanha), meu destino programado. Decidi fazer o trajeto a pé seguindo o Caminho del Norte, trilha mais longa da peregrinação a Santiago de Compostela. O objetivo era só mesmo testar meu coração e minha capacidade física. Zero de religião ou busca de paz interior.
Foi meio punk subir de cara por 4 km, mas fui bem devagar, descolei um gatorade para ter mais energia, tinha uma barra de chocolate e muita vontade de voltar a fazer trekking depois do infarto. Devo tudo isso à dra. Juliana Tranjan, minha cardiologista, que não só salvou minha vida como não me deixou cair em depressão.

Ué, na verdade o mapa do Wikiloc (aplicativo de trekking) estava errado. Não fazia sentido seguir a linha do trem. Decidi ir por uma estrada vicinal repleta de ciclistas. Impressionante como na Europa os motoristas respeitam os atletas. Não tem pressão, não tem buzina ou outras deselegâncias. Simplesmente, eles reduzem a velocidade e aguardam o momento da ultrapassagem. No Brasil, os caras passam por cima e acham que são donos da cocada preta.
Eu havia decidido que em razão de estar nas Astúrias também queria um principado para chamar de meu. Já houve manifestação de Syvinha de Melo, minha eterna cunhada, e de Bel Coelho, amiga do coração, no sentido de fazer parte desta corte nada real. Vocês sabem que estão incluídas. Inclusive, avisei o dr. Irapuan Costa Jr que ele é um integrante emérito do meu principado com muito orgulho.
Muito bem, estava em Avilés morto de fome e passei em frente de uma pizzaria chamada “La Competencia”. Não tem cabimento um nome deste para um restaurante italiano falsificado. Preciso deixar bem claro que não como pizza nem sanduíche mesmo que seja remunerado para tanto. Ao contrário do Brasil, comigo nada termina em pizza.
Depois, já tenho um palácio do século 18 no qual estou instalado após o trekking que não pôde ser considerado desafiador. Trata-se do Hotel Palacio de la Magdalena em Soto del Barco. Não gostei muito do nome, mas o fato é que estou regiamente instalado e hoje vou tomar um piau (vinho da noite) para fechar com pleno êxito a posse do meu imenso principado que ainda vai tornar-se um império colonial ou quem sabe uma dinastia.
Todos os amigos são bem-vindos ao palácio. Aqui o coração está machucado, mas é grande e cabe todo mundo. La Madrasta II fez observação importante ao chegar no pueblo (aldeia) ao notar uma placa na qual se enfatiza que Soto del Barco está engajado na luta contra violência de gênero. Meu principado também.
Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.

