O dia em que descobri Nazca
16 abril 2026 às 17h21

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Ycarim Melgaço
Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim
O primeiro livro “de adulto” que li apareceu numa estante muito especial.
Era o acervo de um tio que havia morrido muito jovem, com pouco mais de trinta anos.
Aquela biblioteca era, de certa forma, o que restava vivo dele.
Folheando os livros, me deparei com um best-seller da época, lá pelos anos 1970.
O título era uma pergunta irresistível para um adolescente curioso: “Eram os Deuses Astronautas?”
O autor tinha um nome estranho, duro de pronunciar, um suíço-alemão chamado Erich von Däniken, que ficaria famoso no mundo inteiro defendendo a ideia de que antigos deuses poderiam, na verdade, ter sido extraterrestres.
Sentei-me num canto da casa e comecei a leitura.
Confesso: nunca fui muito seduzido pela parte dos extraterrestres.

O que me capturou foi outra coisa: a forma como ele colocava lado a lado civilizações milenares, como se tudo fizesse parte de um mesmo contexto.
Egito e suas pirâmides, as civilizações do México, astecas, toltecas, maias e, aqui mais perto de nós, um povo que viveu no sul do Peru, em plena região desértica, muito antes dos incas.
Esse povo, os Nazca, floresceu aproximadamente entre 200 a.C. e 600 d.C.
Os Nazca tinham duas coisas que me deixaram completamente fascinado.
A primeira: desenvolveram um sistema impressionante de aquedutos subterrâneos, revestidos de pedra, para levar água potável em um dos lugares mais secos do planeta.
Muitos desses canais, conhecidos como puquios, continuam em funcionamento até hoje.
A segunda eram os desenhos no solo.
Geóglifos gigantes traçados no deserto: um beija-flor de geometria hipnótica, uma aranha, e outras figuras que só fazem sentido quando vistas do alto, como se tivessem sido desenhadas para olhos que vêm do céu.
Entre elas, uma figura humana curiosa, que Däniken chamava de “o astronauta”.
A cabeça grande, algo como um capacete, o braço levantado…
Para ele, aquilo era quase uma saudação de um visitante de outro planeta.
Eu, adolescente, não embarquei totalmente nessa viagem.
O que me inquietava era outra pergunta: como é que aqui, tão perto do Brasil, existiram civilizações com engenharia hidráulica sofisticada e conhecimento astronômico complexo e isso praticamente não aparecia nos livros de História da escola?
Aprendíamos sobre o Egito, no norte da África, mas não sobre essas civilizações riquíssimas ao nosso lado, na América do Sul.
Alguns anos depois, aos dezenove, esse incômodo virou desejo de ver de perto.
Foi quando fui ao Peru pela primeira vez.
A viagem de Lima até Nazca já é, por si só, uma preparação.
A estrada recorta os Andes, entre curvas e desníveis, enquanto a paisagem vai ficando cada vez mais árida, até que o verde quase desaparece e o deserto se impõe.
Chegar a Nazca foi como entrar dentro do livro que eu tinha lido na adolescência.
Na cidade, pequenos aviões oferecem sobrevoos pelas linhas.
E foi ali que descobri algo que o livro não me contara: Nazca também guardava a história de uma pesquisadora alemã, Maria Reiche, que dedicou mais de cinquenta anos àquele deserto.
Um guia local me levou até ela.
Maria já estava idosa, hospedada num hotel simples, mas com um olhar vivo de quem havia passado décadas medindo, calculando e protegendo aquelas linhas do abandono.
E foi com ela que ganhei uma segunda janela para Nazca.
Enquanto Däniken via nas figuras uma espécie de pista de pouso para deuses astronautas, Maria lia o deserto como um grande observatório.
Segundo seus estudos, muitas linhas se alinhavam com o nascer e o pôr do sol em solstícios e equinócios.
Para ela, os Nazca usavam aquelas figuras como um calendário astronômico, essencial para prever chuvas, organizar colheitas e sobreviver num ambiente extremo.
Ela levantava ainda uma hipótese intrigante, talvez tenham usado balões rudimentares para observar de cima aquilo que desenhavam no chão.
Porque, quando estamos ali embaixo, caminhando pelo deserto, o que vemos são apenas faixas largas de terra clara.
Não vemos o beija-flor, nem a aranha, nem o “astronauta”.
O sentido aparece mesmo quando o avião sobe e o desenho se revela por inteiro.
Voltei de Nazca levando duas coisas na bagagem.
A primeira foi a confirmação de que o livro de Däniken teve, sim, um papel importante na minha história. Foi através das especulações dele que descobri aquela civilização.
A segunda, talvez mais transformadora, veio com Maria Reiche: uma leitura enraizada, paciente, científica e, ao mesmo tempo, profundamente poética de um povo que usava o céu para organizar a vida na terra.
Acreditar ou não em deuses astronautas, no fim das contas, virou detalhe.
O que ficou foi o encontro com uma América do Sul que raramente cabe nos nossos currículos escolares:
capaz de construir aquedutos subterrâneos que ainda funcionam
e de desenhar no deserto um calendário de estrelas.
Para quem cresce no Brasil, olhar para Nazca é um pouco como olhar para um vizinho que sempre esteve ali, mas que a gente nunca se deu ao trabalho de conhecer.


