O legado de Humberto Delgado: a longa espera no Aeroporto de Lisboa
02 junho 2026 às 17h21

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Ycarim Melgaço
Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim
Se o General Humberto Delgado (1906–1965) pudesse ver o que acontece hoje no aeroporto que leva seu nome, em Lisboa, talvez preferisse a calmaria dos quartéis. O icônico militar da Força Aérea Portuguesa, fundador da TAP e líder da oposição que peitou a ditadura de Salazar, ganhando o justo apelido de “General sem Medo”, dedicou a vida a encurtar distâncias e rasgar os céus.
Ironias da história: hoje, seu nome batiza o maior teste de resiliência psicológica para quem tenta entrar na Europa. O aeroporto de Lisboa não voa; ele trava. Para o turista brasileiro, a chegada à progressista e charmosa capital portuguesa tem sido precedida por um purgatório burocrático.
Não são raros os relatos de passageiros endossados por uma enxurrada de vídeos de indignação no YouTube e reportagens na mídia internacional que enfrentam três, quatro ou até cinco horas de pé, espremidos em filas labirínticas na Imigração. O elemento surpresa virou a regra: a menos que você dê a sorte divina de desembarcar num hiato bendito de voos, prepare-se para ver o relógio derreter.
O caos é tamanho que conexões para o resto do continente são perdidas diariamente, transformando saguões em acampamentos improvisados de passageiros exaustos.
A situação ganha contornos de comédia pastelão quando olhamos para a TAP. A companhia aérea, orgulho fundado por Delgado, opera hoje em nada menos que 14 capitais brasileiras. É um fluxo formidável de brasileiros que lotam os Airbus da empresa em busca do sonho europeu, dividindo as pistas com gigantes como Latam e Azul. Portugal escancara as portas nos outdoors e nos guichês de vendas, mas na hora de acolher o viajante em solo firme, a estrutura da Portela pede arrego.
Para tentar conter o incêndio e estancar a sangria das filas, o governo português tomou uma medida drástica recentemente: decidiu suspender temporariamente a implementação do novo Sistema de Entrada e Saída do Espaço Schengen, o temido EES.
Anunciado há cerca de uma década e adiado pelo menos três vezes, o EES promete (ou ameaça) ser o substituto definitivo dos velhos carimbos de tinta no passaporte, uma herança romântica do século passado que já vai tarde. A ideia do sistema europeu é automatizar tudo: escaneamento de passaporte biométrico, reconhecimento facial, digitais e registro eletrônico de entrada e saída.
Estive em Paris agora em maio de 2026 e cruzei a fronteira sem que ninguém me pedisse absolutamente nada disso. A França flui; Portugal engasga. Incapaz de gerenciar a própria demanda com os recursos atuais, o governo lusitano percebeu que aplicar as regras do EES agora em Lisboa seria o equivalente a tentar passar um elefante pelo buraco de uma agulha.
A suspensão do sistema não é um favor ao turista; é um atestado de falência logística. É a admissão de que a burocracia digital, concebida para agilizar, viraria o golpe de misericórdia em um aeroporto já sufocado.
O passaporte carimbado virou peça de museu, mas a incompetência operacional parece ter raízes perenes. Viajar para a Europa via Lisboa tornou-se um ato que exige o mesmo desassombro do velho general da aviação.
A diferença é que Humberto Delgado enfrentava o salazarismo para libertar um país; o turista moderno enfrenta o aeroporto de Lisboa apenas para ter o direito de começar as férias. Quem corre, perde a conexão. Quem espera na fila… reza para o General sem Medo abrir os caminhos.



